Diogo Dutra: “A grande chave está no como”

 Diogo Dutra

As venture builders, conhecidas como fábricas de startups, são responsáveis pelo nascimento de muitas startups – do zero à maturidade – auxiliando os founders a desenvolverem suas tecnologias e lançarem seus produtos, bem como a administrar a startup, no que diz respeito a investimentos e parcerias do mercado. A Caos Focado surgiu como consultoria de inovação em 2011, tornando-se uma Venture Builder em 2015. Já fundou e empreendeu cinco startups de base tecnológica no Brasil, incluindo um exit de sucesso. O foco da empresa são as deep tech, que nascem de descobertas de pesquisa científica das universidades nas áreas de matemática, física, medicina e engenharia. Os fundadores são mestres, doutores e pós-doutores e as startups de tecnologia têm um tempo de maturação mais longo, incluindo muitas vezes etapas regulatórias para lançamento de produtos no mercado. Em contrapartida, proporcionam soluções disruptivas para grandes problemas da sociedade e maior potencial de retorno aos investidores. “No Caos Focado, não selecionamos startups já com ideia ou produto. Selecionamos um founder de excelência em alguma tecnologia, capaz de construir um diferencial tecnológico consistente e, junto a ele, vamos explorar possibilidades de produto e proposta de valor em diferentes mercados, em um tipo de residência”, afirma Diogo Dutra, cofundador da Caos Focado.

Diogo, se manter focado em meio ao caos é o grande segredo dos empreendedores de sucesso?

O grande segredo da abordagem Caos Focado de empreendedorismo é saber quando é preciso provocar o caos, no sentido de abrir novas possibilidades, e quando é preciso focar em uma única direção. Trabalhar em cenários de extrema incerteza exige uma certa ambidestria para operar e provocar caos e foco.

Qual o insight para a criação da Caos Focado?

Diria que a tese atual do Caos Focado não veio de um momento único de insight, mas a experiência acumulada ao longo dos 10 anos de atuação inicialmente como consultoria de inovação para grandes corporações, depois como criadores da aceleradora de startups de base tecnológica Academic Working Capital junto ao Instituto TIM e por fim como empreendedores em cinco empresas de base tecnológica inovadoras a partir de um método próprio de venture building que prioriza qualidade e foco na aplicação do nosso capital empreendedor serial como second time founders em poucas startups ao invés de uma lógica de “spray and pray” (que significa apostar em centenas de empresas para uma dar certo e pagar todo o portfólio). Seguindo uma lógica “connecting dots” do Steve Jobs, é possível olhar para trás e dizer que o que nos trouxe até aqui foi nossa vocação para transformar o potencial represado de inovação (capital humano) que temos no Brasil (nas universidades principalmente) em realidade.

O que norteia a atuação da Venture Builder no mercado?

Nossa tese se baseia em sentar na cadeira do empreendedor e não do investidor/aceleradora/incubadora. Ao contrário de algumas iniciativas que se autodenominam Venture Builders, mas que na realidade atuam como aceleradoras tradicionais, na lógica de spray and pray (algo que pode ser percebido facilmente pela razão entre o número de startups do portfólio e o número de sócios do time), a Caos Focado acredita que o papel do second time founder com alta dedicação nas fases iniciais de um novo negócio são absolutamente diferenciais.

Pegando o exemplo da Sutter Hill Ventures e do seu CEO Mike Speiser. Desde a década de 2000, a equipe de gestores da Sutter Hill atua na operação das startups incubadas, assumindo o papel de “CEO interino”, até validar as principais hipóteses de produto e mercado, contratando um CEO full time para escalar o negócio. Do portfólio, a Pure Storage tem valuation de +U$ 3Bi e recentemente a Snowflake fez um IPO de U$ 70Bi, com a Sutter Hill possuindo mais de 20% do negócio. Se olharmos para o Playbook de atuação da SHV encontramos muitas semelhanças com os princípios norteadores da Caos Focado, o que nos dá confiança de que é uma maneira eficiente de alocação de capital.

Por que a Caos Focado passou de uma consultoria de inovação para uma Venture Builder?

A Caos Focado surgiu em 2011 como uma consultoria de inovação baseada em design, a partir de referências como o MIT D-Lab, onde o sócio Miguel trabalhou por dois anos, e a MInes Paristech na França, onde eu estudei Engineering Design pro um ano e meio. Nossa visão era ser a “IDEO”, icônica consultoria americana de design thinking, no Brasil. Entre 2011 e 2014 já haviam sido realizados diversos projetos de inovação para empresas, instituições e universidades, incluindo a criação da área de inovação em um grande banco. A esta altura já éramos experts em cocriação de novos conceitos de inovação a partir da visão do usuário no centro, capturada diretamente da fonte.

