Alexandre Coelho: “Inovação aberta requer assumir riscos”

 Alexandre Coelho

Em junho passado, a revista PEGN divulgou a lista das 100 Startups to Watch. Nela, está a paranaense TruggHub, plataforma de fretes especializada em cargas fracionadas. Baseada em uma rigorosa metodologia de análise de dados e amplo conhecimento de mercado, a seleção tem como objetivo promover conexões no ecossistema empreendedor e apontar as startups mais promissoras do país. A inclusão na lista é, portanto, a comprovação do sucesso do modelo. Recém-chegada ao mercado, a TruggHub tem se destacado pela inovação e diferencial no auxílio que presta à cadeia logística nacional, dando oportunidade a quem vende pela internet ou tenha operações de distribuição, de entregar seus produtos rapidamente, com eficiência e com preços de fretes extremamente competitivos. Desenvolvida como um marketplace que une empresas e transportadoras na logística de cargas fracionadas mais pesadas (acima de 30 quilos), um perfil de carga ainda difícil de lidar pelas soluções on-line, ela proporciona o compartilhamento de espaços ociosos em caminhões, por preços diferenciados. Desde que lançou seu serviço em fevereiro de 2020, a startup já movimentou mais de R$21 milhões em mercadorias transportadas. Neste período cresceu 500% em faturamento. A TruggHub conta, atualmente, com mais de 60 mil veículos cadastrados em sua base. “Estamos muito felizes e gratos por esse reconhecimento”, comemorou o CEO da TruggHub, Alexandre Coelho.

Alexandre, qual a sua avaliação sobre cadeia logística do nosso país?

Para mim, ‘ineficiência’ é a palavra que define a cadeia logística no Brasil. E esta ineficiência traz alto custo, desordem e péssima experiência para o consumidor. Temos grandes pensadores na logística nacional e grandes empresas investindo consideráveis recursos para melhorar a cadeia logística, mas ainda assim os ganhos incrementais são mínimos, porque as deficiências estão na base do nosso modelo logístico. Esse setor realmente precisa de mudanças disruptivas.

Quais os principais gargalos dessa cadeia?

A dependência do modal rodoviário certamente é uma delas. Nossa matriz de transporte depende fundamentalmente de caminhões, mesmo para grandes distâncias, o que acaba gerando um desbalanceamento sazonal entre demanda e oferta. Por exemplo, quando temos uma grande safra, há um deslocamento de caminhões para regiões específicas do país, gerando falta em outras regiões, prejudicando assim a distribuição local. Se o transporte desta safra ocorresse majoritariamente pelo modal ferroviário, como acontece em outros países, o uso de caminhões se concentraria em trechos intermediários locais, como da fazenda para a estação de transporte ou de um terminal de carga para um porto. Isso permitiria uma melhor distribuição destes ativos logísticos ao longo da cadeia de suprimento, evitando gargalos.

Mas outro problema crítico que não podemos deixar de mencionar é o da nossa infraestrutura, que é bastante deficitária. Temos até uma boa malha no eixo Sul-Sudeste, mas no restante do país as condições são péssimas! Levar uma carga para Boa Vista, em Roraima – que é uma capital – é uma verdadeira aventura!

E assim, obviamente o frete fica mais caro, pois, as más condições da estrada aumentam os custos de manutenção; a disponibilidade de motoristas para fazer o trajeto é mínima; e obter um frete de retorno é algo incerto, obrigando muitas vezes o caminhão a voltar vazio (um custo que certamente é repassado para o preço do frete).

Como esses gargalos tiram a potencialidade desse setor?

Os problemas mencionados geram essa ineficiência que comentei inicialmente, entre outros fatores que contribuem para isso. No final das contas os efeitos são sentidos de três formas: custo de frete elevado; prazos de entrega muito longos; e experiência decepcionante para os participantes da cadeia. Isso prejudica a nossa economia como um todo, pois, desacelera os negócios.

Segundo as estatísticas do e-commerce, por exemplo, cerca de 60% dos consumidores on-line abandonam o carrinho por causa do preço do frete. E cerca de 18% desistem em função de prazo de entrega muito longo. Pode soar estranho para quem está nos grandes centros, onde está cada vez mais comum as entregas em 24 horas ou até no mesmo dia, mas para quem está em regiões mais afastadas, a realidade são entregas que demoram de uma a duas semanas.

Agora imagine se de modo geral pudéssemos entregar mercadorias de forma mais capilarizada, com menos custo, menor prazo e com uma experiência digital de acompanhamento da entrega, com informação em tempo real e possibilidade de interação entre o consumidor e o entregador para evitar desencontros? Isso, por si só, faria os negócios acelerarem.

