Bille Marinho: “Existem poucas marcas de whisky brasileiro”

 Bille Marinho

A vontade de ajudar a própria mãe fez com que o empreendedor paulista Bille Marinho, de 26 anos, se aventurasse no mercado de bebidas e lançasse sua própria marca de whisky. Sua mãe, Rosangela Chagas, fundou em 1994 uma empresa de moda country, e, em 2009, criou uma empresa voltada para o mercado de figurinos de luxo para shows, teatro e eventos, batizada de Figurinos Ponto de Luz. “Minha mãe criou praticamente minhas duas irmãs e eu sozinha, sem contar que ela saiu de uma situação de extrema pobreza, onde ela teve de trabalhar em regime sub-humano, e conseguiu ser uma empresária do segmento de luxo, então falei com ela e com minha irmã Beatriz sobre a possibilidade de criar um negócio que poderia se tornar nossa principal fonte de renda e pudesse poupá-la de trabalhar e fazer esforço braçal”, explica Marinho. Foi então que, em 2019, Bille e sua irmã Beatriz decidiram dar os primeiro passos do que viria a ser o whisky Século7. A ideia de investir nessa bebida foi através da influência dos clientes da empresa de sua mãe. “Como todos eram muito bem relacionados e com alto poder aquisitivo, pensei que seria uma boa ideia apostar nesse público-alvo”, diz o empreendedor. A primeira lembrança que ele diz ter do whisky foi com a sua mãe trazendo uma garrafa do mercado e dizendo que era para eles relaxarem um pouco, então aquilo ficou na cabeça dele como uma bebida feita para os momentos prazerosos.

Bille, você tem uma veia empreendedora oriunda de sua mãe. Qual influência dela sobre você e seus negócios?

Meu primeiro negócio criei aos dez anos. Comecei a fazer bijuterias de miçangas para vender na escola. E minha mãe me deu o maior apoio. Ela me ensinou a precificar os produtos, e a dividir a renda em 3: uma parte para guardar para projetos futuros, uma parte para reinvestir na empresa, e uma parte para gastar com o que eu quisesse. Ela até me ensinou onde e como comprar os materiais. Ela nunca me pediu nem cobrou nada. Eu que quis e ela só me apoiou. Mais tarde, aos quinze, comecei outros projetos mais artísticos, e ela me apoiou. Aos dezoito abri minha primeira empresa com CNPJ, e ela me apoiou. Todos os dias ela pergunta como vão às coisas, me dá conselhos, me ouve, me repreende, e sempre vigia os meus passos. Ela é meu espelho. Me ensinou a atender clientes, e sempre me incentivou a estudar e explorar minhas habilidades. Mas além dessa parte profissional, ela me ajudou a formar o meu caráter. Minha mãe nunca passou por cima de ninguém parar superar as dificuldades. Ela só teve foi fé, coragem e fez tudo com amor.

E nunca me mimou, viu! Desde os dez anos sempre cuidei da casa, fiz comida, saí de ônibus e metrô, fui às compras, ao banco, ao cartório, às eleições, ao contador… desde cedo aprendi a fazer tudo. Ela fazia assim: me levava uma vez e me ensinava como tinha que ser, e da segunda vez em diante eu ia e fazia tudo sozinho. Minha mãe nunca me disse “não” na vida. Cresci numa família muito pobre, minhas irmãs mais velhas passaram por muitas dificuldades piores que as da minha infância. Fui à praia pela primeira e única vez aos 21 anos de idade. Eu nunca fui a um parque de diversões, nem tive os brinquedos que passavam na televisão. E mesmo assim minha mãe nunca me disse “não”. Ela dizia: “Agora a mãe não pode, mas quando a mãe puder ela te dá”. Então cresci com essa mentalidade. Não existe nada que eu não possa mesmo ter. Tudo é uma questão tempo e dedicação.

O que existe na Rosangela Chagas empreendedora que você também vê inserido em seu DNA?

Em primeiro lugar, ter disciplina. Nós dois sempre fomos autodidatas. E para ser autodidata é preciso ter disciplina, respeitar seus horários e os limites do seu corpo. No caso dela, o cansaço é físico. No meu caso, intelectual. Em segundo lugar, o feeling para negócio. A gente sente o cheiro de dinheiro em frases soltas pelo ar. Nossas conversas do café da manhã ao jantar são relacionados a ideias de negócios, é altamente espontâneo e inevitável. E por último, mas não menos importante, acreditamos que tudo é possível. Não temos medo de nada.

Uma curiosidade: por que o nome Século7?

