Claudio Pasqualin: “O caminho é adotar programas de auxílio”

 Claudio Pasqualin

A TransUnion, companhia global de soluções de informação, insights de dados e prevenção à fraude, divulga as conclusões do primeiro trimestre de 2021 do Consumer Pulse Study no qual aponta que a maioria dos lares brasileiros, especialmente os de baixa renda, sofre os efeitos financeiros negativos devido à pandemia da Covid-19. Os consumidores continuam preocupados com sua capacidade de cumprir com suas obrigações financeiras e, até agora, apenas 28% receberam alguma forma de auxílio financeiro, como adiamentos, perdões ou férias. O Consumer Pulse Study do primeiro trimestre inclui uma pesquisa com 1.101 consumidores brasileiros, realizada entre os dias 5 e 9 de março de 2021. Embora a TransUnion tenha estudado o impacto econômico da pandemia nos últimos 12 meses, esta foi a primeira onda que mediu o efeito da Covid-19 sobre a renda familiar brasileira e as perspectivas financeiras. A maioria dos consumidores brasileiros (85%) afirma que sua renda familiar estava sendo, ou foi, afetada negativamente durante o ano passado, e que 90% dos consumidores afetados expressaram preocupação com o pagamento de contas e empréstimos. “Um ano após a pandemia, é claro que as consequências econômicas ainda estão sendo sentidas pelos consumidores brasileiros”, explicou Claudio Pasqualin, diretor de Desenvolvimento de Negócios da TransUnion Brasil.

Claudio, as famílias de baixa renda são as que mais sentem os efeitos da pandemia. Qual a solução para a amenização desse problema?

Isto não é surpresa. Justamente por terem menor renda, essas famílias normalmente têm menos chances de fazer poupança para lidar com imprevistos, muito menos com algo assim tão impactante quanto essa pandemia global. O caminho é adotar programas de auxílio, que ajudem as empresas a manterem empregos, e também ofereça renda direta para as pessoas afetadas. E isto foi feito até em grande escala pelo Governo Federal. Outra questão importante é o acesso a crédito, mas sabemos que é muito difícil obter crédito para financiar o consumo básico das famílias. Ainda mais das pessoas que estão pouco inseridas no mercado financeiro e de crédito, principalmente em época de crise econômica, quando o apetite de risco tende a diminuir. Assim, novos players, de perfil digital e inovador, podem aproveitar o cenário e conceder crédito que ajude a estas pessoas de baixa renda a produzirem, gerarem renda e, ao mesmo tempo, inseri-las no mercado de crédito. Existem diversas “startups de impacto” operando neste espaço.

Os números de 2021 são piores que os de 2020?

O estudo Consumer Pulse começou a ser feito no Brasil pela TransUnion de forma recorrente em 2021. Os dados que temos de 2020 não são comparáveis para que eu possa responder de forma clara a esta pergunta. Por outro lado, podemos usar alguns indicadores de 2021 para tirar conclusões parciais. Por exemplo: 85% dos lares indicaram ter sofrido algum impacto negativo em sua renda no ano passado. Destes, 59% indicam que ainda estão sofrendo com isto, enquanto os restantes 26% já teriam se recuperado. Isto indica uma possível melhor situação em 2021.

Como outros grupos socioeconômicos têm lidado com essas incertezas?

As famílias de baixa renda são as mais afetadas pela crise (75%). Isto se compara a 57% das famílias de classe média e 35% das famílias de alta renda. Já os recortes de gerações mostram praticamente o mesmo impacto, com ligeiramente menor impacto para a Geração Z (59%) versus 61% das demais.

A ansiedade e a preocupação aumentaram consideravelmente. Todas as classes têm lidado com esse sentimento da mesma forma?

É um tema presente em todas as residências, em todas as famílias, de forma similar. Mas algo que foi dito durante a pandemia é que não estamos todos no mesmo barco. Estamos sim, no mesmo mar revolto, mas em barcos distintos, representando as condições diferentes que temos para enfrentar esta situação. Logo, é natural que cada classe esteja lidando de forma diferente. Uma parte da população está lidando com a fome. Outra está tendo que priorizar o equilíbrio de despesas e dívidas. Outra está podendo se preocupar mais com a qualidade da educação de seus filhos com o ensino remoto. Está claro que cada grupo é afetado de forma específica, em função de suas condições financeiras, e isto leva a uma forma diferente de lidar com o problema, em geral.

Apenas 28% das pessoas receberam algum tipo de auxílio. Isso é preocupante?

Estes 28% se referem àqueles que contaram com algum tipo de renegociação de suas dívidas, como adiamentos, perdões ou suspensão de pagamentos. Apesar de outros 72% não terem contado com esta facilidade, não é pouco quase um terço das pessoas terem tido acesso a este tipo de auxílio. Isto significa que houve certa flexibilidade por parte dos credores, interessados em evitar um grande aumento na inadimplência que gerasse muitas perdas. É mais preocupante o fato que levou à necessidade de renegociações – a crise causada pela pandemia – do que a existência destes auxílios ou seu alcance.

O fim do auxílio (emergencial), previsto para julho, traz ainda mais tormento sobre as questões financeiras?

Note que o auxílio que estamos falando aqui é o auxílio emergencial, pago pelo Governo Federal, enquanto o auxílio mencionado na pergunta anterior é de outra natureza, relativo a negociações com credores. O auxílio emergencial, pelo que se sabe, deve terminar em julho e isto de fato vai deixar uma parcela da população em situação financeira mais complicada, até porque a retomada econômica está lenta e ainda mal distribuída entre os setores da economia. O desemprego se mantém muito alto e, por consequência, o consumo das famílias vem em queda. Assim, o fim do auxílio emergencial, se não houver retomada de emprego, deve levar a um maior stress financeiro para as famílias.

