Isabel Marçal: “Não aprendemos a entender os sentimentos”

projetos sociais

Isabel Marçal é especialista em Gestão de Projetos Sociais, com 15 anos de experiência no setor de Impacto Social, à frente da gestão de organizações. Atualmente cursa psicanálise e é presidente e cofundadora do Instituto Bem do Estar. É apaixonada pela vida, pelos seres humanos e suas relações. Sonha com uma sociedade mais saudável e justa, por isso, acredita que o primeiro passo esteja na consciência individual de cada ser humano. “De acordo com um estudo da Royal Society For Public Health, do qual participaram 1.500 voluntários de 14 a 24 anos, sendo que 90% deles utilizam mídias sociais, o Instagram é o líder do ranking de redes sociais mais aliadas à sensação de solidão e ansiedade. Além de ser descrito pelos jovens como mais viciante do que cigarros e álcool. Segundo a OMS, essa faixa etária é a que mais sofre com problemas de saúde da mente, sendo a depressão uma das principais causas de adoecimento e deficiência entre eles. Enquanto o suicídio é a segunda maior causa de morte entre os indivíduos de 15 a 29 anos. As redes sociais mexem com o nosso instinto do reconhecimento social, aquela sensação boa que você tem quando recebe muitos likes em uma foto que acabou de postar. Os pesquisadores, do estudo citado acima, apontam que o Instagram é uma rede social muito focada na imagem, por isso, gera sentimentos de inadequação e ansiedade nos jovens”, afirma a especialista.

Isabel, como a saúde mental dos jovens e das crianças têm estado nessa pandemia?

De alguma maneira, todas as crianças e adolescentes neste momento se deparam com situações que geram sofrimento, umas mais outras menos. A impossibilidade e/ou limitação de não poder ir e vir, a restrição de espaço, não poder encontrar ou abraçar seus avós, não poder encontrar seus amigos, ter festas, viagens e campeonatos cancelados, o medo de ser infectado ou de ter seus familiares infectados, a interrupção do ensino presencial, a percepção de que seus pais estão ansiosos, preocupados, irritados, são todas questões que geram forte estresse no momento.

Para os adolescentes, no entanto, o impacto das restrições e privações do período de isolamento social tende a ser ainda maior em relação a outros grupos. Entre os fatores que os tornam mais vulneráveis estão: serem mais sensível ao estresse – o que levam a mais atitudes impulsivas e as alterações hormonais – e no funcionamento cerebral que ocorrem nesta fase, o que já os tornam mais sujeitos ao surgimento de condições psíquicas como depressão e ansiedade.

Uma organização do Reino Unido (YoungMinds), realizou uma pesquisa e 81% dos jovens viram sua saúde mental piorar (um pouco ou muito) durante a pandemia. Já uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia com jovens adolescentes, mostra um dado interessante em relação à exposição a computadores, tablets, smartphones, TVs e jogos.

Antes da pandemia, 18% dos jovens relataram usar as tecnologias digitais por mais de seis horas diárias. Com o isolamento, quase 60% dizem gastar mais de seis horas por dia nesses dispositivos.

Qual o papel do entorno para auxiliar essas criança e esses jovens?

Olhar para essa criança e jovem como um todo e ajudá-los a buscar equilíbrio na rotina, como: manter sono regulado, uma alimentação mais saudável e, principalmente, dialogar sobre as emoções, estão entre as ações que ajudam a diminuir o sofrimento psíquico. Também é preciso estar atentos a quando o uso da internet está influenciando negativamente na saúde da mente deles e tentar colocar limites, além de proporcionar outras atividades, até em família. Porém, não é recomendado eliminar essa tecnologia, já que o contato social é essencial e, por enquanto, só pode ser feito virtualmente.

O mais importante de tudo é reconhecer quando as emoções passam a comprometer a qualidade de vida e procurar um profissional da saúde mental. As terapias psicológicas e psiquiátricas podem provocar grandes melhorias e salvar muitas vidas.

Vivemos num mundo complexo com várias distrações e opções. Qual o peso desse mundo complexo no aspecto emocional desses jovens e adolescentes?

