Acciona, Rick Wakeman, STF…
Nem todo mundo tem tempo (ou estômago) para acompanhar o noticiário inteiro. É guerra lá fora, escândalo aqui dentro, político fazendo dancinha no TikTok e economista prometendo milagre com inflação alta. Enquanto isso, você tenta sobreviver à vida real. A gente entende.
Por isso nasceu o Condensado: uma dose diária de realidade em 6 tópicos, com informação quente, ironia fria e aquele comentário ácido que você gostaria de ter feito — mas estava ocupado demais trabalhando pra pagar o boleto.
Aqui não tem enrolação, manchete plantada ou isenção fake. Tem olho cirúrgico e língua solta. O que rolou (ou rolará) de mais relevante no Brasil e no mundo vem aqui espremido em 10 linhas (ou menos) por item. Porque o essencial cabe — e o supérfluo, a gente zoa.
Informação? Sim. Respeito à inteligência do leitor? Sempre. Paciência com absurdos? Zero.
Bem-vindo ao Condensado. Pode confiar: é notícia, com ranço editorial.
Erika Kokay, Janja, Boulos, Padilha e o enterro oficial de “todes”: quando a linguagem simples vira ferramenta para complicar a vida de quem lacra por esporte
A Câmara decidiu e a língua portuguesa — aquela senhora cansada, mas perseverante — ganhou um descanso: adeus a “todes”, “elu”, “amigue” e demais escolhas estéticas que fizeram muita gente confundir ativismo com reforma gramatical por decreto. O curioso é que a lei que sepultou a linguagem neutra tem assinatura de Erika Kokay, justamente uma voz histórica da esquerda e aliada de bandeiras LGBTQIA+. A ironia é tão saborosa que merecia uma plaquinha no Museu da Língua Portuguesa. Enquanto isso, a ala festiva do Governo Lula tenta digerir a notícia. Janja, que já abriu cerimônias mandando “boa noite a todos, todas e todes” com a naturalidade de quem pede um cafezinho, agora terá de recalibrar o dial. Também entram no hall dos que precisarão revisar vocabulário: Alexandre Padilha, Silvio Almeida, Márcio Macedo e o próprio Guilherme Boulos, cuja campanha à prefeitura de São Paulo já nos brindou com a versão alternativa do Hino Nacional dizendo “desfiles deste solo” — algo que ninguém, até hoje, conseguiu explicar sem corar. O Governo ainda não sabe o que fará com 404 livros sobre linguagem neutra. Talvez virem decoração de biblioteca temática; talvez se transformem em futuros objetos arqueológicos sobre modas políticas passageiras. No fim, a tal “linguagem simples” conseguiu o feito de gerar um debate complexo, paradoxal e deliciosamente brasileiro: um país que fala difícil para parecer inteligente, inventa pronomes para parecer progressista e agora aprova leis para parecer objetivo.
Bolsonaro, tornozeleira, pregabalina, Dino, Moraes, vigília e a paranoia que virou jurisprudência: quando o ex-presidente alega que confundiu a tornozeleira com um grampo e tentou abrir com ferro de solda
O STF passou o fim de semana avaliando se mantém ou não a prisão preventiva de Jair Bolsonaro, detido desde sábado após violar a tornozeleira eletrônica e acender todos os alertas da PF. Alexandre de Moraes abriu a votação mantendo a prisão, citando confissão do próprio ex-presidente na audiência de custódia: sim, ele tentou abrir a tornozeleira com um ferro de solda, num “surto” provocado por medicamentos psiquiátricos. A explicação envolve paranoia, alucinações e a crença de que o aparelho tinha uma escuta embutida. Flávio Dino acompanhou o voto, citando a convocação de vigília feita por Flávio Bolsonaro e o risco de fuga já demonstrado por aliados do ex-presidente. A Primeira Turma analisa tudo isso em plenário virtual, com Zanin e Cármen Lúcia inclinados a manter a prisão. Enquanto isso, a defesa corre para apresentar embargos. Bolsonaro já cumpre pena de 27 anos por tentativa de obstruir o processo do golpe — sentença ainda não transitada. O episódio da tornozeleira, no entanto, parece ter se tornado peça central em uma narrativa cada vez mais surreal: um ex-presidente alegando delírio químico para justificar o derretimento literal de uma medida cautelar. No fim, o Supremo decide se o surto vira atenuante, agravante ou mais um capítulo de realismo grotesco na política nacional.
Tarcísio, Acciona, PSOE, Santos Cerdán e a dança das grandes obras: quando um escândalo espanhol vira dor de cabeça bilionária no metrô paulista, no centro administrativo e até no túnel que ninguém pediu
No Palácio dos Bandeirantes, a ordem é simples: finge calma, mas entra em pânico por dentro. Tarcísio de Freitas, que construiu sua aura de gestor com concreto, brita e licitações que brilham ao sol, observa com apreensão a Acciona, gigante espanhola que agora virou protagonista involuntária daquilo que a imprensa madrilenha já batizou de “Lava Jato ibérica”. O problema é que a empresa está enfiada até o último trilho na Linha 6-Laranja, um empreendimento de R$ 18 bilhões — número que faz qualquer governador presidencialista perder o apetite. Como se não bastasse, a mesma Acciona é a favorita da PPP do novo Centro Administrativo Campos Elísios, a sede monumental por onde Tarcísio sonhava desfilar como estadista, caso a fatura dos R$ 6 bilhões seja aprovada sem sobressaltos. E ainda tem o túnel Sena Madureira, modesta obra de R$ 800 milhões, que já começa a parecer aquele elefante branco que chega mancando antes mesmo de ficar pronto. Os assessores de Tarcísio passam o dia monitorando as autoridades espanholas como adolescentes stalkeando ex nas redes sociais. Cada linha do relatório da Guarda Civil Espanhola acrescenta uma pitada de ansiedade à equação. Não é para menos: a Acciona aparece num esquema envolvendo repasses à Servinabar, empresa ligada a Santos Cerdán, um dos homens fortes do PSOE e braço direito de Pedro Sánchez. Para São Paulo, isso significa risco de atrasos, cancelamentos, desgastes e, claro, manchetes azedas. A proximidade com uma empresa sob suspeita pode até virar munição para adversários que esperam apenas um tropeço de Tarcísio no seu caminho presidencial. Consultados, governo e Acciona responderam com aquele silêncio constrangedor que já virou clássico corporativo: no comment. Enquanto isso, as obras seguem — ou fingem seguir — num ritmo que só o tempo (e os juízes espanhóis) dirão se será sustentável.