À medida que a lógica de risco de investimento das grandes corporações, incompatível com graus de inovação maiores, matava conceitos atrás de conceitos promissores, nascia uma frustração e inquietude nos sócios do Caos Focado, cujo propósito sempre foi ver a inovação gerando efetivo impacto econômico e social em larga escala.

Foi então que nós buscamos testar uma abordagem de inovação diferente dos métodos que tinham aplicado até então: criar nós mesmos novas empresas junto com jovens gênios técnicos (tipo os que víamos na USP, MIT e Paristech) e assim gerar inovação por meio de um negócio de alto potencial de crescimento. Disso, até se tornar uma Venture Builder, foi um passo necessário de sistematização e estabelecimento de uma lógica de investimento coerente com o modelo. No fundo, tentamos equilibrar duas lógicas empreendedoras, o de empreendedorismo serial e de empreendedorismo de portfólio.

Em que momento foi estabelecido que o foco da Caos Focado seria nas deep techs?

A Caos Focado tornou-se de 2015 a 2019 a consultoria responsável pelo conteúdo e gestão do programa Academic Working Capital (AWC), programa do Instituto TIM, direcionado para estudantes de ciências exatas que queiram transformar seus trabalhos de conclusão do curso em negócios inovadores. Ao longo de um ano, os universitários são acompanhados por tutores e recebem apoio financeiro para montar o protótipo e dar os primeiros passos em seu negócio. Neste período, tomamos contato com os desafios de mais de 200 startups e como contornar muitos deles – 30 startups se tornaram negócios reais e uma delas foi a MVisia, startup vendida para a WEG em 2020. A partir deste programa demos origem à metodologia de Empreendedorismo Científico para empresas de base tecnológica chamada Shell4Startups.

Desde a época da faculdade de engenharia mecatrônica na USP e também durante o AWC, eu e meus sócios da Caos Focado víamos muitos jovens gênios dominando tecnologias de ponta nas universidades no Brasil, muitas vezes com intercâmbio em universidades de ponta no exterior, inspirados lá fora a inovar, mas não tendo amparo no Brasil. Como argumentamos no estudo de startups deep tech Brasil em 2018 se classificou em 13º no ranking de países que mais produzem artigos científicos no mundo, sendo o 1º em relação às publicações de acesso aberto. Por outro lado, estamos apenas em 66º no Índice de Inovação Global (IGI), evidenciando o enorme gap que temos entre a geração de conhecimento de fronteira e o impacto no mercado. A Caos Focado então se posiciona para fechar este gap e dando oportunidade para criação de negócios que em outras circunstâncias simplesmente não existiriam.

Muitos dizem que o mercado deep tech é revolucionário. Concorda com tal afirmação?

Com certeza. Recentemente li um artigo na Forbes escrito pela Debora Lovich, Managing Director & Senior Partner da consultoria estratégica Boston Consulting Group apontando a existência de mais de 30.000 startups deep tech do mundo e como cada uma tem o potencial de mudar profundamente as nossas vidas para sempre. Dando o exemplo da Quantis, do portfólio do Caos Focado. Nós estamos bio imprimindo uma “proto pele” que maximiza a produção de colágeno bioidêntico ao humano de forma escalável e cruelty free. Pensando que a vasta maioria da indústria farmacêutica e cosmética utiliza colágeno de origem animal, e que colágeno de origem vegetal não possui propriedades fundamentais para medicina regenerativa, há um potencial enorme de transformação nestas indústrias.

Quais as maiores complexidades dessa revolução?

Lançamos recentemente um estudo evidenciando três principais barreiras que existem para startups deep tech no Brasil, mas também apontando como o ecossistema de inovação no Brasil tem se movimentado para superá-las. São elas:

Infraestrutura: Especialmente para startups deep tech das áreas de biotecnologia e materiais avançados, o acesso à infraestrutura laboratorial e de manufatura habilitada para produção em escala piloto é chave para seu progresso. O report Liga Insights Hard Sciences na Saúde aponta que há diversos fatores atrasando o desenvolvimento biotecnológico no Brasil, como por exemplo: Os equipamentos necessários para o desenvolvimento de biotecnologias são caros e subutilizados quando direcionados a uma única equipe, dificultando a aquisição dessa infraestrutura; Em todo o Brasil, há apenas 10 infraestruturas de ponta com valor superior a R$30 milhões, somados os equipamentos e as instalações físicas; Total de investimento em equipamentos inferior a R$ 2M em 90% dos laboratórios no Brasil; A maior parte dos laboratórios estão em instituições públicas e estas instituições requerem a propriedade intelectual da pesquisa e o processo para utilizar é burocrático.