A falta de inovação pode ser considerada como um dos principais problemas?

É difícil quantificar a inovação, então seria difícil afirmar que falta inovação no setor, pois, inovação há, só que não está gerando o impacto necessário ainda. O que certamente falta é uma mentalidade inovadora mais densa. Porque inovação tem muito mais a ver com cultura do que com tecnologia. De nada adianta uma ampla oferta de tecnologia como temos hoje se não há uma consciência de adoção.

Um ponto fundamental sobre isso é a questão ambiental. A logística é uma atividade altamente poluente, isso é notório, mas pouco se faz e pouco se investe para reduzir a pegada de carbono da logística. Tecnologia existe para isso! Temos já consolidada, por exemplo, uma oferta de veículos de carga elétricos que poderiam ser usados massivamente na distribuição urbana, mas se não houver uma consciência ambiental, que começa pela preocupação em reduzir essas pegadas e com a medição das emissões sob sua responsabilidade, não haverá adoção destas tecnologias. Então eu acho que o que precisamos de falto na logística não é mais inovação e sim mais pessoas inovadoras.

Como a TruggHub surge nesse contexto?

Acho que um papel importante que procuramos desempenhar no setor é justamente o de desenvolver essa cultura inovadora na logística. É o que chamamos de Logística Digital. A movimentação de mercadorias é, obviamente, uma atividade física, tangível. Mas a logística não é movimentação de mercadorias! A logística é inteligência aplicada a essa movimentação. Então precisamos disseminar a pensamento ágil (o Business Agile) que tanto caracteriza a nova economia dentro da logística. Mais do que construir e disponibilizar produtos digitais, precisamos inspirar pessoas a adotarem essa mentalidade.

Assim, procuramos ser um drive de inovação para clientes embarcadores e transportadoras parceiras, promovendo a adoção de novas tecnologias no contexto de cada um. Alguns têm mais poder de investimento, outros precisam se unir e cooperar mais para gerar um impacto significativo em suas operações. Buscamos conectar essas pontas para promover o impacto disruptivo que o setor necessita.

Quais os principais pilares da startup?

Um dos pilares mais fortes é esse conceito de que inovação é cultura. Inovação não se trata de desenvolver software ou adquirir gadgets. isso é necessário, mas é um desdobramento da inovação. Se você fundar a sua estratégia de inovação na aquisição de tecnologia simplesmente, isso só gerará frustração em consumir uma parcela significativa do seu budget sem alcançar resultados significativos.

Comece olhando pra dentro e mudando a cabeça das pessoas da sua organização. Sempre desafiamos os nossos clientes e parceiros com essa provocação… ‘você está pronto para atuar com startups? Você sabe operar no modelo de inovação aberta?’ Inovação aberta requer assumir riscos, participar do design das soluções, compartilhar os resultados e, sobretudo, escolher parcerias de longo prazo. Se o seu viés for o de desistir logo no primeiro problema, nem entre neste jogo.

Outro pilar forte é o do ‘efeito de rede’. Plataformas geram o efeito de rede. O efeito de rede é a possibilidade de colaboração entre os nós da rede, aumentando exponencialmente os benefícios desta interação na medida em que a rede agrega novos membros. As redes são, portanto, inclusivas e autorregulatórias, pois, um membro valida a ação de outro membro, gerando um ambiente de negócios mais saudável, que expulsa os agentes que não cooperam adequadamente. E é isso que queremos criar, um ambiente de negócios seguro, confiável, com membros comprometidos com uma conduta ética, reduzindo assim os custos de ‘patrulhamento’ que hoje são elevados no modelo tradicional. Utilizamos um modelo de rating e de feedback, similar ao do Uber, para proporcionar isso.

A solução tecnológica da logtech viabiliza cotações e leilões-relâmpagos. Como isso é feito?

O inimigo que estamos combatendo é justamente a ineficiência. Cotações automatizadas e leilões-relâmpagos são as armas que desenvolvemos para isso. Uma das mais conhecidas causas do elevado custo da operação de transporte é o caminhão rodando vazio ou com pouca carga, ou seja, rodando abaixo da sua capacidade. O caminhão normalmente volta vazio por falta de frete de retorno e normalmente anda abaixo da capacidade quando não há volume suficiente de mercadorias em uma determinada rota. É, portanto, um custo de ociosidade, que ou é suportado pelo transportador, destruindo margem ou até gerando prejuízo, ou é repassado para o preço do frete, onerando o embarcador. Ninguém ganhou com isso, portanto! As estatísticas do setor revelam que mais de 40% dos veículos de carga que circulam pelas rodovias estão vazios. Isso é muita ineficiência!

