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Acossado: um clássico da Nouvelle Vague

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Jean-Luc Godard, em Acossado (À bout de souffle, 1960), não fez apenas um filme: cometeu um abalo sísmico no cinema, desses que racham o chão e obrigam todo mundo a rever o mapa. O longa, que hoje circula como peça de museu e fetiche de cinéfilo tardio, nasceu como rebeldia crua, improvisada, quase desleixada — e por isso irresistível. Enquanto Hollywood polia seus heróis com brilho de carro novo, Godard preferiu exibir a ferrugem, as falhas, as hesitações, como se o cinema tivesse, enfim, permitido a si fumar no banheiro da escola. E fez isso com uma desenvoltura que, mesmo hoje, ainda soa mais fresca que muita produção “visionária” lançada ontem à noite na plataforma de streaming da moda.

Se Michel Poiccard, interpretado com insolência charmosa por Jean-Paul Belmondo, tornou-se símbolo do anti-herói moderno, é porque Godard entendeu algo que a própria indústria levaria décadas para aceitar: o espectador às vezes quer torcer pelo errado. Michel é ladrão, é mentiroso, é apressado, é vaidoso — e é humano. A câmera o segue como se tentasse alcançar sua própria pulsação, num estilo que depois seria canonizado como “mobilidade estética”, mas que, à época, era só a falta de equipamento e a vontade de fazer tudo rápido antes da polícia francesa pedir licença de filmagem.

“O diálogo final, repetido, ressignificado, mastigado pelos teóricos, ainda reverbera como um tapa dado com luva de veludo. O filme termina onde começa: na dúvida, no cinismo, na beleza do inacabado. Godard não nos entrega respostas — entrega estilo. E estilo, no cinema, nem sempre é supérfluo; às vezes é tudo.”

A parceria com Patricia, vivida por Jean Seberg, tem o charme desengonçado das conversas que se alongam mais do que deveriam. Explicações demais estragariam a química, que é justamente feita de silêncios tortos e frases aparentemente banais sobre jornalismo, amor e liberdade. Godard desconstrói o romance ao mesmo tempo que o alimenta. Ele não quer que a gente se deite confortavelmente na trama: quer que a gente tropece. E, ironicamente, é esse tropeço calculado que dá ao filme a sensação de autenticidade — aquela ideia de que a vida nunca acontece com a elegância das comédias românticas, mas sim com improviso, nervo e um pouco de má fé.

O resultado é uma narrativa que corre com pressa e preguiça ao mesmo tempo, como se tivesse consciência de que estava inaugurando um movimento inteiro, mas fingisse que não liga. A estética da Nouvelle Vague — cortes bruscos, enquadramentos imprecisos, personagens que falam demais e explicam de menos — está toda ali, ainda sem os vernizes teóricos que críticos posteriores tentaram enfiar goela abaixo. Acossado é bagunçado, é jovem, é desobediente. E, claro, é brilhante.

Onde termina o charme e começa o artifício?

Com o passar das décadas, o filme foi elevado a patamar sagrado, e talvez seja aí que mora o perigo. A cultuação excessiva transformou Acossado numa espécie de relíquia intocável, como se qualquer contestação fosse heresia. Mas é justamente por ser um manifesto da liberdade formal que o longa permite — exige — releituras críticas. O estilo telegráfico dos diálogos, por exemplo, ainda funciona como provocação poética, mas há momentos em que o jogo parece mais preocupado em mostrar que sabe ser “esperto” do que em comunicar algo genuíno. A rebeldia, quando repetida, vira recurso; quando canonizada, vira fórmula.

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Mesmo assim, Godard nunca cai na armadilha da autopiedade estética. Ele sabe que está tensionando o cinema clássico, sabe que está brincando com os limites do olhar do público. A famosa técnica dos jump cuts, que tantos estudantes de audiovisual copiaram sem entender, funciona aqui como mantra: o filme avança aos solavancos porque seus personagens também avançam assim na vida. A forma é o conteúdo — eis a ousadia. E essa ousadia, mesmo analisada com distanciamento crítico, continua magnética.

Se Belmondo oferece um espetáculo de carisma insolente, Seberg faz o contraponto com uma frieza calculada, aquela pureza falsamente ingênua que só grandes atrizes conseguem encenar. O diálogo final, repetido, ressignificado, mastigado pelos teóricos, ainda reverbera como um tapa dado com luva de veludo. O filme termina onde começa: na dúvida, no cinismo, na beleza do inacabado. Godard não nos entrega respostas — entrega estilo. E estilo, no cinema, nem sempre é supérfluo; às vezes é tudo.

Godard, em Acossado (À bout de souffle, 1960), não fez apenas um filme (Foto: Arquivo)
Godard, em Acossado (À bout de souffle, 1960), não fez apenas um filme (Foto: Arquivo)

Rever Acossado é um exercício de arqueologia emocional. Somos convidados a revisitar um tempo em que o cinema ousava quebrar regras sem medo de algoritmo, sem receio de trending topics, sem exigência de final edificante. Um tempo em que a juventude não era vendida, mas expressa. O longa permanece símbolo de insubmissão, lembrando-nos que a arte só respira quando desobedece. Talvez seja por isso que, mais de seis décadas depois, ele continue acossando não apenas a tradição cinematográfica, mas também nossa própria acomodação cultural.


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