Healthtech brain4care aposta no streaming

Plínio Targa

A brain4care é uma healthtech brasileira que desenvolve e oferta tecnologia pioneira de monitorização de variações de volume/pressão dentro do crânio, também conhecida como complacência intracraniana (CIC). A healthtech adotou um modelo de negócio semelhante aos de serviços de streaming conhecidos, como Spotify e Netflix, que oferecem uso ilimitado a hospitais e consultórios por meio de um valor mensal fixo e acessível para democratizar o acesso à tecnologia e ampliar o alcance dos pacientes a melhores desfechos. Em 2021, a tecnologia passou a ser ofertada também para consultórios e centros médicos de neurologia e neurocirurgia de todo o país. A tecnologia pode ser implementada em curto espaço de tempo tanto em consultórios quanto em hospitais e inclui o licenciamento da plataforma, o sensor em comodato, treinamento e suporte. “Trabalhamos com inteligência analítica aplicada à neurologia, por isso desenvolvemos algoritmos como elementos chave no nosso negócio. Nós realizamos a monitorização neurológica com um sensor wireless, que capta e envia sinais fisiológicos para o aplicativo onde, além de permitir a visualização dos resultados em tempo real, mantém sincronização permanente com a plataforma cloud, que é LGPD & HIPPA compliance, onde nossos algoritmos proprietários geram relatórios para interpretação clínica feita pelo neurologista”, explica o CEO da brain4care, Plínio Targa.

Como se deu a criação da brain4care?

A brain4care nasceu a partir de uma experiência vivida pelo professor Sérgio Mascarenhas de Oliveira, físico e químico brasileiro reconhecido por sua atuação em ciência e educação.

Em 2005, aos 77 anos, Mascarenhas foi diagnosticado com hidrocefalia de pressão normal, doença causada pelo acúmulo de líquor em cavidades do cérebro e que provoca sintomas semelhantes aos das demências. Durante aproximadamente cinco anos, como o Parkinson, porém, com a possibilidade de tratamento e eliminação dos sintomas por meio da implantação cirúrgica de uma válvula que drena o excesso de líquido.

Movido pelo inconformismo com os procedimentos invasivos, realizou experimentos que provaram que o crânio é expansível e que suas deformações podem ser captadas por fora. O resultado derrubou um dos pilares da Doutrina de Monro-Kellie, estabelecida há 200 anos. A partir de sua descoberta, Mascarenhas criou a brain4care, que desenvolve e oferta a tecnologia pioneira de monitoramento não invasivo das variações de volume/pressão dentro do crânio, também conhecida como complacência intracraniana (CIC). A missão da brain4care é reduzir a dor e o sofrimento de milhões de pessoas, estabelecendo um novo sinal vital, acessível a todos, em qualquer lugar, sempre que for preciso.

Por que a healthtech traz uma proposta diferenciada em seu mercado de atuação?

Estudo publicado pela Lancet Neurology em 2020 aponta os distúrbios neurológicos como segunda causa de mortes prematuras no mundo (9 milhões de vidas por ano) e a primeira em incapacidades (276 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade – DALYs), com alta concentração de desfechos negativos em países de baixa e média renda (78,5% das mortes e 77,3% da incapacidade).

A natureza das patologias, cujos sintomas se manifestam quando o paciente já apresenta algum comprometimento neurológico e requer cuidados especializados, associada às dificuldades de acesso em tempo hábil aos recursos necessários para um desfecho favorável, ajudam a entender o quadro.

As tecnologias de monitoramento da saúde neurológica mais utilizadas hoje são os exames de neuroimagem, como tomografias e ultrassom, procedimentos invasivos, punção liquórica e a introdução cirúrgica de um catéter para medição da pressão intracraniana (PIC), soluções que exigem a disponibilidade de equipamentos e profissionais especializados que estão concentrados nas grandes capitais. Como a demanda é pulverizada, as possibilidades de acesso a desfechos positivos são extremamente desiguais.
No Brasil, onde apenas 15,7% dos municípios contam com um tomógrafo e os neurologistas somam 1,1% do total de médicos ativos, com alta concentração desses profissionais nas principais capitais, as possibilidades de acesso aos cuidados adequados e aos melhores desfechos são bastante restritas para a grande maioria das pessoas.

Ao oferecermos uma tecnologia simples e acessível para coletar dados sobre a saúde neurológica dos pacientes, em qualquer lugar, para que especialistas possam auxiliar nos cuidados à distância de onde estiverem, podemos ajudar a alterar desfechos em escala populacional e fazer a diferença na vida das pessoas em situações muito presentes na nossa realidade.