Assim, nossa lógica é focar no compartilhamento dos espaços ociosos para o transporte de cargas fracionadas. Queremos ofertar esses espaços para embarcadores, para que a capacidade dos veículos de transporte seja melhor aproveitada, reduzindo os custos e também o impacto ambiental.

O leilão-relâmpago é a forma do transportador disponibilizar o espaço ocioso que tem para um embarcador a preços mais vantajosos, assim geramos preços de frete menores, mas sem que o transportador perca margem. Na verdade, poderá até lucrar mais. Esse é o efeito de rede.

As cotações automatizadas, por outro lado, são formas de gerar predição de preços com base no histórico de operações e na consulta automática de tabelas de frete, buscando otimizar a geração de demanda para rotas específicas. Um efeito disso é, por exemplo, a cooperação entre transportadoras em uma rota, que ao invés de dois caminhões de transportadoras distintas saírem para um mesmo destino cada um com 50% da capacidade ocupada, poderiam concentrar a entrega em apenas um caminhão operando na capacidade máxima.

O serviço foi lançado em fevereiro de 2020. O que podemos falar da operação nesse período?

Fomos um tanto impactados pela pandemia pelo nosso foco em entregas B2B. Como o mercado de entregas de Last Mile (última milha) já se encontra um tanto saturado, focamos em resolver uma etapa do transporte ainda mal endereçado, que é o Middle Mile (milha intermediária), que é as transferências em centros de distribuição e redes de varejo. Porém, a pandemia gerou o fechamento de muitas lojas, o que direcionou as vendas para o e-commerce. Mesmo assim crescemos muito! Mas poderíamos ter crescido ainda mais. Uma saída foi começar a direcionar esforços para soluções de última milha que gerasse o mesmo efeito de eficiência através do aproveitamento da capacidade dos veículos. Aprendemos bastante com a experiência e hoje o nosso produto e a nossa equipe já estão bem preparados para enfrentar os desafias da primeira à última milha do transporte de cargas fracionadas.

As entregas são feitas em todo território nacional?

Sim, nossa cobertura é nacional e efetivamente já realizamos entregas em todos os estados brasileiros. Conseguimos isso porque atuamos com uma rede de transportadoras parceiras (hoje mais de 2 mil transportadoras) que possibilitam essa cobertura. E como elas atuam em rede, cooperando entra si e unificando as informações logísticas, isso representa uma frota virtual de 60 mil veículos.

Como manter um negócio altamente escalável e, ao mesmo tempo, inovador?

É sem dúvida um grande desafio! Mas a resposta para isso mais uma vez é a cultura da inovação. A inovação não está nas tecnologias que utilizamos e sim nas pessoas que vivem esta operação. E aí estamos falando tanto dos nossos colaboradores, que são os nossos orgulhosos Truggers, quanto dos parceiros e até dos clientes que abraçam esse desafio junto conosco. Existe um propósito maior que conecta a todos e isso é que mantém o espírito inovador vivo e atuante. Não nos conformamos com a ineficiência e sabemos que temos um grande problema para resolver, por isso nos desafiamos dia a dia a fazer diferente, a experimentar o novo. Isso implica em uma nova mentalidade e sobretudo em novos hábitos, novas práticas, mas é inspirador e gratificante ver os resultados acontecendo. Tenho absoluta convicção que geraremos um grande impacto positivo em nosso setor.

Quais os próximos passos da TruggHub?

O nosso propósito é descomplicar a entrega de cargas fracionadas e temos um apreço muito grande por esse foco. Escolhemos resolver os problemas relacionados às cargas fracionadas e só nesse universo já há muita coisa a ser estudada e resolvida. Então nossos próximos passos estão relacionados a isso. Estamos introduzindo, por exemplo, o conceito de mini-hubs usando smart lockers, com isso conseguiremos consolidar cargas em pontos mais capilarizados, quebrando as etapas de entrega em pedaços menores. Estamos também introduzindo uma solução de Ship From Store, que permitirá que as entregas possam ser feitas a partir dos estoques das lojas, com entregas roteirizadas, ao invés de um Centro de Distribuição, o que otimiza os custos e também reduz o impacto ambiental. Aliás, neste ponto do aspecto ambiental, estamos direcionando grandes esforços para promover uma entrega mais verde. Adotamos para isso uma agenda ESG, a qual pretendemos compartilhar com nossas transportadoras parceiras para assumir um compromisso conjunto de redução de emissões de carbono, adotar ações de impacto social e melhoria de governança. Uma das ações efetivas já em andamento é promover a substituição de parte da frota atual das nossas parceiras por veículos de carga elétricos nas rotas de distribuição urbana.

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