Francisco Perez: “Muitas pessoas confundem ESG com filantropia”

 Francisco Perez

O Conglomerado Financeiro Alfa é composto por empresas atuantes em diferentes segmentos financeiros e de seguros, e, com vasta experiência e tradição construídas em mais de 90 anos de história, busca a excelência no desenvolvimento de seus negócios. Com atuação principalmente nos segmentos de crédito a pessoas jurídicas e físicas, Tesouraria, Administração de Recursos de Terceiros, Private Banking, Wealth Management e Fusões e Aquisições, o Conglomerado é formado por Banco Alfa, Banco Alfa de Investimento, Alfa Financeira, Alfa Leasing, Alfa Corretora, Alfa Seguradora, Alfa Previdência e Alfa Collab. Oferecendo segurança e solidez, opera com respeito aos valores éticos e sustentáveis, que sempre acompanharam sua trajetória. Faz parte do Conglomerado Alfa, que é também composto por empresas não financeiras de setores diversificados, tais como hotelaria (Rede Transamérica de Hotéis), materiais de construção (C&C Casa e Construção), agropecuária e agroindústria (Agropalma), águas minerais (Águas Prata), alimentos (Sorvetes La Basque), cultural (Teatro Alfa) e comunicações (Rede Transamérica de Rádio). A sustentabilidade vem ganhando cada vez mais importância nas ações empresariais do Conglomerado, além de iniciativas práticas voltadas a este propósito, a adoção de projetos que estimulem a disseminação da cultura sustentável em toda a cadeia também tem sido cada vez mais difundidas.

Francisco, qual a importância do ESG para o mundo dos negócios?

Atualmente, os temas ligados ao ESG (Ambiental, Social e Governança Corporativa) são questões prioritárias para qualquer empresa. As iniciativas globais impulsionaram o crescimento da sustentabilidade nos últimos anos, gerando uma súplica necessária para melhorar a educação, diminuir a desigualdade e impulsionar o crescimento econômico e, ao mesmo tempo, abordarmos os temas climáticos e ambientais. O que se espera hoje das empresas é muito além de serem financeiramente rentáveis. Elas devem gerar um impacto positivo e contribuir para um crescimento sustentável.

Considera ser o tema mais relevante das corporações na atualidade?

Sim, estudos recentes nos trazem preocupação como, por exemplo, o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), divulgado em agosto deste ano, que expôs as ações humanas como irreversíveis e já resultaram no aumento da temperatura no planeta e em tantas outras mudanças climáticas. Com isso, o tema ESG deve ser o mais relevante das corporações na atualidade, caso contrário as futuras gerações sofrerão ainda mais consequências, logo a mudança prática das empresas precisa ocorrer quanto antes.

As empresas estão dando atenção devida a esse tema?

Estamos presenciando uma crescente preocupação com o tema, e ampliação das pressões por parte dos diversos stakeholders. As empresas que não estão dando atenção às práticas ESG deveriam mudar quanto antes, pois, atualmente e futuramente os seus negócios serão impactados negativamente, inclusive na questão de retração de investimentos externos, pois, é uma pauta que já é o presente e não mais uma condição de mudança futura. Logo, as companhias devem se preocupar cada vez mais com a agenda ESG nos seus negócios, tanto do ponto de vista financeiro quanto da ação prática, ou seja, executar essas mudanças para demonstrar que efetivamente está colaborando para os valores da empresas e do planeta.

Quais os maiores desafios da ESG em sua visão?

Em primeiro lugar, acredito que o maior desafio seja a mudança de mentalidade e a conscientização de todos os envolvidos nos nossos negócios, ou seja, é mostrar que não podemos continuar fazendo as coisas como antigamente. Superado este obstáculo, obviamente alguns segmentos terão que enfrentar mudanças significativas para que consigam aplicar os conceitos ESG em toda a cadeia, mas vejo que este ponto tem sido cada vez mais tranquilo para as empresas em virtude da atuação de movimentos que estão comprometidas em fomentar este processo, como a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, do qual o Alfa é membro. Para o Brasil, vejo um desafio grande em relação ao S, do ESG, isso porque o nosso ‘gap’ neste setor é muito grande e temos muito a desenvolver.

A pandemia ajudou a impulsionar a adesão aos conceitos de ESG?

Acredito que, de certa forma, acabou ajudando sim. Isso porque, com este novo cenário imposto pela pandemia, algumas empresas precisaram recorrer a linhas de créditos para seguir operando seus negócios e, provavelmente, foram impactadas neste momento por considerações que o setor financeiro vem implementando para ampliar a consciência e aplicação prática dos conceitos ESG.