Como vê a relação entre credores e devedores nesses tempos pandêmicos?

A indicação que o nosso estudo Consumer Pulse nos traz é que houve busca por entendimento e negociação entre credores e devedores. Os 28% das pessoas que responderam terem contado com algum auxílio oriundo de renegociação são mostra desta relação. A pesquisa não indica a facilidade da renegociação, nem a forma como ela foi atingida, mas podemos concluir que houve intenção dos dois lados em encontrar um acordo para preservar o relacionamento saudável.

Qual o principal risco de toda essa conjuntura?

Acredito que o principal risco seja a continuidade da pandemia, prolongando o cenário atual de dificuldade financeira por um período ainda mais longo. Temos visto nas últimas semanas alguns países voltando a certa normalidade ou por terem lidado com a pandemia de forma bem organizada e séria, ou por terem investido no momento certo e em quantidade adequada na vacinação das suas populações. Nós ainda estamos bem atrasados comparativamente e isto prolonga o sofrimento das pessoas em diversos aspectos, seja a dor pela perda de pessoas queridas, seja as dificuldades financeiras que têm que enfrentar ou ainda pela ansiedade causada por tudo isto.

Existem sinais de melhorar daqui até o final do ano?

As projeções de crescimento do PIB para este ano indicam alguma recuperação da economia e, como se sabe, posteriormente, do emprego. Ainda assim, é razoável esperar que o principal fator a definir a velocidade da melhora é a sequência da vacinação com boa cobertura da população até o final deste ano.

Fale um pouco sobre a TransUnion.

Somos uma empresa global de informação e insights de dados que alavanca a inclusão de pessoas no mercado de bens e serviços. Empoderamos consumidores e empresas, impulsionando o poder de decisão de forma simétrica. Através de uma abordagem que privilegia a confiança e a sustentação virtuosa do ciclo de consumo, entregamos inteligência da informação – data insights e analytics – associando dados alternativos* na melhoria e ampliação de evidências nos processos de aquisição, análise e manutenção de clientes. Partimos de um olhar multidimensional, disponibilizando ambientes e ferramentas para análise de dados, avaliando riscos com acurácia e otimizando decisões para que empresas e consumidores transacionem com segurança. Nosso compromisso está na promoção da equidade das relações: viabilizamos uma representação justa do consumidor para que esse seja financeiramente saudável e passe a integrar ativamente o mercado. Chamamos isso de Informação para o Bem.

Como tem sido o papel da empresa num dos momentos mais conturbados da nossa história?

A TransUnion tomou uma postura clara de proteção da saúde e do bem-estar de seus colaboradores em todos os países em que operamos. Como empresa global, observamos fases distintas da pandemia nos diversos países ao longo deste ano e meio. No início, Hong Kong passou por uma situação mais complicada. Hoje a saúde de nossos colaboradores no Brasil e na Índia é a nossa maior preocupação. Desde 16 de março de 2020 todos os nossos escritórios no mundo estão fechados e nossos 8.000 colaboradores, com raras exceções, trabalham a partir de suas casas. A migração para o trabalho remoto foi muito simples e sem interrupções, reflexo do investimento em tecnologia e segurança da informação que a empresa já fazia há vários anos. Porém, mais do que isto, a empresa dedicou muita atenção à saúde mental das pessoas, ciente de que esta situação em que nos encontramos é causadora de ansiedade, de stress, que muitas vezes pode causar problemas sérios, que vão se instalando aos poucos. Nós, colaboradores da TransUnion, contamos com diversos recursos para lidar com o stress: temos grupos de atividade esportiva (individual), atividades virtuais diárias de mindfulness, uma cartilha organizada para cuidados com a saúde e físico por meio dos fornecedores parceiros da companhia (telemedicina, terapia, app de exercícios físicos), além de muitas discussões e aprendizados sobre diversidade, equidade e inclusão. Finalmente, temos apoiado – tanto como empresa quanto como colaboradores – organizações e instituições, através de doações para diminuir o impacto da pandemia além da nossa comunidade mais próxima. Tudo isto me dá um orgulho imenso de fazer parte da TransUnion!

Do ponto de vista das empresas e do mercado, como uma empresa global de informações e insights de dados com um papel na saúde econômica dos mais de 30 países em que está presente, a TransUnion agiu rapidamente desde o início da pandemia global para fornecer insights e educação para consumidores, empresas e governos, os quais auxiliam esses públicos a lidarem com essa situação sem precedentes. Isso inclui, nos países em que existem essas ofertas, capacitação de consumidores para proteção de sua saúde financeira por meio de relatórios; assim como recursos de crédito online semanais gratuitos fornecidos por centros de suporte online da Covid-19. Além disso, a TransUnion também está fornecendo soluções inovadoras e de desenvolvimento de liderança para seus clientes, a exemplo de melhorias para lidar com o aumento de fraudes, e uma série de estudos sobre essas dificuldades financeiras (chamados Consumer Pulse) para ajudar as empresas a entenderem como os consumidores foram afetados financeiramente pela pandemia.

*São dados complementares aos disponibilizados pelos bureaus de crédito, e auxiliam as empresas a ampliarem a assertividade de análise de risco de forma objetiva através de algorítimos matemáticos e estatísticos. Adicionalmente são um importante instrumento de inclusão de jovens, pessoas com pouco histórico de mercado, sub-bancarizadas e desbancarizadas.

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