A marca Século7 veio antes da própria ideia do whisky. Foi minha irmã e sócia Beatriz das Chagas Souza quem escolheu este nome. Nós dois sempre fomos muito criativos na escolha de nomes. Pesquisamos muito, consideramos a numerologia e também a forma como soa bem e é fácil de lembrar.

Na verdade, nós já tínhamos o sonho de ter uma empresa a mais na família cuja rentabilidade não dependesse do esforço braçal da minha mãe, cujo trabalho é a principal fonte de renda da casa. Mas não sabíamos ainda o que fazer. A única coisa que tínhamos decidido era o nome. Engraçado, não? Foi a combinação da necessidade com a oportunidade que transformou a Século7 em empresa de bebidas.

Que momento a sua ideia começou a tomar corpo?

Justamente no auge da pandemia de coronavírus. Eu estava com outro negócio na época, de venda de máscaras de tecido. E vendi muito porque fui o primeiro e-commerce brasileiro a vender máscaras de tecido, foi imediatamente após o então ministro Mandetta liberar. Tenho várias histórias sobre essa fase. Eu acordava, tirava os pedidos, chamava os motoboys, depois ia aos Correios postar algumas, e ainda fazia minha entrega própria de carro com a Beatriz. Uma vez fui entregar pessoalmente cinco máscaras para uma cliente que estava praticamente morando no hospital. Nem cobrei o frete, e o valor das máscaras não pagou o custo que tive de ir lá. Mas as lágrimas nos olhos dela me agradecendo foi a melhor remuneração que eu jamais esqueci. Vendi máscaras para multinacionais, condomínios, e até para o Exército Brasileiro! Sempre com minha mãe e com a Bia me ajudando.

Uma hora a venda das máscaras começou a cair, devido ao aumento da oferta e consequente queda do preço. E logo decidi investir o caixa das máscaras num novo negócio. Comecei a estudar justamente neste hiato entre as máscaras e o whisky. E o resto é história.

Existem momentos que o empreendedor deve tomar duras decisões. Quais as mais duras decisões que você teve que tomar?

Na Século7 minha mãe e a Beatriz estão sempre participando e me ajudando nas decisões mais importantes, mas no final é a minha canetada que dá o veredito. E acredite, nunca é fácil. Eu sempre fico ansioso, com medo de errar, às vezes levo dias deliberando sobre minhas opções. Mas o mais difícil para mim é desfazer um negócio, demitir alguém ou cancelar um contrato. Infelizmente nem todo mundo ama o seu trabalho tanto quanto amo o meu. E às vezes me decepciono com pessoas que não atendem aos padrões de profissionalismo e comprometimento que exijo na Século7. Então cortar alguém ou até mesmo um fornecedor do meu círculo é difícil, e eu nunca o faço sem antes dar mais uma chance.

Qual a importância dessas decisões para o bom momento vivido pela Século7?

Hoje percebo que foi a coisa certa a se fazer: cortar o mal pela raiz. Fiz importantes modificações em três setores da empresa só neste ano: marketing, atendimento telefônico e logística. Aprendi muito com as mudanças, e hoje o índice de satisfação dos meus clientes duplicou. Esta deve sempre ser a régua que vai medir o sucesso da Século7: se nossos clientes estão felizes, nós estamos felizes.

Como a Século7 pretende ser a marca brasileira de maior prestígio e reconhecimento nacional e internacional no mercado de whisky?

Se não for para sonhar grande, prefiro não dormir. Sou assim, esta é mais uma característica que herdei da minha mãe. Sonho grande, miro o mais alto possível vou com toda a minha força. Imagine, por exemplo, um jogo de dardos. Se eu quero ter a chance de acertar o alvo bem no meio eu não posso mirar um pouquinho para o lado. Se eu mirar para o lado acerto a parede! Nos negócios é a mesma coisa. Talvez eu nunca chegue lá, mas de uma coisa eu sei: nunca ninguém poderá dizer que não fiz em vida tudo ao meu alcance para chegar lá! Então pode parecer muita pretensão mesmo, mas aprendi isso lendo a biografia do Napoleão Bonaparte: “Seja audacioso, sempre!”. E pretendo atingir esta meta levando nossos produtos para participar em eventos e premiações em todo o mundo. Além de aumentar a exposição dos nossos produtos nos principais players – mas não a qualquer custo.

