Aroldo Veiga: “Nosso país é um exemplo clássico”

 Aroldo Veiga

“O ciclo opressor na sociedade e o papel da cultura religiosa no processo de submissão.” Este é o tema abordado pelo professor, escritor e autor do livro “Trono de Cangalha”, Aroldo Veiga, com exclusividade para o portal Panorama Mercantil. “A história do Brasil – e antes dela a dos nossos colonizadores – está intrinsecamente ligada à cultura religiosa. Durante séculos, Igreja e Estado se confundiram; e ainda hoje, apesar da laicidade prevista na Constituição brasileira, as religiões, a exemplo das evangélicas, têm o poder de eleger representantes e até definir eleições em nosso país. Com isso, uma expressiva parcela da população, composta, principalmente, por pessoas excluídas, torna-se refém de seus dogmas, de seus preceitos seculares e conformistas, e passa a acreditar que, a priori, todos os seus males são frutos da vontade de Deus, e que, portanto, nada pode ser mudado”, afirma o autor. Ele ainda diz: “A religião é uma das mais poderosas formas de controle social. Há milênios tem sido usada como mecanismo de dominação. Desde o Antigo Egito, onde a figura dos faraós era confundida com de divindades, até a Europa Medieval, onde a Igreja detinha um poder incontestável sobre o Estado. No Brasil atual, pode-se dizer que a religião está no comando. Seja representada no Congresso pela bancada da bíblia, ou mesmo na figura do presidente da República, com suas indicações “terrivelmente evangélicas”, segundo as palavras do próprio mandatário”.

Aroldo, como você lidou com a opressão ao longo da sua trajetória de vida?

Na verdade, eu nunca precisei lidar com a opressão. A pouca opressão que me afligiu ao longo da vida apenas gerou em mim um sentimento de empatia por aqueles que realmente sofrem deste mal, aqueles que, por exemplo, sentem no dia a dia o desprazer de ser discriminado pela cor da sua pele, por uma questão de gênero ou de sexualidade, ou ainda por aqueles que conhecem de perto a pobreza, o desemprego, a humilhação patronal, o analfabetismo e tantas outras chagas sociais que levam à verdadeira opressão.

Muitos oprimidos têm a sensação de não estarem sendo oprimidos?

Sim, claro! Inclusive, muitos chegam a tomar partido a favor do opressor. O nosso país é um exemplo clássico disso. O Brasil, por trezentos anos, submeteu o povo negro a um regime de escravidão brutal. E ainda hoje, apesar do voto secreto, o povo brasileiro, em sua maioria descendente de negros escravizados, continua perpetuando no poder os descendentes dos colonizadores brancos que, por três séculos, os escravizaram. O mesmo se observa em relação às mulheres, historicamente oprimidas pelo sexo oposto, e quase sem nenhuma representatividade política, apesar de serem a maioria do eleitorado.

Por que você acredita que os meios de produção são a principal fonte dessa tensão?

Em nosso modelo econômico, os ricos lucram com a mercadoria produzida pelos pobres. Esta tem sido, desde a criação da propriedade privada, a principal causa da tensão que levou a humanidade às grandes revoluções históricas. É uma teoria, inclusive, alicerçada por grandes pensadores como Marx e Engels, Paulo Freire e André Barata, dentre outros.

Seria possível reverter esse quadro?

Sim! Em potencial, tudo é possível; embora eu acredite que seja pouco provável. Reverter este quadro implicaria em modificar todo um padrão cultural e de privilégios que envolve as classes dominantes. Seriam necessárias décadas de uma reprogramação educacional que permitisse às gerações futuras operar qualquer mudança neste sentido. Ainda assim, mediante a alguma luta, como bem nos mostra a história. Afinal, quem detém o poder, dificilmente o compartilharia apenas por uma questão de justiça.

Como a cultura religiosa está inserida nesse ecossistema?

A história do Brasil – e antes dela a dos nossos colonizadores – está intrinsecamente ligada à cultura religiosa. Durante séculos, Igreja e Estado se confundiram; e ainda hoje, apesar da laicidade prevista na Constituição brasileira, as religiões, a exemplo das evangélicas, têm o poder de eleger representantes e até definir eleições em nosso país. Com isso, uma expressiva parcela da população, composta, principalmente, por pessoas excluídas, torna-se refém de seus dogmas, de seus preceitos seculares e conformistas, e passa a acreditar que, a priori, todos os seus males são frutos da vontade de Deus, e que, portanto, nada pode ser mudado.

A religião é uma forma de controle social?

A religião é uma das mais poderosas formas de controle social. Há milênios tem sido usada como mecanismo de dominação. Desde o Antigo Egito, onde a figura dos faraós era confundida com de divindades, até a Europa Medieval, onde a Igreja detinha um poder incontestável sobre o Estado. No Brasil atual, pode-se dizer que a religião está no comando. Seja representada no Congresso pela bancada da bíblia, ou mesmo na figura do presidente da República, com suas indicações “terrivelmente evangélicas”, segundo as palavras do próprio mandatário.

Esse controle social é um tipo de opressão?

Totalmente. O termo “controle”, por si só, já nos leva a pensar em opressão, que ao contrário da repressão, é um tipo de violência subjetiva, que não provoca dano no corpo físico das pessoas, e sim no âmbito psicológico, da autoestima, da autoimagem e da autossignificação.

O Estado seria o opressor maior?

O Estado é quem detém os principais mecanismos de opressão, seja através de recursos jurídicos, da sua influência sobre os magistrados, de imposições burocráticas ou da ausência de políticas públicas de inclusão. Por ser a instituição que mais afeta pessoas, é possível concluir que sim, que o Estado é, provavelmente, o maior opressor.

Qual o papel da educação libertadora?

A princípio seria libertar, como o próprio nome já sugere. Ou seja, formar indivíduos emancipados intelectualmente, capazes de problematizar questões referentes ao seu cotidiano, de questionar a realidade que o cerca e estimular outras pessoas a fazerem o mesmo, gerando assim um efeito em cascata com potencial para mudar toda a sociedade. Algo semelhante ao que aconteceu no Japão após a Segunda Grande Guerra.

Quais os grandes nortes dessa educação?

A educação libertadora não se resume à mera alfabetização. Afinal, não basta ler, é preciso saber interpretar. A proposta principal é fomentar a participação de indivíduos, conscientes da sua importância enquanto cidadãos, no meio social e político em que estão inseridos; e dessa forma, transcender as fronteiras das regras, dos métodos e símbolos que os mantém às margens do universo político, social e econômico.

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