Rick Wakeman, Bowie, Elton John, o Yes, três infartos e a hidrocefalia: quando o mago dos teclados volta do centro da Terra para dizer que ainda erra notas — e está tudo bem
Rick Wakeman, o homem que transformou teclados em exércitos sonoros e sintetizadores em instrumentos de guerra cósmica, revelou ao público que passou por uma cirurgia cerebral em setembro. A notícia veio atrasada, discreta e num tom britanicamente elegante: “A cirurgia foi um sucesso e estou sendo cuidado pela minha esposa e pelos nossos animais”, escreveu o ex-Yes. Com 76 anos e um prontuário que faria qualquer médico desistir da profissão — três ataques cardíacos antes dos 25, cirrose, hepatite, pneumonia e degeneração macular — Wakeman continua ativo e espirituoso. Disse que a cirurgia não afetou sua capacidade de tocar piano: ainda erra notas quando perde a concentração. A turnê americana, adiada por motivos óbvios, foi remarcada para 2026. A promessa é de palco, sintetizador, cromatismos épicos e talvez uma ou outra piada autodepreciativa. Wakeman, que despediu-se do Brasil em 2024 em uma turnê que acabou não sendo bem uma despedida, já parece preparado para mais algumas voltas pelo globo. A hidrocefalia de pressão normal, diagnosticada recentemente, já foi tratada com derivação cerebral. E, num mundo em que popstars entram em reabilitação por motivos mais boêmios, Wakeman vai sobrevivendo a si mesmo, ao rock progressivo e ao destino. Para quem quase se despediu da vida antes dos 30, chegar aos 76 brincando com erros de nota é um triunfo digno de uma suíte sinfônica.
República Tcheca, Eslováquia, 1992 e o divórcio mais civilizado da História: quando dois países decidem que é melhor cada um no seu canto — sem tanque, sem grito e sem cueca atômica
Em 25 de novembro de 1992, o parlamento tcheco selou o que talvez seja o divórcio mais elegante que a Europa já viu: a dissolução da Tchecoslováquia. Nada de guerras fratricidas, tanques atravessando avenidas, sanções ou líderes berrando em varandas. Só um aperto de mãos, um voto afirmativo e uma troca de chaves: de um lado, a República Tcheca; do outro, a Eslováquia. Um caso raro em que política se comporta como adulto. O episódio, conhecido como “Divórcio de Veludo”, é hoje lembrado com certa melancolia por quem acredita, ingenuamente, que negociações podem ser civilizadas. Em pleno 2025, parece até ficção científica: dois países que decidiram que a união já não fazia sentido e seguiram caminhos separados sem recorrer à coreografia do caos. Enquanto isso, o resto do mundo, sempre tão disposto a brigar por territórios, recursos ou ego, observa o exemplo tcheco-eslovaco com a mesma reverência que guardamos para receitas de bolo da avó: sabemos que existe, mas ninguém mais consegue reproduzir.

Revisão da vida toda, INSS, STF, Barroso, Mendonça e a matemática previdenciária que só funciona no papel: quando o Supremo decide que vale, depois decide que não vale, mas garante que ninguém devolve nada
O STF formou maioria contra a “revisão da vida toda”, aquela tese previdenciária que permitiria incluir contribuições anteriores a 1994 no cálculo das aposentadorias. Em 2022, o Supremo havia decidido exatamente o contrário — e aqui reside o charme kafkiano da jurisprudência brasileira: ela muda antes mesmo de valer. A confusão levou milhares de aposentados a ingressar na Justiça, muitos ganhando ações em primeira instância. Agora, com o entendimento de 2024 prevalecendo, a revisão está enterrada. Alexandre de Moraes, relator, propôs cancelar a tese de repercussão geral favorável à revisão e ajustar tudo ao novo entendimento. Ministros como Zanin, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia e Nunes Marques acompanharam. A divergência ficou com André Mendonça e Rosa Weber — esta já aposentada, o que dá um toque adicional de tragicomédia institucional. A decisão, porém, trouxe uma salvaguarda: quem já recebeu retroativos não precisará devolver um centavo. Para o INSS, é um alívio parcial; para os aposentados, uma vitória que vale apenas para quem chegou primeiro; e, para os advogados, o lembrete de que direito previdenciário no Brasil é esporte radical. O julgamento termina no dia 25, mas a sensação é a de que o Supremo apenas fechou um ciclo que ele próprio criou — e que agora tenta organizar sem admitir que confundiu o país inteiro.
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Franco Atirador assina as seções Dezaforismos e Condensado do Panorama Mercantil. Com olhar agudo e frases cortantes, ele propõe reflexões breves, mas de longa reverberação. Seus escritos orbitam entre a ironia e a lucidez, sempre provocando o leitor a sair da zona de conforto. Em meio a um portal voltado à análise profunda e à informação de qualidade, seus aforismos e sarcasmos funcionam como tiros de precisão no ruído cotidiano.




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