Nos casos de trauma cranioencefálico, por exemplo, que são uma verdadeira epidemia em nosso país, o uso da tecnologia brain4care permite que técnicos de enfermagem’, enfermeiros ou médicos generalistas, presentes em todos os cantos do país, realizem as monitorizações no paciente e obtenham os sinais que, após serem processados pelos algoritmos automatizados pela nossa plataforma, poderão ser interpretados por especialistas em qualquer lugar do mundo, auxiliando na qualificação do diagnóstico, na orientação a terapêutica e no acompanhamento da evolução dos distúrbios neurológicos, ampliando o acesso das pessoas aos melhores desfechos.

Quais os pilares que estão entrelaçados no DNA da empresa?

Ciência, tecnologia e inovação. Esses pilares associados à educação de base científica são fundamentais para o avanço da adoção de uma tecnologia disruptiva em um ambiente altamente regulado como o da saúde. Para uma healthtech que produz inovação baseada em ciência e tecnologia como a brain4care, expandir as possibilidades de desenvolvimento para horizontes mais amplos do que os impostos pelo alcance dos próprios recursos é essencial. Por isso, ajudamos a desenvolver uma plataforma de inovação aberta que conecta diversos atores da comunidade clínico-científica para criar um ambiente de cooperação que favorece a produção dos conteúdos científicos necessários para expandir os limites do conhecimento e comprovar a efetividade da nossa tecnologia em diversas aplicações.

Este movimento abriu novas possibilidades para que médicos pesquisadores brasileiros e de outras partes do mundo pudessem utilizar uma nova tecnologia para descobrir aplicações clínicas inéditas e seus resultados.

Já superamos a marca de 40 publicações científicas e a aprovação de trabalhos pelos comitês científicos dos principais congressos mundiais relacionados cresce na mesma proporção. Na última edição da Neurocritical Care Society, em Chicago, foram apresentados seis trabalhos. Para a próxima edição do Congresso Brasileiro de Neurocirurgia, serão oito.

Nosso sentimento é que a cada nova exposição relevante em um congresso de referência, a percepção da comunidade científica internacional vai se transformando, consolidando o entendimento de que a monitorização da complacência intracraniana já é uma realidade para uso clínico e com potencial para gerar um grande impacto positivo por meio da pertinência dos cuidados.

A presença da tecnologia brain4care em centros de pesquisa já alcança mais de uma dezena de instituições e incluem nomes importantes como USP, UNIFESP, UFSCAR, Cleveland Clinic, John Hopkins Hospital e Columbia University. Quanto mais ampla se torna esta rede, maior a nossa contribuição para criar e fortalecer conexões entre pesquisadores brasileiros e colegas cientistas em diferentes partes do mundo.

O modelo de negócio da brain4care funciona como nos serviços de streaming. Em que momento vocês acreditaram que esse seria o melhor caminho?

Fomos a primeira startup brasileira acelerada pela Singularity University Ventures e durante nosso período de aceleração em San Diego em 2017, tivemos a oportunidade de conversar com pessoas do mundo todo sobre modelos capazes de viabilizar negócios com potencial de impactar positivamente a vida de 1 bilhão de pessoas em poucos anos. Ali percebemos que para alcançar o maior número de pessoas no menor tempo possível seria preciso propor um modelo de negócio diferente do tradicional, que é baseado na venda de dispositivos e seus consumíveis.

Retornamos do Vale do Silício decididos a implementar um modelo diferente, que permitisse aos hospitais um uso ilimitado pagando um valor fixo mensal acessível, foi a forma que encontramos para eliminar as barreiras que poderiam impedir o acesso de quem precisa à nossa tecnologia e aos benefícios que ela permite alcançar.

Quais os detalhes desse modelo de negócio que potencializam essa ideia inicial?

Trata-se de um SaaS que licencia o uso do ambiente de serviços que suporta a tecnologia de monitoramento das variações de volume/pressão dentro do crânio (complacência intracraniana). O ambiente de serviços é composto pelo sensor brain4care, pela plataforma de analítica dos sinais coletados pelo sensor e pelo aplicativo utilizado para gerenciar a operação dos dispositivos, realizar as monitorizações e emitir os relatórios.

