Isadora Kimura: “Tivemos que construir uma nova jornada”

 Isadora Kimura

A inovadora health tech paulista Nilo Saúde, que surgiu em plena pandemia com um aporte de R$8 milhões da Canary e da Maya Capital, está trabalhando em um projeto-piloto de telemedicina da SulAmérica voltado para o público com mais de 60 anos. O plano é manter, por meio de ferramentas digitais como o WhatsApp, o acompanhamento preventivo de saúde em um estrato da clientela que se afastou dos consultórios nos últimos meses por causa da Covid-19. A experiência começará junto a um grupo restrito de beneficiários de empresas atendidas pela SulAmérica no ABC paulista. A oferta vai além de consultas médicas por videoconferência, compreendendo serviços como acompanhamento nutricional individualizado e atividades físicas com supervisão remota. Os beneficiários também poderão obter prescrições médicas e solicitação de exames pelo WhatsApp. “A Nilo iniciou as suas operações em abril de 2020, em meio à pandemia. Surgimos com o propósito de cuidar de pacientes 50+ de maneira diferenciada e engajante: com uma equipe de saúde multidisciplinar, mais humana e conectada, buscando mais qualidade de vida e não apenas tratando doenças. Para implementar esse modelo de saúde, tivemos que construir uma nova jornada de cuidado digital, centrada no paciente e super acessível e conveniente para nosso público”, afirma Isadora Kimura, cofundadora e sócia da Nilo Saúde.

Isadora, qual o papel da telemedicina no cenário atual?

A telemedicina chega para ampliar o acesso aos serviços de saúde, trazendo a conveniência dos serviços digitais já existentes em outros mercados para o mundo do cuidado. Ela não substitui o cuidado presencial, apenas amplia o seu escopo e ajuda a cuidar de casos de menor complexidade, de maneira mais efetiva. Através de consultas por vídeo, pacientes podem fazer agendamentos e receber orientações de saúde na segurança e conforto de suas casas. Profissionais de saúde, por sua vez, conseguem escalar o seu impacto, levando informação e cuidado para qualquer lugar onde exista uma conexão de internet. A telemedicina melhora a distribuição do cuidado no mundo, e ajuda em sua democratização, através dos ganhos de eficiência.

Por que essa tecnologia dividia as opiniões em sua visão?

Apesar dos benefícios claros acima, a telemedicina quebra muitos paradigmas em saúde. Não pela tecnologia em si – que é simples e já amplamente utilizada em outros contextos, mas pela sua prática, que exige uma nova jornada para o paciente e para os profissionais de saúde. Para fazer exames, são necessárias novas ferramentas, que começam pelo olhar atento por uma câmera de vídeo e se expandem para dispositivos com conexões remotas, manuseados pelo paciente ou profissional de saúde do outro lado. A conexão humana é construída com sutilezas, que se tornam mais difíceis entre duas telas. A competição entre profissionais também cresce muito – deixa de ser local e passa a ser global. A mudança foi brusca e veio sem manual de instrução – a readaptação não é fácil.

Como a Nilo surge nesse ecossistema?

A Nilo, hoje, ajuda operadoras de saúde, autogestões, hospitais e clínicas que buscam fazer essa transição para uma jornada de cuidado digital com ferramentas e serviços. Oferecemos o cuidado digital como um serviço completo – onde um time de profissionais de saúde Nilo ajuda a expandir a oferta desses players, ou um sistema (software as a service) para players que querem implementar essa jornada com times próprios. Ajudamos empresas como SulAmérica e Porto Seguro, que estão na corrida por essa reinvenção.

Quais os principais pilares da startup?

Acreditamos que a telemedicina é uma ótima porta de entrada para a saúde digital, mas não pode parar por aí. Tão importante quanto o atendimento pontual por vídeo é a construção de um relacionamento digital com pacientes, ajudando a construir uma jornada de cuidado que é mais efetiva em todos os pontos. Para a Nilo, esse relacionamento digital se baseia em 3 pilares: Pessoalidade, Conveniência e Resolutividade. Construímos uma infraestrutura de dados e software que permite que cada atendimento seja rico de contexto sobre o paciente, criando uma experiência pessoal e de integralidade, que olha para o paciente como um todo. Queremos minimizar o número de vezes que ele tem que contar a sua história, apenas a enriquecendo a cada atendimento. A conveniência e resolutividade andam juntas, ao criarmos um canal de comunicação direto entre o time de cuidado e paciente. Encurtamos a jornada para se obter orientações de saúde ou uma consulta: basta uma mensagem no WhatsApp, acessível a mais de 98% dos brasileiros com smartphone, para chegar ao time de cuidado.

Que diferencial foi primordial para a Nilo ser tão valorizada no mercado?

