Flávio Serrano, economista-chefe do banco Haitong: “A inflação é sempre preocupante no Brasil”

banco Haitong

Flávio Serrano passou por instituições financeiras de prestígio no cenário nacional, sendo elas a Ágora Investimentos e o BES Investimentos, banco que era o braço de investimentos do português Banco Espírito Santo e que atualmente faz parte da corretora chinesa Haitong. O banco no Brasil foi criado no 1º semestre de 2000 e é controlado, diretamente, pelo Haitong Bank com sede em Portugal (80%) e, indiretamente, pela Haitong Securities, Banco de Investimento com sede em Xangai, China. Atualmente é economista-chefe do banco de investimentos Haitong. Entre os vários assuntos tratados na entrevista concedida para o portal Panorama Mercantil, ele afirma: “Podemos estabelecer algumas medidas para mensurar o impacto da pandemia. Em termos de produto, a economia deveria crescer algo entre 2% e 3% no ano de 2020, e, na verdade, deveremos observar uma contração entre 4% e 5% neste ano. No momento mais agudo da crise, o país chegou a fechar cerca de 1,6 milhão de empregos formais. Já recuperamos boa parte das perdas, mas ainda assim deveremos fechar o ano com destruição de 600 mil postos formais de emprego. Do ponto de vista fiscal, o Governo teve que desembolsar quase R$ 600 bilhões para sustentar a renda da população e combater os efeitos da crise, cerca de 8% do PIB. Isso sem mencionar os impactos financeiros, como aceleração da inflação e desvalorização da moeda”.

Em fevereiro, você afirmou que era cedo para mensurar o impacto do coronavírus na economia. Passados 7 meses, esse impacto pode ser mensurado?

Sim, é possível. Podemos estabelecer algumas medidas para mensurar o impacto da pandemia. Em termos de produto, a economia deveria crescer algo entre 2% e 3% no ano de 2020, e, na verdade, deveremos observar uma contração entre 4% e 5% neste ano. No momento mais agudo da crise, o país chegou a fechar cerca de 1,6 milhão de empregos formais. Já recuperamos boa parte das perdas, mas ainda assim deveremos fechar o ano com destruição de 600 mil postos formais de emprego. Do ponto de vista fiscal, o Governo teve que desembolsar quase R$ 600 bilhões para sustentar a renda da população e combater os efeitos da crise, cerca de 8% do PIB. Isso sem mencionar os impactos financeiros, como aceleração da inflação e desvalorização da moeda. Sem dúvida, os impactos da pandemia foram bastante pesados para a economia brasileira.

O corte do auxílio emergencial pode afetar a economia em quais sentidos?

O corte pode gerar alguma desaceleração na margem do consumo das famílias, uma vez que haveria redução da renda efetiva de uma camada importante da população.

Estender ainda mais traria problemas também, não?

Muito provavelmente. É importante destacar que o país não tem mais espaço fiscal para estender o programa de sustentação da renda. Estamos com o endividamento próximo de 100% do PIB e com dificuldades para colocar todas as demandas de gastos dentro dos limites constitucionais, como teto dos gastos, por exemplo. Descontrole fiscal significaria piora nas condições financeiras, aceleração da inflação e menor crescimento.

Essa é maior encruzilhada do Governo Bolsonaro na atual conjuntura?

Certamente, certamente.

A estabilização da dívida é outro ponto importantíssimo. Que medidas seriam necessárias para evitar o aumento descontrolado da dívida em um médio prazo?

A agenda de reformas pode contribuir para melhorar o nível de endividamento. A reforma administrativa e a tributária são exemplos que poderiam contribuir para limitar gastos e melhorar a competitividade do ambiente econômico, garantindo maior crescimento ao longo do tempo e a sustentabilidade da dívida pública no médio prazo.

Economistas sempre diziam que a inflação não era preocupante. Com o mercado piorando a previsão deste ano para 3,20%, ela [inflação] se tornou preocupante?

A inflação é sempre preocupante no Brasil, seja pelo histórico, seja pelo impacto que ela produz sobre a camada mais pobre da população. Entretanto, a conjuntura de curto prazo ainda indica um risco baixo para a inflação persistir nos atuais níveis. Afinal, a maior parte da pressão recente se dá por conta da alta dos alimentos e da desvalorização recente do câmbio. Por outro lado, o elevado nível de desemprego deve contribuir para manter a inflação de serviços rodando em patamares historicamente baixos. O maior risco está no lado fiscal. Se perdermos a âncora fiscal, as expectativas de inflação deverão começar a subir, fato que poderia transformar o processo atual – limitado a alguns produtos – para algo mais disseminado.

A taxa de juros deve subir em 2021?

Sim, deve. Esperamos alta da taxa Selic no segundo semestre do ano que vem. Esperamos taxa de 3,50% a.a. em dezembro de 2021.

O dólar abaixo de 5 reais seria possível novamente?

Sim, seria. Na verdade, nossos modelos de médio prazo indicam que o valor adequado para a estrutura do balanço de pagamentos atual seria algo próximo de R$ 4,80. Entretanto, boa parte do risco macroeconômico está concentrado no câmbio, ainda mais por conta do nível de juros atual extremamente baixo. Se o cenário fiscal melhorar, seria possível verificar a taxa de câmbio abaixo de R$ 5,00 novamente. Por outro lado, caso a situação fiscal se deteriore, poderemos observar a moeda testando novamente valores próximos das máximas históricas.

Como a vitória de Joe Biden irá influenciar a bolsa nos próximos meses?

Ainda não é muito claro o impacto da vitória de Joe Biden para a bolsa americana, mas provavelmente observaríamos menor volatilidade ao longo do tempo. Parece haver um maior consenso sobre o impacto da vitória do candidato democrata sobre o câmbio. A visão consensual indica um dólar mais fraco no médio prazo.

Algo poderia diferir com a vitória de Trump?

Da mesma forma, podemos inferir analogamente o inverso da questão anterior. Efeitos incertos sobre a bolsa, eventualmente maior volatilidade e dólar mais forte no mundo.

A pandemia deve reforçar o poder da economia chinesa. Como isso deverá “respingar” em nosso país?

A demanda forte da China por commodities contribuiu para sustentar as exportações brasileiras ao longo do ano de 2020, em especial soja e minério de ferro. Esperamos a manutenção deste quadro no ano de 2021.

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