Facundo Guerra, fundador e diretor executivo do Grupo Vegas: “Os negócios precisam se humanizar”

O bem-sucedido empresário

Facundo Guerra é formado em Engenharia de Alimentos pelo Instituto Mauá de Tecnologia e pós-graduado em Jornalismo Internacional e Político. Facundo é também doutor em Ciências Políticas pela Pontífica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O profissional é argentino, naturalizado brasileiro. É diretor executivo do Grupo Vegas, que inclui os bares Volt, Z Carniceria, Lions Nightclub, Yacht e Cine Joia, que trouxe de volta em 2012, para a região da Liberdade em São Paulo, um antigo cinema dedicado à cineastas japoneses. Também faz parte do Grupo Vegas, o Riviera, misto de clube de jazz, bar e restaurante. Em 2014 abriu o Panam e o Frank Bar, além de ter revitalizado o bar Mirante 9 de Julho. Facundo inaugurou em 2018 o Bar dos Arcos e no ano seguinte abriu uma filial do clube nova-iorquino, Blue Note. Foi eleito em 2016, um dos 100 empreendedores mais influentes do mundo pela revista norte-americana Good Magazine. É considerado o novo “Rei da Noite” do Brasil. Recentemente participou do BCB Shots, série de webinars gratuitos do BCB São Paulo. “O setor de alimentos, bebidas e hospitalidade já não estava bem, imerso em mais de três anos de crise e recessão. Por outro lado, com ascensão do discurso do empreendedorismo e a fragilização das relações trabalhistas, muitas pessoas decidiram abrir seu próprio negócio no campo de alimentação e bebida, o que havia criado uma bolha”, afirma.

Facundo, como enxerga o seu setor num dos momentos mais complexos da nossa história?

O setor de alimentos, bebidas e hospitalidade já não estava bem, imerso em mais de três anos de crise e recessão. Por outro lado, com ascensão do discurso do empreendedorismo e a fragilização das relações trabalhistas, muitas pessoas decidiram abrir seu próprio negócio no campo de alimentação e bebida, o que havia criado uma bolha. Acredito que nós vamos ter uma correção no número de negócios, como a quebra considerável dentro desse setor. Alguns estimaram em 50%. É um dos períodos mais difíceis da história para donos de bares e restaurantes, e pessoas que trabalham com cultura num sentido mais amplo.

O pós-Covid será dramático em sua visão?

No primeiro momento, sim, mas, ao mesmo tempo, as pessoas estão sedentas a voltarem a ter algum tipo de contato físico com o mundo físico – estão cansadas das virtualidades. Então acredito que num curto espaço de tempo, digamos, um ano, a gente vai viver o teatro da assepsia, e conviveremos com os fantasmas da quarentena. Logo após a vacina ou até mesmo antes disso, infelizmente normalizaremos as mortes, coisa que já estamos fazendo como sociedade, e conviveremos lado a lado com a Covid por muito tempo.

Acredita que o pós-Covid trará oportunidades também?

O mercado estará todo retraído, os juros estão baixíssimos, então acredito que existirá um reinvestimento na economia real em algum momento. Mas fato é que a gente vai viver uma grande recessão. Menos dinheiro na mão dos consumidores, menos negócios para capturarem esse dinheiro, menos espaço para amadorismo. Talvez sejamos cada vez menos negócios autorais, de bairro, e grandes cadeias e corporações ocupando o espaço da refeição fora de casa. Mas não gosto de ver isso como uma oportunidade.

As experiências dos consumidores deve mudar em que pontos?

Primeiro, eu acho que eles procurarão por uma relação custo/benefício mais vantajoso para eles. Acredito que buscarão também por narrativas mais simples, sem aquela complexidade toda pré-pandemia, que gerou monstruosidades, como, por exemplo, a gourmetização. Penso que também irão recorrer a produtos mais clássicos, e tenderão a valorizar o negócio local, se ele resistir. Também acho que a busca por experiências, que já era uma tendência pré-pandemia, agora será imperativa, como uma maneira de criar ainda mais valor ao produto vendido.

Como a digitalização acelerada tem lhe afetado como empresário?

Relativamente pouco. É muito difícil para um espaço de sociabilidade, cujo propósito é juntar os humanos, se digitalizar. Acredito que essa tendência de digitalização acabará por nos levar ao extremo oposto: quanto mais analógico e orgânico, tanto melhor. Se as pessoas já estavam cansadas de terem suas relações intermediadas por telas, os bares e restaurantes estarão aí como um remédio para esse excesso.

Quais são as bases de um negócio à prova de crises?

Os negócios precisam se humanizar, se politizar, colocarem o consumidor no centro das experiências propostas, e serem um eixo de comunidade. O foco não deve ser no produto, mas na comunidade, e o produto é apenas uma cristalização dos valores do criador. Eu acredito em negócios cada vez mais participativos, onde eventualmente a comunidade se transforma em cocriadora e sócia do negócio principal.

Somos de verdade, gostem da gente ou não. Fazemos para nós, e não para um hipotético público-alvo. No final das contas, o que vendemos é a nossa visão de mundo, que por sua vez é sustentada por múltiplos produtos.

Esses pilares são fundamentais para o Grupo Vegas ser à prova de crises?

Depende do tipo de crise qualquer negócio pode desaparecer. Temos sangrado, mas estamos vivos, e acho que um dos segredos para isso foi o fato de termos nos precavido e mantido o caixa dentro das operações para uma eventualidade. Sangramos todo caixa, mas voltaremos fortes, com a nossa equipe original. Penso que podemos nos considerar robustos.

Outra palavra dita sobre você é subversivo. Ser subversivo no mundo dos negócios é fundamental?

Eu julgo que para o pequeno empreendedor é uma questão de sobrevivência. O subversivo ele não se alinha com o Status quo, ele desafia a maneira como as coisas são feitas. Ele questiona, é incômodo. Se eu for seguir o fluxo tradicional das coisas, o que eu fizer será commodity. E o jogo do commodity não é para os pequenos, mas para os grandes. Ser do contra e testar novas aproximações a velhos problemas é uma questão de sobrevivência para mim. Não acredito que dê para ser empreendedor de outra maneira.

Qual a maior subversividade que você já realizou em seus negócios?

Eu penso que não existe nada mais subversivo nos negócios do que você não colocar dinheiro como primeira razão para ter um negócio. Eu acredito que os negócios são veículos para gente expressar nossa maneira de ver o mundo. Em segundo lugar a gente coloca as pessoas que trabalham no negócio e que são responsáveis pela sua formação no centro do mesmo, e logo depois a nossa comunidade, que nem uso chamar de consumidores. Dinheiro é consequência de tudo isso. Já tomamos muitas decisões do lado de cá onde sabíamos que perderíamos dinheiro a curto prazo, mas ganharíamos em reputação a médio e longo. Não existe nada mais subversivo no capitalismo do que o dinheiro não estar no centro das decisões.

Uma frase sua: “Nós só evoluímos quando adquirimos novas visões”. Que visões você tem adquirido na atual conjuntura e que farão você evoluir como um agente da nossa sociedade?

Francamente não me lembro de ter dito essa frase (Risos). Tenho percebido de como a vida pode ser mais simples, como ser pequeno e menor é mais bonito, e como a vida que eu tinha pré-pandemia não é uma vida que eu quero seguir tendo. Desenvolver um prazer pelo frugal, pelo silêncio, pelo tempo, pelo equilíbrio, tudo isso para mim é uma nova forma de luxo.

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