Todos os dispositivos são de propriedade da brain4care, que também se encarrega da manutenção e suporte para que os clientes possam utilizar à vontade, sempre que precisarem e sem preocupações com insumos ou consumíveis. Nosso cliente acessa todas as funcionalidades e benefícios do ambiente de serviços brain4care por um valor fixo mensal acessível, assim como nos serviços de streaming.

Como funciona a inteligência analítica aplicada à neurologia, na prática?

Tudo começa com a captura das microexpansões da cabeça (pulsação do sistema craniano a cada ciclo cardíaco), por um sensor mecânico que converte esses movimentos em sinais que serão processados por algoritmos automatizados.

Esse trabalho é realizado pelo dispositivo vestível que os profissionais de saúde posicionam na cabeça do paciente, que além de capturar sinais fisiológicos por meio do sensor, os envia para o aplicativo brain4care instalado no tablet ou smartphone do cliente.

O aplicativo brain4care permite a visualização dos resultados em tempo real no dispositivo onde está instalado e mantém sincronização permanente com a nossa plataforma cloud, que realiza o processamento analítico dos sinais e os devolve na forma de relatórios para interpretação médica. Os sinais capturados pelo sensor são enviados para o aplicativo via bluetooth e a conexão do aplicativo com a plataforma cloud é feita por meio de uma conexão de internet. Toda a solução atua em conformidade com a LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados, vigente no Brasil e com a HIPAA – Health Insurance Portability and Accountability Act, vigente nos Estados Unidos.

A plataforma cloud realiza o processamento analítico dos sinais adquiridos pelo sensor por meio de algoritmos automatizados, aplicando modelos matemáticos que extraem os parâmetros quantitativos das ondas registradas e as exibem nos relatórios, permitindo uma análise objetiva (numérica) dos parâmetros da onda. Esses sinais refletem a dinâmica de volume/ pressão dos três elementos contidos na caixa craniana: sangue, líquor e cérebro, e fornecem uma informação adicional fundamental para avaliar a saúde cerebral.

Qual a importância dos algoritmos para a evolução desse negócio?

A evolução dos algoritmos combinada com a nossa maturidade de comprovação científica e de efetividade nas aplicações clínicas nos permitirão evoluir com a entrega de valor aos nossos clientes ao longo do tempo. Se hoje podemos indicar variações da complacência intracraniana, amanhã poderemos entregar respostas mais completas e que permitam transformar a complexidade e barreiras relacionadas ao cuidado dos distúrbios neurológicos em simplicidade e assertividade.

Trabalhamos para que não apenas os algoritmos, mas também todo o novo conhecimento científico e tecnológico que pudermos desenvolver ou conectar nos ajudem a traduzir o significado das variações da complacência intracraniana para a saúde das pessoas, contribuindo com respostas cada vez mais objetivas para que o cuidado certo, no tempo certo, pelo custo certo estejam cada vez mais acessíveis e presentes na vida de todos. Quando isso acontecer, esperamos que os altos índices de mortalidade e incapacidade relacionados aos distúrbios neurológicos sejam apenas uma lembrança, realizando o nosso propósito de desafiar os limites da medicina para vivenciar histórias de saúde e felicidade.

Como as clínicas e hospitais estão absorvendo essa tecnologia trazida pela empresa?

Iniciamos a comercialização em abril de 2019, com foco nas unidades de terapia intenisva (UTIs) dos grandes hospitais brasileiros. Neste ambiente, brain4care oferece uma informação adicional que, num contexto multimodal, contribui para orientação terapêutica e acompanhamento da evolução dos pacientes.

A chegada da pandemia em 2020 direcionou todos os esforços das UTIs para as demandas urgentes e nos levou a antecipar o lançamento de uma proposta de valor para clínicas e consultórios. Nesses ambientes, brain4care oferece um indicador de saúde neurológica que pode ser obtido ali mesmo, em poucos minutos. Com isso, neurologistas e neurocirurgiões passam a contar com uma informação adicional que qualifica o diagnóstico, orienta a terapêutica e permite acompanhar a evolução do quadro clínico dos pacientes.

A tecnologia brain4care nos consultórios vem se mostrando uma grande aliada de médicos e pacientes ao permitir, em muitos casos, um diagnóstico mais rápido e assertivo, uma jornada de cuidados mais pertinente e segura, com a otimização dos recursos do sistema de saúde, ao evitar ou direcionar a realização de um exame, ou uso de um medicamento apenas quando for realmente necessário.

