André Cruz: “O cenário sempre conta uma história”

Cynthia Carneiro

A Da20 foi fundada em 2000 em Salvador por André Cruz, um baiano multifacetado, considerado a enciclopédia viva da cenografia. Dono de um repertório inacreditável de técnicas e possibilidades de materiais, André propõe soluções inusitadas e apaixonantes. Em 2014 o encontro profissional entre André Cruz e Fabiane Maimone, também baiana, responsável por contratar a Da20 para um projeto com a Mauricio de Sousa, resultou em um casamento perfeito que ultrapassou a relação de contratante x contratado; juntos encararam a missão de construir o Parque da Mônica e mudar de vez a empresa da Bahia para São Paulo. A Da20 não só executa, mas planeja e cria brilhantemente os projetos. Recentemente, a Da20 Cenografia foi uma das vencedoras do Prêmio Mauricio de Sousa, na categoria Design, com a atração Pac Man, projeto realizado para o primeiro gamepark do mundo. O resultado foi divulgado durante o Adibra International Networking, evento da Associação das Empresas de Parques de Diversões do Brasil (Adibra), que contou com o apoio do Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas (Sindepat), realizado no dia 19 de novembro de 2019, no Hard Rock Cafe, em Orlando, na Florida (EUA). A Da20 Cenografia levou uma estatueta, criada pelo desenhista Mauricio de Sousa, e um certificado de participação. “Existem milhares de formas de se chegar ao mesmo resultado, basta ter coragem e curiosidade”, afirma.

André, como a cenografia mudou o curso da sua vida?

Há 20 anos eu faço cenografia, ela não só mudou o curso da minha vida, como ela é a vida que eu conheço. Aos 19 anos, comecei como ajudante de cenotécnico e me apaixonei por esse mercado e nunca mais sai desse ramo.

O que é fundamental na vida de um cenógrafo?

Experimentar. Existem milhares de formas de se chegar ao mesmo resultado, basta ter coragem e curiosidade. Algumas formas são muito caras, outras nem tanto. A cenografia é a ciência dos truques, nela você pode transformar cano de pvc em madeira e ninguém se dará conta do que foi usado nessa transformação, como exemplo o que fizemos no Templo do Samir para a Supersérie da Globo, “Onde Nascem os Fortes”. Essa alquimia é o que mais me encanta na cenografia.

Como a criatividade influencia em seu trabalho?

A criatividade é o guia do meu trabalho, é o que permite a Da20 trazer para o mercado, soluções inovadoras e impensadas. Já fui chamado de “louco” inúmeras vezes porque, de cara, as soluções criativas que eu apresento para a equipe são um tanto incomuns. Mas quando o resultado vem, como na Cabana do Hagrid (Harry Potter) que fizemos em 2018 para a CCXP, onde as pedras da casa eram de carpete e ninguém se dá conta disso, é maravilhoso.

E a inovação?

Quem não inova não se sustenta e acaba sendo engolido pelas empresas que estão antenadas com a transformação do mercado. Nós, como todos os fornecedores de cenografia, temos um problema crônico que é a produção de lixo, baixa taxa de reaproveitamento dos cenários, peso das peças e área de armazenagem são alguns deles. Pensando nesses problemas, nós desenvolvemos o TEO, solução em estrutura cenográfica, onde perfis e conectores se encaixam nos mais diversos ângulos para estruturar qualquer tipo de cenário. Toda a nossa estrutura agora é patenteada, leve, reaproveitável, slim esteticamente, desmontável e adaptável.

Como as inquietações internas e as observações externas são absorvidas em seu ofício?

A minha busca pessoal é sempre pela superação dos desafios. O meu combustível principal é quando me dizem que não dá pra fazer. Mas sempre dá. Talvez não do jeito tradicional, mas existem milhões de maneiras de se chegar a um resultado, escolher a melhor delas é um processo de observação e aprendizado constante baseado nas inquietações.

O que não pode jamais faltar em uma cenografia?

A imaginação alinhada ao detalhe. O detalhe faz toda a diferença num cenário, é onde você consegue encantar e, principalmente, surpreender. Se você constrói um castelo, põe um tecido branco, uma luz interna e simula uma silhueta em movimento numa janela, você passa a sensação de um cenário vivo. A cereja do bolo da cenografia é trazer surpresa e encantamento para os clientes.

Como a poesia faz parte do seu trabalho?

O cenário sempre conta uma história, é a sua ilustração. A poesia inspira a criatividade, que é a batuta principal do nosso trabalho.

Fale um pouco sobre a Da20.

A Da20 é uma empresa de apaixonados pela arte e pelo ofício da cenografia. Temos um time arrojado, multifuncional e extremamente talentoso, que me encoraja a aceitar os trabalhos mais desafiadores. O nosso ambiente de trabalho é familiar, porque escolhemos estar juntos diariamente, dividindo alegrias e tristezas, acertos e erros e aprendendo juntos com todos os erros que cometemos. A Da20 é uma extensão muito importante da minha vida, jamais medirei esforços para fazer as entregas mais surpreendentes.

Quais os principais pilares da sua empresa?

Respeito à diversidade, às pessoas, ao ofício e aos clientes. Paixão em tudo que fazemos. Honestidade.

Como soluções inusitadas podem se tornar apaixonantes?

Ver a satisfação do cliente em algo que inicialmente julgou ser uma “loucura”, por ser uma solução inusitada, ver o encantamento do fã, espectador ou telespectador é muito apaixonante. A paixão pela cenografia é o que me move diariamente.

O que o Prêmio Mauricio de Sousa representa para você em especial?

A certeza de que os últimos cinco anos em São Paulo valeram muito a pena e que estamos no caminho certo. Em 2015, nós mudamos da Bahia para São Paulo, para executarmos o Parque da Mônica e de lá pra cá nós vivemos anos difíceis, muitas vezes confiantes, outros nem tanto. O reconhecimento é sempre muito importante para a autoestima da nossa equipe e uma equipe confiante é imbatível. Sem contar que um prêmio vindo do Mauricio de Sousa então, é inesquecível.

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