Alethéa Vollmer: “A educação nunca mais será a mesma”

Alethéa Vollmer

Alethéa Vollmer é psicóloga, mestre em Ciências Criminais com ênfase em Violência, graduada em Psicologia pela UNISINOS, no Rio Grande do Sul, além de professora de MBA em Gestão de Marcas – Branding e Assistente Técnica do Judiciário em Processos. No segmento corporativo, Alethéa é partner do Saindo da Média, metodologia que visa auxiliar a empregabilidade desde os estudantes na Universidade, até pessoas que buscam por trabalho, recolocação profissional, executivos, etc. A especialista ressalta que não existe o “aceitar-se naturalmente”, porque as pessoas não têm um natural, estão baseadas em conceitos de identidade que ancoram o psicológico a partir do reconhecimento pelo mundo externo. “A transição capilar neste contexto é um exemplo, onde as pessoas conseguem a partir da escolha de como querem seu cabelo estarem bem consigo. Normalmente os negros que passam por essa transição capilar necessitaram passar uma vida alisando seus cabelos, mudando, usando peruca, invejando o cabelo do outro porque o cabelo do outro vinha de um lugar de aceitação, um lugar de beleza, de apreciação e o cabelo cacheado não, então quando falamos de identidade queremos dizer que está tudo bem se você quiser alisar o cabelo cacheado, enrolar o cabelo liso, o que não se pode mais, de forma alguma é dizer que há um tipo de cabelo que valha e outro que não”, afirma.

Alethéa, estamos vivendo em um momento de grande complexidade. Mulheres e homens lidam de forma diferente com esse momento?

Sem dúvida sim! Mulheres por historicamente pertencerem ao mundo do cuidado puderam se relacionar de forma mais plena com seus sentimentos e, por consequência, com suas angústias. Elas vêm exercitando isso por muitos séculos e de várias formas, na relação com os filhos, com parentes, empregados. Enquanto elas criavam formas plurais de se relacionar e de estarem mais próximas do que sentiam, tentando dar um significado para isso, os homens, em sua maioria, estavam exercitando exclusivamente o estar no mundo do trabalho, eles não estavam preocupados com sentimentos, mas sim preocupados com seu ofício, com seu fazer.

Então, chega uma pandemia e o que muda? Muda tudo, para todos, mas os homens, (para a maioria deles) refletiram de forma menos complexa: bom, se eu não posso mais ir para o meu escritório, eu preciso fazer um novo espaço que é a casa. Dessa forma enquanto as mulheres precisaram readequar muitas coisas, desde seu trabalho até o home schooling das crianças, os homens fizeram seu novo escritório e ali continuaram exercendo seu papel mais importante.

A mulher, diante da pandemia, também mudou a forma de trabalhar. Porém, ela precisou se reorganizar com os filhos, a escola, o serviço da casa… Isso fez com que, embora angustiada e precisando fazer muitas coisas, fosse efetivando a partir do que ela estava entendendo que ela precisava naquele novo espaço.

Eu digo uma frase que já virou comum e acho muito interessante: a gente vai trocando o pneu do carro com ele em movimento.

Nesse momento, a mulher foi fazendo isso e o que eu mais vejo de diferente é que ela consegue falar o que sente. Ela se queixa no grupo de WhatsApp da escola dos filhos o quanto está se sentindo sobrecarregada, o quanto virar professora antes e depois de uma reunião de trabalho é algo surreal, ela fala com a amiga de que o cabelo está embranquecendo e que as unhas dos pés estão necessitando desesperadamente de uma pedicure. E os homens? Embora também estejam sentindo as mudanças e sobretudo sentindo-se desassossegados pelas perdas de ordem objetiva e subjetiva, eles não se permitem falar a respeito, é como se tivessem sido convocados para guerra, então precisam lutar independentemente se quer ou se está com medo.

Ansiedade e estresse tiveram um aumento nesse período?

Sim, segundo Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), entre os meses de agosto e novembro de 2020 a demanda aumentou em 82% o número de novos casos de transtornos mentais em consultórios particulares e 116% na rede municipal. O estudo ainda mostra que 70% dos pacientes que já tinham recebido alta do tratamento tiveram recaídas durante a pandemia.