Esses benefícios ajudaram médicos e pacientes de distúrbios neurológicos a prosseguirem com seus cuidados de forma mais assertiva e segura durante o período de pandemia, quando o acesso aos serviços de neuroimagem se tornou mais difícil, seja pela alta demanda ou pelos riscos inerentes à circulação das pessoas. Esse movimento resultou num grande crescimento para a brain4care.

Durante a pandemia nossa base de clientes cresceu 860%, alcançando 18 estados brasileiros e 48 instituições de saúde privadas, das quais 21 hospitais e 27 clínicas.

Qual o papel da inovação para a brain4care?

A inovação é a base do nosso movimento empreendedor. Nosso fundador, Professor Sergio Mascarenhas de Oliveira costumava dizer que “_A cência e a inovação só fazem sentido se forem capazes de realizar uma transformação positiva na vida de todas as pessoas”. Usamos a inovação como um meio para transformar ciência e tecnologia em respostas efetivas e capazes de derrubar as barreiras que separam as pessoas dos cuidados pertinentes para sua saúde. A razão de ser do nosso movimento empreendedor é reunir talentos e virtudes para expandir o território global da saúde e fazemos isso por meio da inovação de base científica.

Quais são os outros benefícios não citados e que podemos enumerar como importantes?

Além dos benefícios funcionais, existem aqueles relacionados aos campos de utilização, como, por exemplo, identificar a ocorrência ou tendência da hipertensão intracraniana (HIC). Trata-se de um recurso que pode auxiliar um grupo amplo de médicos especialistas, incluindo neurocirurgiões, neurologistas, intensivistas, emergencistas, oftalmologistas e anestesistas a identificarem este fenômeno, tanto em pacientes com nível de consciência preservado, mas com sintomas sugestivos tais como cefaléias, náuseas e vômitos, declínio visual, alteração da marcha e perda da acuidade auditiva, quanto naqueles que apresentam declínio progressivo dos níveis de consciência.

Na ausência da tecnologia brain4care, o padrão ouro para identificação da hipertensão intracraniana é o uso de um cateter intracraniano introduzido por meio cirúrgico, um recurso de aplicação bastante restrita. Os métodos não invasivos alternativos para identificação da HIC são o Doppler transcraniano, a imagem radiológica, a medição da espessura da bainha de nervo óptico, a pupilometria e a timpanometria.

Todas essas tecnologias permitem aplicação fora do contexto cirúrgico, o que amplia o rol de pacientes elegíveis e o ponto em comum entre eles é a interpretação subjetiva das imagens obtidas pelos dispositivos. Essa subjetividade pode conduzir os profissionais envolvidos na análise a um território repleto de incertezas, o que muitas vezes dificulta uma definição pertinente para o cuidado.

A tecnologia brain4care oferece uma informação adicional objetiva (numérica), simples e acessível para auxiliar esses profissionais a identificarem a HIC nos pacientes e verificar sua tendência, utilizando um dispositivo simples, acessível e de baixo custo.

Um outro benefício da tecnologia brain4care diz respeito à natureza hemodinâmica da morfologia do pulso da pressão intracraniana (onda da PIC), cujos parâmetros são analisados e processados pelos algoritmos da tecnologia brain4care para emissão dos relatórios.

Por representar variações do pulso a cada ciclo cardíaco, a onda da PIC permite indicar a possibilidade de uma hipertensão intracraniana de forma preditiva em relação às tecnologias de monitoramento que utilizam a análise de alterações morfofuncionais estabelecidas para identificação da HIC.

“Na prática, isso significa que a tecnologia brain4care pode ajudar os profissionais de saúde a identificar variações de complacência intracraniana nos pacientes antes da manifestação dos sintomas clínicos ou de alterações do conteúdo intracraniano que possam ser identificadas com clareza nos exames de imagem.

O que vislumbra para a healthtech num futuro próximo?

2021 foi um ano marcante na nossa trajetória empreendedora. A liberação para o uso comercial da tecnologia brain4care nos Estados Unidos concedida pela FDA (Food and Drug Administration), somada às 21 publicações científicas conquistadas no ano e a receptividade que tivemos em congressos de referência no Brasil e no exterior nos mostram que estamos prontos para inaugurar uma nova etapa dessa jornada.

Os últimos cinco anos foram muito significativos para nós e representam o estágio de concepção do nosso negócio. Agora, com o acesso ao mercado norte-americano, iniciamos uma nova fase, a de expansão.

O próximo passo é buscar aportes estimados em aproximadamente 100 milhões de dólares em investimentos nos próximos anos e assim pavimentar a nossa rota de acesso aos principais mercados de saúde do mundo…

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