Vivemos no período da pós-modernidade, onde passamos de uma sociedade orientada pela verticalidade, linearidade e padrões previsíveis para uma sociedade norteada na horizontalidade, conexão e com inúmeras possibilidades – tudo é possível. Sendo assim, o limite precisa ser interno e são necessárias para isso escolhas, trazendo a responsabilidade para o indivíduo e, necessariamente, perdas. Ainda estamos vivendo esta passagem, esta revolução pós-moderna.

Este cenário para os jovens e adolescentes reforça a revolução interna que vivem e o fazem muitas vezes poder mais do que querem, o que gera muita frustração e, consequentemente, sofrimento psíquico e adoecimento da mente.

E a ansiedade?

De acordo com um estudo da Royal Society For Public Health, do qual participaram 1.500 voluntários de 14 a 24 anos, sendo que 90% deles utilizam mídias sociais, o Instagram é o líder do ranking de redes sociais mais aliadas à sensação de solidão e ansiedade. Além de ser descrito pelos jovens como mais viciante do que cigarros e álcool. Segundo a OMS, essa faixa etária é a que mais sofre com problemas de saúde da mente, sendo a depressão uma das principais causas de adoecimento e deficiência entre eles. Enquanto o suicídio é a segunda maior causa de morte entre os indivíduos de 15 a 29 anos.

As redes sociais mexem com o nosso instinto do reconhecimento social, aquela sensação boa que você tem quando recebe muitos likes em uma foto que acabou de postar. Os pesquisadores, do estudo citado acima, apontam que o Instagram é uma rede social muito focada na imagem, por isso, gera sentimentos de inadequação e ansiedade nos jovens. A interação na internet não gera uma recompensa social real – e isso pode levar a pioras em quadros de sofrimento psíquico.

Por que a empatia é muito falada e pouco aplicada?

Não somos ensinados a lidar com nossos sentimentos, pelo contrário, ao longo dos anos censura e repressão imperam em nossa sociedade. Não aprendemos a acolher e entender os sentimentos, e o resultado disso é o acúmulo de insatisfações, rejeições e dor. Segundo nossa colunista voluntária, especialista em comunicação não violenta, Débora Andrade, “desse emaranhado totalmente inconsciente e desconhecido, ficamos desconectados de nós mesmos e não há suporte algum para que as pessoas consigam acolher e compreender os sentimentos do outro. Não há espaço para criar conexão com o outro quando estou perdida sem qualquer conexão comigo mesmo. Não é possível esperar uma sociedade pacífica e empática, quando não há espaço para o sentir, para o acolhimento de todos os sentimentos, sem julgamento entre certo e errado, bem ou mal.”

Observar mais externamente seria um passo para essa empatia?

A melhor maneira de praticar a empatia e afastar o sofrimento, que é tanto individual quanto coletivo, é o autoconhecimento. Essa jornada interna nos permitirá conquistar uma conexão genuína conosco e com o outro, posteriormente. Existem diversos caminhos e ferramentas que auxiliam nesta jornada de autoconhecimento, como a terapia, a meditação e a comunicação não violenta.

Outra coisa extremamente difícil nos dias atuais e estar no presente. Como devemos proceder para não estar tanto no futuro e nem mesmo apegados no passado?

Antes de mais nada o que é a presença, estar presente? É um foco de atenção ampliado e um estado intenso de conexão consigo mesmo, com o mundo externo. E quando estamos vivendo o agora.

Porém, enquanto fazemos uma coisa, estamos pensando em 10 outras. Segundo um estudo de Harvard, em, praticamente, metade do tempo estamos pensando em algo diferente do que estamos fazendo. – os cientistas constataram que a mente das pessoas estava divagando 46,9% do tempo.

Uma das alternativas para estar mais presente é praticar a atenção plena, técnica que te ajuda a perceber o que está acontecendo no momento presente e que, segundo a neurociência, quando praticamos atenção plena, aumentamos o espaço de tempo entre um estímulo e a resposta que damos a ele.

E você deve estar pensando como podemos praticar? Escolha uma atividade que você faz bem automaticamente, aquela que você faz sem nem pensar, e foca a atenção só nela, utilizando/aguçando todos os nossos sentidos:

Por exemplo:

Escovando os dentes: preste atenção nos movimentos, no contato da escova, no gosto da pasta, na temperatura da água e no contato dela em sua boca.