Noto também para além dos números, que o comportamento ansioso aumentou e está mais sufocante. Pessoas com quadros ansiosos que não patologizados, criavam métodos para lidar com o desconforto: saiam para se exercitarem, encontravam amigos, frequentavam locais que lhes permitiam um afastamento do sintoma. Isto deixou de acontecer. Agora eles sentem a ansiedade e quando o pensamento do que fazer a respeito vem, vem também mais angustia, porque todas as possibilidades de lidar com o futuro que assusta tanto a este perfil de pessoas, está recheado de incertezas, perdas e nenhum planejamento, causando dessa forma um aumento significativo de sintomas.

Como lidar com as incertezas trazidas pelo novo coronavírus?

Falar sobre incertezas me dá uma sensação de futuro, porque o futuro é incerto. Uma das formas de lidar é tentarmos focar no aqui e agora, no que está funcionando, no que é possível mudar no presente, porque se nos pautarmos na falta do que estamos vivendo hoje, iremos paralisar. É importante olharmos para o futuro, mas precisamos entender que é o presente que vai fazer com que esse futuro aconteça, as incertezas trazidas pelo coronavírus só vão ser atacadas se ao invés de focarmos nas perdas diárias e que são incontáveis, possamos olhar para o que estamos conseguindo fazer diante de todo este caos vivido: mantermos nossa saúde física e mental é a mais importante delas.

Quais os maiores desafios que devem ser transpostos?

Os desafios servem para ser transpostos, não conseguiria te dizer quais os maiores porque não medimos o amor e dor, por exemplo, pois, são muito particulares. E o meu desafio vai ser diferente do teu, mas uma das formas de lidar com eles é entendermos que se não conseguimos dar conta de algo, está tudo bem, podemos pedir ajuda, mudar o desafio.

Os desafios são uma forma de nos fazer ativos, de nos fazer pensantes, conectados às nossas questões, não podemos exigir de nós além do que temos para dar, e quando não temos buscamos ferramentas para nos auxiliar.

Existe um lado bom em todo esse caos?

Sem dúvida. Estamos neste momento com um desafio que é pensar no que precisamos de fato, o que nos dá prazer, o que se faz fundamental para estarmos minimamente saudáveis no dia a dia. Isso é bem importante. Embora nos queixemos muito por todas as mudanças, por todas as perdas, por tanta dificuldade e falta de cuidados institucionais/governamentais, estamos descobrindo novas formas de fazer, novos jeitos de nos conectarmos conosco, novas formas de consumo: agora temos o abraço virtual, a taça de vinho cada um no seu lado da tela, a palavra de um que serve para vários e que faz sentido. Estamos reconectando com o que somos, o que queremos ou não queremos ser, e menos com o que temos. “Viajar é preciso, viver não é preciso” já dizia Fernando Pessoa.

Que impactos vieram para ficar?

A educação nunca mais será a mesma, os novos métodos de ensino vieram para mostrar como podem ser produtivos, suas vantagens e desvantagens, até romper o tabu do ensino à distância. Assim como a telemedicina, a forma de se relacionar com o outro a partir do mundo virtual. O e-commerce ganhou muita força e ressaltou a importância de profissões como a de motoboy, que até então era pouco valorizada. E todas essas novas formas de viver direcionaram os holofotes para a saúde mental, colocando-a como protagonista em meio a todo esse atual contexto.

No sexto mês da pandemia, você disse que deveríamos ficar atentos para o que está por vir. O que acrescentaria a essa fala depois de um ano pandêmico?

Eu já imaginava o impacto no nosso emocional, as pessoas ainda não estavam tão cansadas quanto hoje. Depois de um ano de pandemia, eu percebo que esse cansaço tem se transformado em stress e o stress durante muito tempo vai ocasionando doenças físicas, psicossomáticas, emocionais. Então, temos mais medo, angústia crescente desse futuro que nunca chega, desse “vai passar” que não passa – acabamos desenvolvendo formas de descarregar essa angústia, com isso tem aparecido mais os transtornos de ansiedade, de pânico, alergias, quedas de cabelo, compulsão, as pessoas têm consumido mais álcool e comida numa tentativa de se bonificar, de se manter um pouco mais nutridas e mais quentinhas de afeto – subterfúgios.

Há muitas coisas que eu acrescentaria neste momento, mas, sobretudo, que é necessário cuidar da saúde mental porque é a nossa base para seguir em frente. Na questão do luto, por exemplo, precisamos aprender a conviver com a perda e precisamos fazer isso neste momento, aprender a lidar com tudo que tem acontecido. E, para isso, a gente precisa dessa base psicológica de ouvir, ser ouvido, de ter um pouco mais de empatia, de paciência, é uma nova forma de nos relacionarmos. Temos que aprender a aproveitar mais os momentos que não dávamos tanto valor.

