Cezar Motta: “Ninguém faz um dicionário sozinho”

O jornalista e escritor

Este é um livro incomum. O personagem central é o dicionário “Aurélio” e as dificuldades, conflitos, fracassos e paixões que envolveram sua criação. Uma obra que se tornou o maior fenômeno editorial brasileiro, cujos bastidores, revelados em detalhes pelo jornalista Cezar Motta, incluem acusações de traição e disputas pela coautoria que foram parar no Supremo Tribunal Federal, 40 anos depois de seu lançamento. “Por Trás das Palavras” é essencialmente o relato de uma grande aventura, que tem como pano de fundo a dinâmica da produção da mais ambiciosa obra de referência do país. Num trabalho de reportagem minucioso, Cezar Motta colheu depoimentos de gente que esteve na linha de frente do dicionário e construiu uma narrativa sensível, que muitas vezes lembra um romance, não fossem os personagens absolutamente reais. São escritores, acadêmicos, editores, jornalistas, políticos e empresários, um painel da intelectualidade do país, que participou ou testemunhou os dois momentos determinantes de Aurélio Buarque de Holanda e de sua equipe: a incansável busca por recursos para financiar o projeto – lançado em 1975 – e, mais tarde, a acirrada disputa pelos milhões gerados pelo sucesso de vendas. “Certamente, ele e Antônio Houaiss foram os dois maiores. Houaiss era mais erudito, fluente em grego, latim, alemão. Aurélio era mais didático, tinha uma enorme sensibilidade para captar palavras novas, regionalismos”, afirma Cezar Motta.

Cezar, o que lhe chamou mais atenção no fenômeno “Aurélio?”.

Era o dicionário esperado desde o final dos anos 50, pelo respeito que o filólogo obtivera na vida acadêmica brasileira, o prestígio, a amizade com grandes escritores e poetas que o adotaram como um consultor informal sobre lexicografia. De Aurélio Buarque de Holanda, esperava-se o Oxford ou o Webster brasileiro.

Quais características positivas de Aurélio Buarque de Holanda foram cruciais para o dicionário ser tão bem-sucedido?

O conhecimento de etimologia (origem das palavras – grego, latim, etc.), a grande capacidade e reconhecimento como professor, como didata, e sua popularidade entre escritores e intelectuais. Era um personagem carismático, de muitos amigos.

Ele teve desafetos?

Não. Na definição de Antônio Carlos Vilaça, filósofo, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e colunista do JB, era um personagem rabelaisiano, um hedonista, que gostava da boa mesa, da boa conversa, das noitadas com amigos, grande contador de histórias e também um grande ouvinte. Sua grande desavença foi com a equipe que elaborou o dicionário, por uma questão de direitos autorais.

Aurélio pode ser considerado o maior filólogo do Brasil?

Difícil afirmar. Certamente, ele e Antônio Houaiss foram os dois maiores. Houaiss era mais erudito, fluente em grego, latim, alemão. Aurélio era mais didático, tinha uma enorme sensibilidade para captar palavras novas, regionalismos, gírias, e defini-las com precisão e clareza.

O que o movia naquela época?

Era reconhecido como um grande professor, e tinha realmente o sonho de construir um grande dicionário, como o Oxford, inglês, ou o Webster, norte-americano. Faltava-lhe o senso prático, o reconhecimento de que um dicionário é resultado também de um processo industrial, estabelecido em contrato, com prazos. E isso Joaquim Campelo e a equipe lhe proporcionaram.

Ele tinha algum traço empreendedor mesmo que empírico?

Não, esse era o problema. Era um apaixonado pelas palavras, pelo idioma, que conhecia profundamente. Mas tropeçava no lado empreendedor. Como diziam os amigos intelectuais, Aurélio teria sido um grande escritor, um magnífico ficcionista, o que foi sufocado pelo dicionarista. Seu livro “Dois Mundos”, com destaque para o conto “O Chapéu do Meu Pai”, é uma obra-prima. Mas a paixão pela lexicografia, pela filologia, suplantaram a vocação do escritor.

Quem foi o grande financiador do projeto?

A Editora Nova Fronteira, na época de Carlos Lacerda, bancou o projeto e o editou. Era uma editora em ascensão, graças ao grande lucro obtido com livros como “O Exorcista”, de William Peter Blatty, que resultou em sucesso de bilheteria como filme, e “Negras Raízes” (Roots), de Alex Haley, que deu série de grande sucesso na televisão norte-americana e brasileira.

O que o dicionário representou para o país na década de 70?

Foi um dicionário moderno, que incorporou palavras e expressões surgidas com o movimento hippie, a revolução sexual, as novas tecnologias das décadas de 60 e 70, da economia (como “correção monetária”), e que proporcionou explicações claras para termos científicos e técnicos. Perfeito para estudantes, jornalistas, profissionais liberais, escritores.

Existe algo que pode explicar um sucesso tão longevo?

A grande aceitação popular e a “degradação da marca”, a metonímia que transformou a palavra “Aurélio” em dicionário. Como Gillette significava lâmina de barbear, etc.

Qual o papel dos colaboradores para o êxito do dicionário?

Ninguém faz um dicionário sozinho. Houve casos, como o francês Littré, mas foi um processo quase autodestrutivo. Aurélio teve a colaboração de especialistas e de filólogos, e sem a presença pragmática e dedicada do jornalista Joaquim Campelo, o dicionário não seria publicado.

Que sensação você espera que o leitor tenha quando ler as 192 páginas desse livro?

Espero que tenha momentos de uma leitura prazerosa e que acrescente informações interessantes e desconhecidas, de uma época importante na vida brasileira.

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