Sua Página
Fullscreen

Existirá um amanhã para Javier Milei?

Anúncios
Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

A Argentina sempre teve uma vocação especial para fabricar personagens políticos que parecem saídos de um romance febril escrito às pressas entre um café requentado e uma crise cambial. Javier Milei surgiu exatamente assim: uma mistura de pregador televisivo, economista libertário de auditório e rockstar antissistema. Durante um tempo, funcionou. Funcionou porque o país estava cansado. Cansado do peronismo, cansado da inflação eterna, cansado de promessas recicladas como garrafas vazias boiando no Rio da Prata.

Milei apareceu vendendo uma ideia brutalmente simples: destruir o velho sistema. E há momentos históricos em que destruir parece mais sedutor do que construir. Empunhando sua retórica incendiária, sua motosserra simbólica e sua disposição para insultar adversários como quem participa de uma luta livre mexicana, ele capturou o espírito de uma população intoxicada pela decadência econômica.

“A inflação de 3,4% em março de 2026 talvez pareça modesta para padrões argentinos históricos, mas politicamente ela é devastadora porque destrói justamente o principal troféu do governo. Milei construiu sua legitimidade em torno da promessa de derrotar a inflação.”

No início, o choque ultraliberal trouxe resultados que seus defensores tratavam quase como um milagre bíblico. A inflação, que parecia um monstro impossível de domesticar, desacelerou fortemente. O mercado internacional olhou para Buenos Aires com aquele entusiasmo típico de investidores que adoram austeridade — desde que ela aconteça longe de seus próprios países. Milei virou capa, manchete, celebridade ideológica. Para parte da direita global, ele era uma espécie de punk do capitalismo extremo.

Mas governos não sobrevivem apenas de performance estética ou frases virais nas redes sociais. A realidade possui um defeito irritante: ela cobra resultados concretos. E os números começaram a perder a maquiagem. A inflação voltou a acelerar. A atividade econômica despencou. A produção industrial encolheu. Empresas fecharam. O consumo derreteu. A população, que inicialmente suportava o remédio amargo em nome de uma futura redenção econômica, começou a perceber que talvez o “tratamento de choque” estivesse produzindo mais choque do que tratamento.

O ultraliberalismo encontra a rua

Existe uma velha ironia latino-americana: economistas costumam amar planilhas, mas as ruas raramente obedecem às planilhas. Milei acreditou que seria possível aplicar um programa ultraliberal quase laboratorial numa sociedade emocionalmente exausta e socialmente frágil. Talvez tenha subestimado um detalhe importante: países não são startups.

Quando os índices econômicos pioram, o discurso messiânico começa a sofrer rachaduras. A inflação de 3,4% em março de 2026 talvez pareça modesta para padrões argentinos históricos, mas politicamente ela é devastadora porque destrói justamente o principal troféu do governo. Milei construiu sua legitimidade em torno da promessa de derrotar a inflação. Se ela volta, ainda que parcialmente, a narrativa começa a sangrar.

A retração econômica também corrói outra promessa fundamental: a de prosperidade futura. Durante meses, o governo repetiu que o sofrimento seria temporário, quase um “sacrifício patriótico”. Só que o problema das promessas de sofrimento temporário é que elas possuem prazo de validade emocional. O cidadão comum suporta dificuldades quando acredita que existe uma luz no fim do túnel. Quando a luz demora demais, ele começa a suspeitar que talvez seja apenas outro trem vindo em sua direção.

Os escândalos de corrupção pioram ainda mais o cenário. Isso porque Milei não foi eleito apenas como economista radical, mas como purificador moral da política argentina. O eleitor tolera contradições ideológicas; o que destrói líderes antissistema é a percepção de que eles começaram a se parecer justamente com o sistema que juraram exterminar.

E há ainda um componente psicológico importante: Milei governa em estado permanente de confronto. Esse estilo funciona muito bem para conquistar poder. Mas governar exige algo mais complexo do que guerrear vinte e quatro horas por dia. O conflito contínuo exaure aliados, assusta setores produtivos e transforma qualquer crise em avalanche. Presidentes que vivem apenas da combustão ideológica acabam presos dentro do próprio personagem.

A oposição percebe isso. O peronismo, que parecia em coma político após a derrota humilhante de 2023, lentamente recupera oxigênio. Não porque tenha necessariamente se reinventado, mas porque crises econômicas sempre fertilizam nostalgias. Na América Latina, o fracasso de um modelo quase sempre ressuscita o modelo anterior — ainda que ele próprio tenha fracassado antes. É um continente especialista em reciclar decepções.

Ainda assim, seria precipitado decretar o fim político de Javier Milei. A Argentina continua profundamente fragmentada, e parte significativa da população ainda acredita que os problemas atuais são culpa das heranças recebidas. Além disso, Milei mantém um capital simbólico poderoso entre jovens, setores financeiros e grupos que enxergam qualquer crítica ao governo como defesa automática do velho establishment.

A grande pergunta, portanto, não é apenas se Milei sobreviverá politicamente. A questão mais profunda é outra: existe espaço, na Argentina real, para um experimento ultraliberal tão radical? Até agora, a experiência parece demonstrar que destruir estruturas antigas é relativamente fácil. Difícil é impedir que os escombros caiam sobre a própria população.

 Javier Milei governa em estado permanente de confronto com um inimigo oculto (Foto: Wikipédia)
Javier Milei governa em estado permanente de confronto com um inimigo oculto (Foto: Wikipédia)

No fim das contas, Javier Milei talvez descubra a lição mais cruel da política sul-americana: vencer uma eleição como profeta da ruptura é uma coisa; sobreviver ao cotidiano brutal de um país em crise é outra completamente diferente. A motosserra produz aplausos em campanha. No governo, porém, ela pode acabar cortando o próprio chão sob os pés do presidente.


Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

Obs: opiniões enviadas com equilíbrio poderão aparecer no chamado Termômetro do Leitor

   
Anúncios
Acessar o conteúdo
Verified by MonsterInsights