Mindset Empreendedor: Como apresentado no artigo, de Gustavo Mamão, autor do livro Inovação da Raiz, que retrata o empreendedorismo inovador no Brasil a partir do case de sucesso da Rizoflora, empresa spin-off acadêmica, além de conselheiro da Caos Focado e da minha pessoa, que é sócio da Caos Focado, “um dos pontos que mais inibem o desenvolvimento de empreendimentos inovadores é o viés cognitivo de seus empreendedores, principalmente quando eles são pesquisadores, fundadores com perfil mais técnico ou empreendedores de primeira viagem. O viés cognitivo é um tipo de padrão comportamental, ou tendência de pensamento e decisão que surge como mais natural em algum contexto específico. Além do velho mito de que uma ideia genial é o principal fator de sucesso de um negócio (ideia compartilhada por quase todos os empreendedores de primeira viagem), há uma tendência desses pesquisadores e fundadores mais técnicos de serem mais apaixonados pela tecnologia ou pelo produto criado do que por resolver o problema de alguém.

Funding: “Sem grandes projetos, sem grandes investimentos”. Segundo o report da SGInnovate (2019), o problema de financiamento para startups deep tech é um problema de ovo e galinha: não são gerados bons projetos porque há baixa oferta de grandes financiamentos suficientes para suportar um período pré-operacional mais longo, maior investimento em P&D e em etapas regulatórias antes de obter retornos (potencialmente maiores, compensando o risco). Por outro lado, poucos projetos de startups deep techs sendo originados dificultam a construção de um deal flow favorável aos fundos de investimento.

Por outro lado, onde há barreiras, há oportunidade. Ser protagonista e pioneiro, encontrando e aproveitando todas as brechas que o ecossistema nacional e mundial está proporcionando para dar luz às deep techs mais inovadoras tem sido o segredo do sucesso da Caos Focado.

O conceito deep tech pode trazer um contraponto para as avassaladoras big techs?

Acreditamos que mais que um contraponto, é um complemento fundamental, e inclusive as big techs (Google, Amazon, Facebook, etc) são uma rota potencial de saída das deep techs. É só acompanhar, por exemplo, a compra de empresas como Looker Data Science, DeepMind Technologies (IA) e Nest Labs (IoT) pela Google. E a própria Google nasceu como uma empresa deep tech, tendo desenvolvido durante a universidade um algoritmo disruptivo se tornando a big tech que é hoje.

Por onde passa esse contraponto (se é que ele existe)?

Vale aqui pontuar o que diferencia uma deep tech de outros tipos de startups. Deep tech entrou como um jargão na seara de startups em 2014 pela investidora Swati Chatuverdi da Propel(x) Venture Capital. Segundo o report SGInnovate Insights, ela queria diferenciar empresas de “tecnologia profunda” da massa, em geral, de startups de Internet, dispositivos móveis e comércio eletrônico, baseadas em inovação de modelo de negócios, incremental, melhorias de serviço ou de implantação de tecnologias padronizadas. O report do Boston Consulting Group (2019) define sete categorias de deep techs: Biotecnologia; Inteligência artificial; Eletrônica e fotônica; Drones e robótica; Materiais avançados; Blockchain e Computação quântica.

Isso seria uma evolução ou inovação dos processos?

Quando falamos de deep tech, estamos falando de disrupção e não de inovação incremental. Quando lemos o livro “O Dilema da Inovação” do Clayton Christensen vemos que uma inovação disruptiva geralmente começa em um mercado de nicho, low end, que não está sendo olhado com carinho por empresas incumbentes, e pelo qual podemos iniciar uma revolução. É nisso que acreditamos e o que temos feito de forma consistente nos últimos 5 anos. A grande chave está no como. É desse lugar que desenvolvemos e evoluímos nosso próprio método de venture building.

Os próximos anos serão decisivos para as companhias que atuam pelo prisma deep tech?

À medida que os mercados de capital de risco e os modelos de venture building pelo mundo inteiro vão se amadurecendo, como é o caso do Brasil, maior a possibilidade de existirem startups deep tech. Cada vez mais os investidores estão percebendo que não é só no Vale do Silício que temos inovação, mas em qualquer lugar do mundo, e que tecnologia de fronteira gera uma barreira de entrada e por consequência retornos maiores. Só precisamos de capital mais paciente. Quanto mais evoluímos como sociedade gerando valor e riqueza, maior a probabilidade de se ter investidores pacientes que querem ver não uma melhoria de 2%, mas uma melhoria de 2000% frente aos problemas enfrentados pela humanidade.

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