Precisamos entender que fazemos parte dessa máquina. Que pensar no outro é também e necessariamente pensar em si. Que nosso entorno é o que nos dá contorno. Colocar a sujeira embaixo do tapete só trará aparência de uma casa limpa. A nossa casa, nosso “eu” precisa de manutenção. A gente aguenta ficar alienado, anestesiado por um tempo, mas não por todo tempo.

Vamos voltar para as mulheres. Qual a maior diferença entre o conceito de identidade delas e o conceito de identidade de nós homens?

O conceito de identidade é a forma como nos vemos e nos aceitamos, e como o mundo também nos enxerga, pois, é a partir desses conceitos que estamos e vivemos o mundo. A identidade da mulher socialmente falando, se pararmos para pensar, é tratada de forma diferente da masculina. O homem nasceu para ser bravo, valente, caçar, construir, ter poder, desenvolver liderança, ser respeitado. E a mulher, nesse sentido, foi colocada no lugar onde tudo que não cabia no homem servia para ela. Mas foi um conceito de identidade também criado por homens, então há uma luta hoje histórica numa tentativa de igualdade entre homens e mulheres.

E isso, dentro do psicológico, não é a mola propulsora, embora seja a base para a construção do nosso conceito de eu. Nosso inconsciente não tem gênero, embora saibamos que vivemos em uma sociedade julgadora, preconceituosa e que nos enxergamos no outro a partir de modelos pré-determinados. Por isso temos que construir uma sociedade com outro olhar para podermos ter um pouco mais de generosidade, empatia para poder deixar a cada um ser da forma que se identificar melhor. Nosso inconsciente agradece!

Qual o papel da “transição capilar” nesse panorama?

A transição capilar neste contexto é um exemplo, onde as pessoas conseguem a partir da escolha de como querem seu cabelo estarem bem consigo. Normalmente os negros que passam por essa transição capilar necessitaram passar uma vida alisando seus cabelos, mudando, usando peruca, invejando o cabelo do outro porque o cabelo do outro vinha de um lugar de aceitação, um lugar de beleza, de apreciação e o cabelo cacheado não, então quando falamos de identidade queremos dizer que está tudo bem se você quiser alisar o cabelo cacheado, enrolar o cabelo liso, o que não se pode mais, de forma alguma é dizer que há um tipo de cabelo que valha e outro que não.

Nesse sentido, a transição capilar se transforma numa luta de libertação, quando eu me liberto eu digo para o outro aquilo que eu sou e o que me compõe, a história que vem por trás desse cabelo, a minha origem a minha raça as mazelas que vieram com isso, as histórias que fizeram com que esse cabelo não pudesse ser legitimado durante tanto tempo. Obrigatoriamente meu conceito de identidade passa por isso. Sou tudo aquilo que me compõe e nada nem ninguém tem o direito de me excluir por isso.

Essa libertação traz melhorias na autoestima?

Sem dúvida, porque quando eu consigo ser do jeito que eu me identifico, que me representa, eu me sinto mais poderoso, eu me sinto mais vivo, eu me sinto pertencente. Um exemplo são os adolescentes, como eles fazem para melhorar a autoestima? Eles se relacionam com pares, é na adolescência que os grupos são mais importantes (grupos de punk, rock, esporte, grupos de estudo), a autoestima se faz quando eu olho para mim e me sinto confortável em ser assim. Então, eu tenho meu cabelo e alguém olha e diz que é um cabelo possível, que é uma forma possível de estar no mundo, e quando eu acredito que o outro me respeita, me valoriza, me faz ter um lugar que não é um lugar que combina comigo, aumento minha autoestima, me liberta, me empodera.

Isso pode interferir nas escolhas do presente e nas expectativas em relação ao futuro?

Sim. Parece bobagem, mas a ‘simples’ aceitação por um cabelo, por exemplo, é capaz de interferir em escolhas de vida importantes, como profissões, parcerias sexuais e a forma como existir no mundo. As pessoas nunca chegam no ponto de se aceitar como são naturalmente, porque elas não têm um naturalmente. Estão baseadas em um conceito de identidade que ancora o psicológico a partir do reconhecimento pelo mundo externo.

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