Comer é um momento de prazer para muitas pessoas, mas a maioria acaba fazer assistindo tv, mexendo no celular, distraído com outras coisas. Então, que tal tentar comer focando sua atenção no sabor, nas texturas e nas temperaturas da comida?

Na caminhada, focando atenção nos passos e no contato com o chão.

No banho: sinta a água caindo no seu corpo, o contato da esponja ou sabonete na pele… aproveite para relaxar.

Muitas vezes sua cabeça vai te levar para outros lugares, como para o futuro pensando naquilo que você precisa fazer, mas traga sua atenção de volta para esse momento. Aos poucos sua mente e seu foco vão sendo aprimorados e sua presença integrada naturalmente no seu dia a dia.

Uma dica que vale a pena para te ajudar nessa jornada da presença é evitar a multitarefa. Quando você faz muitas coisas ao mesmo tempo, é impossível fazer com excelência, já que seu foco está distribuído. Além disso, isso gera um cansaço maior para sua mente.

Qual a função do autoconhecimento para isso ser feito de forma assertiva?

Como o próprio nome diz o autoconhecimento é o conhecimento que uma pessoa possui de si mesma. Conhecer-se melhor ajuda a entender e administrar as emoções, tanto negativas quanto positivas, e isso ajuda a evitar baixa autoestima, ansiedade, frustração e instabilidade emocional, dentre outras questões psíquicas.

Também é importante para identificarmos o que nos faz bem, nossas forças e fraquezas, fazendo com que tomemos decisões mais conscientes sobre o que queremos e precisamos.

O livro “Você Não Está Sozinho” segue esse caminho do autoconhecimento?

Você Não Está Sozinho vai muito além de dar voz aos sofrimentos psíquicos, gerar identificação e acolhimento. Esse livro nos traz conhecimentos sobre saúde mental, aproximando os jovens dos profissionais de atendimento terapêutico, assim como diminuindo o abismo entre eles e o preconceito que ronda a saúde mental. Todas as histórias são seguidas de uma carta escrita por um psicólogo, que conversa sobre os assuntos abordados naquele conto, esclarecendo muitos pontos e direcionando de maneira simples e direta como buscar apoio.

Os contos permitem que o leitor mergulhe nos sentimentos, nas sensações e nos pensamentos dos personagens, trazendo a realidade dos sofrimentos psíquicos, suas peculiaridades e, principalmente, sua diversidade. São mencionadas diferentes patologias relacionadas à saúde da mente, desde os tidos como “comuns”, como os transtornos de ansiedade, até outros menos falados ainda, como os muitos transtornos de personalidade. Isso possibilita demonstrar que os processos de sofrimento nunca são iguais e podem surgir para cada um de um jeito diferente.

Gostaria que você falasse um pouco sobre o Instituto Bem do Estar.

O Instituto Bem do Estar foi fundado, em agosto de 2018, como um negócio social, sem fins lucrativos com o propósito de desafiar as pessoas a mudar o seu próprio comportamento em relação à saúde da mente, colaborando para a prevenção de doenças psicológicas e contribuindo para uma sociedade mais consciente e saudável.

Os três objetivos do Instituto são: Conscientizar, informar a população sobre os cuidados para uma saúde da mente de qualidade; Conectar, promover experiências do cuidado com a mente, proporcionando ferramentas que contribuem com o desenvolvimento socioemocional individual e coletivo; Mobilizar, entender o contexto sobre saúde da mente e o impacto na sociedade (pesquisas e práticas de advocacy).

Para sua sustentabilidade, o Bem do Estar, possui duas linhas de atuação: os projetos com gratuidade e os projetos de geração de renda própria (serviços). Sendo eles: “Pequenos & Jovens Estars”, “Rede de Apoio”, “Blog do Estar”, “Galeria Meiuca: “Sociedade de Vidro” – projetos com gratuidade, e “Estars no Trabalho”, “Estars do Futuro” e “Assessoria do Estar” – projetos de geração de renda.

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