Muitas pessoas têm confundido ESG com filantropia. Por que às vezes alguns têm essa percepção?

Muitas pessoas confundem ESG com filantropia, pois, acreditam que é um investimento que não haverá retorno financeiro, sendo que, na verdade, trata-se de um modelo que busca realizar negócios com consideração às questões ambientais e sociais, além do retorno financeiro. Pesquisas demonstram que os negócios que adicionam essas práticas têm tido maior lucratividade. Portanto, a agenda ESG é algo que trará questões positivas aos negócios das empresas, tanto sociais quanto econômicas, ao contrário da filantropia que normalmente traz benefícios educacionais, sociais e ambientais, porém, com ausência de retorno financeiro a curto e a longo prazo.

Por onde passa a jornada de uma organização que quer implantar o ESG?

A jornada de uma organização que deseja implementar o ESG deve-se iniciar primeiramente com um planejamento teórico que seja possível de ser realizado de forma prática, para não ser apenas uma ideia ilusória, mas uma ação efetiva. Portanto, a jornada deve ser inspirada em prol dos três pilares (Ambiental, Governança Corporativa e Social), além disso, deve-se diminuir às más práticas até que consiga eliminar de vez, a fim da iniciativa ocorrer e servir de case para inspirar outras companhias a aderirem e entenderem que os seus negócios atualmente devem implementar a agenda ESG em prol da própria consolidação e do futuro do desenvolvimento sustentável.

Como o Banco Alfa encara esses desafios trazidos pela ESG?

Em novembro de 2020, o Banco Alfa formalizou sua adesão à Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial que tem como objetivo promover ações concretas para o enfrentamento dos desafios das mudanças climáticas e a construção de nova economia, baseada na baixa emissão de gases do efeito estufa (GEE). Em dezembro do mesmo ano, a IFC (membro do Grupo Banco Mundial) aprovou a primeira operação com uma instituição financeira brasileira para estimular a mobilidade limpa, sendo o Banco Alfa, que recebeu um pacote de financiamento de US$265 milhões para compor sua carteira de empréstimos para a aquisição de automóveis de maior nível de consumo sustentável, como os veículos de combustível flex, elétricos ou híbridos. Além disso, no mesmo mês, o Alfa realizou a conclusão da operação para captação de R$150 milhões à Bioenergética Aroeira S.A para sua primeira empreitada no mercado de capitais, via Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), sendo o primeiro CRA green bond, ou título verde, do setor sucroalcooleiro no Brasil; Neste ano, o Alfa criou o programa ‘Alfa Impacta Mais’, que visa implementar e apoiar o desenvolvimento e implantação da estratégia de ESG (Governança Corporativa, Ambiental e Social) e também lançou duas novas iniciativas, voltadas para os clientes da carteira de seguros da companhia, que visam mitigar os impactos que descartes incorretos podem causar ao meio ambiente.

Por que os novos negócios de uma organização estão entrelaçados a esse tema?

Além da preocupação ambiental, social e governança corporativa, os novos negócios estão diretamente relacionados aos pilares do ESG, assim como os investimentos que as empresas buscam captar no mercado, sendo uma busca fundamental para a consolidação e desenvolvimento de uma companhia que está iniciando ou buscando expansão no seu segmento de atuação. Assim, acredito que é um movimento que estará cada vez mais relacionado a todo o ecossistema, independentemente do player que a empresa estiver atuando.

Como a inovação aberta pode ser um complemento para negócios moldados pela ESG?

A inovação aberta atrelada ao avanço da tecnologia e formação de ecossistemas deve estar completamente interligada com as práticas ESG, pois, pode ser um complemento aos negócios com a realização de modelos abertos que sejam mais sustentáveis, transparentes e inclusivos. Para isso, é necessário utilizar metodologias e processos para metrificar e mostrar os impactos que podem viabilizar e melhorar os processos de inovação. Sendo assim, é um complemento essencial para as questões andarem de mãos dadas e manter as sinergias conectadas, a fim de facilitar os processos internos, pois, o ESG não pode ser visto como um caminho solitário e a inovação aberta através é fundamental para o crescimento das mesmas.

Isso será um caminho sem volta?

Sim, a jornada em busca do ESG é um novo olhar que todas as empresas devem ter e demonstrar comprometimento com os três pilares, para gerenciar os riscos e buscar oportunidades para avançar e buscar um equilíbrio nos negócios que não satisfaça apenas a questão financeira, mas que promova um compromisso com ações e impactos reais na vida da sociedade.

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