A Nilo iniciou as suas operações em abril de 2020, em meio à pandemia. Surgimos com o propósito de cuidar de pacientes 50+ de maneira diferenciada e engajante: com uma equipe de saúde multidisciplinar, mais humana e conectada, buscando mais qualidade de vida e não apenas tratando doenças. Para implementar esse modelo de saúde, tivemos que construir uma nova jornada de cuidado digital, centrada no paciente e super acessível e conveniente para nosso público. A comunicação por texto e áudio acontece via WhatsApp, mas todas as informações sensíveis são protegidas por tecnologias proprietárias de telemedicina e prontuário. O resultado foi surpreendente: em seis meses começamos a receber cartas de agradecimento de pacientes pelo cuidado pessoal e humanizado, melhoramos indicadores de saúde (redução de risco de internação e reinternação) e ainda trouxemos mais efetividade para esse cuidado, reduzindo custos para nossos clientes operadoras de saúde. Essa mesma metodologia e tecnologia chamou a atenção de outros players, que começaram a adotar a solução da Nilo para ter resultados similares.

Nos fale um pouco mais sobre como é feita a consulta.

Criamos uma jornada de cuidado integrada para o paciente: ele sente como se tivesse uma equipe de saúde ao seu dispor no WhatsApp, fazendo orientações, marcando consultas, enviando um plano de cuidado ou pedidos de remédios e exames. As consultas em si, acontecem em uma plataforma própria e criptografada de telemedicina, que ele acessa a partir do WhatsApp. Do lado do time de cuidado, temos todo um sistema de priorização dessas mensagens e armazenamento em sistemas de prontuários, garantindo que nada é perdido a cada interação.

Como a Nilo consegue fazer com que o seu atendimento seja assertivo e de excelência?

Para nosso produto de cuidado digital, investimos muito na qualidade das contratações e treinamento dos profissionais de saúde. Nascemos em uma cultura de cuidado digital, e hoje ajudamos profissionais que vêm de escolas de excelência como o Hospital Sírio-Libanês, USP e Unifesp a complementarem a sua formação em cuidado digital e multidisciplinar. O investimento se paga em resultados: mesmo com pouco tempo de operações, temos um NPS maior que 90 e um engajamento altíssimo de pacientes com sua jornada de cuidado (mais de 80% de pacientes ativos por mês). Além de capital humano, a Nilo investe muito em sua tecnologia. Nosso time traz uma expertise diferenciada no Brasil de construção de produtos digitais e dados, com muitos profissionais que vêm de outros setores e do Vale do Silício para aportar esses aprendizados em saúde. Isso gera mais qualidade de informação na tomada de decisão dos profissionais em cada consulta, além de insights de dados para gestão de saúde populacional.

A demanda tem aumentado desde a criação da startup?

Tem aumentado de maneira surpreendente: crescemos mais de 600% nos últimos 3 meses e já temos algumas operadoras na fila de espera para integrar os seus atendimentos aos nossos produtos. Acreditamos que isso seja tanto em função do momento de mercado, quanto dos primeiros resultados que estamos trazendo com essa forma de cuidar diferenciada e tecnológica.

O ciclo pandêmico tem sido um fator primordial para esse aumento?

A pandemia foi o gatilho de uma mudança que estava reprimida no mercado. Criou as condições necessárias para que esse ecossistema florescesse. Temos talento, investimentos e uma pressão da sociedade para que a saúde digital ganhe mais força e espaço, e a tendência é que inovações nesse segmento só aumentem. Temos na Nilo uma motivação muito grande de poder contribuir nesse momento crítico, criando uma infraestrutura de cuidados digitais que ajudam a trazer o cuidado certo a todos que precisam, com a complexidade e velocidade adequados.

Como você enxerga a Telemedicina pós-Covid?

Continuará sendo usada em grande escala, ajudando a fazer triagem de pacientes, atendimentos de baixa complexidade e na implementação de um sistema de atenção primária mais amplo, como vemos no SUS, de maneira digital. Além disso, ela terá um papel essencial para continuar levando acesso às áreas remotas (como tribos indígenas ou comunidades isoladas) e equilibrando a demanda de profissionais especialistas fora de grandes centros (por exemplo, geriatras). A grande mudança será a motivação de pacientes: fazer consultas digitais não apenas por uma restrição imposta pela pandemia, mas sim por ver o valor em sua conveniência e qualidade.

E qual será o papel da Nilo nesse mesmo pós-Covid?

A Nilo está aqui para ajudar operadoras de saúde, hospitais e clínicas a fazerem essa transição para além da “telemedicina de guerra”. Estamos hoje com uma infraestrutura de consultas de telemedicina ainda emergencial no país: pacientes chegam com demandas pontuais para médicos, bases de dados não se conversam, jornadas de cuidado são interrompidas por barreiras como aplicativos que falham, senhas perdidas. O futuro que vemos é a reconstrução dessa infraestrutura, trazendo mais integração de dados, uma experiência fluida para o paciente e time de cuidado. Sonhamos que a telemedicina traga super poderes para o profissional de saúde e paciente – e não que seja um fardo.

Compartilhar:
Voltar ao Topo
Skip to content