Se tem uma coisa que eu me recuso a fazer é dar de presente ou fazer permuta com algum influencer. Isso porque na minha opinião quando a pessoa ganha uma coisa ela não dá o mesmo valor que quando ela compra. E ela fica psicologicamente inclinada a falar bem, e aí sai uma coisa artificial. Quando alguém compra um produto Século7 e faz um review para o YouTube, como o Tierri Gabriel fez, por exemplo, o expectador sente que aquilo que ele está falando é sincero, é de coração. Então isso basta para mim: marketing honesto, preço justo condizente com a qualidade do produto, e atendimento no mínimo perfeito. O resto o tempo se encarrega.

Quais as principais tendências e novidades no mercado de whisky brasileiro?

Existem poucas marcas de whisky brasileiro, e a maioria segue o estilo artesanal e briga no preço com marcas medianas de supermercado. A Século7 é a primeira a criar um whisky de luxo, e, sem dúvidas, é o whisky brasileiro mais caro no mercado hoje. Acredito que nosso trabalho já está inspirando outras marcas que percebo estarem seguindo esta tendência que criamos ao posicionarem-se como não-comerciais. Mas acima disso está um movimento de valorização dos produtos nacionais, e é nesta tendência que nos apoiamos.

Especialistas afirmam que o mercado de whisky é difícil de ser desenvolvido. Por que isso ocorre?

Acredito que tudo o que é novidade leva um certo tempo para ser entendido e posteriormente aceito. No mercado de whisky é a mesma coisa. Existe um público inestimável de futuros consumidores de whisky no Brasil, eles só precisam dar uma chance à bebida. E considerando os consumidores atuais, muitos simplesmente não sabem que além da Escócia, outros países produzem whiskies de altíssima qualidade, tais como Estados Unidos, Irlanda, Japão e Brasil. Na minha concepção, o mercado de whisky brasileiro está nascendo agora, e o potencial de crescimento é impressionante. A maior barreira é que é preciso ser paciente e convidativo para atrair novos clientes. Mas como eu gosto de um bom whisky e de um bom desafio, estou no mercado certo.

Como o digital tem afetado a operação da Século7?

Para mim é completamente natural tanto vender online quanto comandar remotamente os profissionais envolvidos no processo de produção, marketing, atendimento, logística, etc. Acredito que para fazer dar certo é preciso manter o equilíbrio de três pontos: respeito às pessoas, ordens claras com prazos razoáveis, e dar feedback. A única coisa que eu ainda não posso fazer é a degustação presencial. Sei que basta sentir o aroma do Smoked Whisky Século7 por 3 segundos para o cliente ficar imediatamente atraído a comprar uma unidade sem pensar duas vezes. Por enquanto esta experiência não acontece nos PDV’s, mas contorno isso tentando descrevê-lo em palavras no site e nas redes sociais.

Quais os próximos lançamentos da Século7 para o ano de 2021?

A minha visão da Século7 é se tornar uma empresa detentora de diversas marcas, cada qual com a sua respectiva linha de produtos, como no modelo da Coca-Cola. E os próximos lançamentos irão exemplificar claramente nossa intenção.

Recentemente anunciei a pré-venda da Cachaça Bidestilada Premium Billy Country™, que será lançada oficialmente ainda em julho. Trata-se da primeira cachaça premium chancelada com o selo Século7 de qualidade. A única inspirada no universo do country americano, uma das poucas bidestiladas no Brasil, e maturara por 36 meses em barris de Bálsamo e Carvalho Americano. A melhor parte é que a marca Billy Country™ está na minha família há mais tempo do que tenho de vida. Foi o nome da primeira empresa da minha mãe, quando ela decidiu abrir uma confecção de moda country.

E, saindo da linha dos destilados, devemos apresentar ao mercado em agosto mais um grande lançamento: O Café Especial Avis Rara™ 100% Arábica nas versões em grãos e em cápsulas de alumínio compatíveis com máquinas Nespresso®. Avis Rara, também chancelado pela Século7, é colhido manualmente nas principais fazendas históricas da região produtora no sul de Minas Gerais, a uma altitude média de 1.150 metros acima do nível do mar. O único café com o selo Gourmet da ABIC que é indicado para todos os métodos de preparo. A safra atual está realmente especial, e esperamos alcançar uma avaliação de 85 a 87 pontos na metodologia SCAA.

Temos muitos outros planos em execução simultaneamente, mas vamos preservá-los em segredo até o momento apropriado para divulgação. Tudo o que posso revelar, é que todos os produtos Século7 seguirão altos padrões para agradar os mais exigentes paladares. E claro, todos contarão com o selo eureciclo de compensação ambiental de 100% das embalagens.

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