Juliana Vanin: “O período é desafiador para todos”

Onda da pandemia

Juliana Vanin é economista formada pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduada em Finanças pelo Insper. Especialista em Pesquisa de Mercado, Inteligência de Negócios, Planejamento Financeiro e Estratégico. Em 2015, fundou a NOZ com o objetivo de unir conhecimentos de Economia Comportamental, Pesquisa, Planejamento Estratégico, Financeiro e de Marketing. A NOZ é um ateliê de pesquisa e inteligência de negócios, cujo trabalho é entender desejos e comportamentos humanos. A empresa atua em todo o ciclo de negócio, unindo conhecimentos e metodologias de Economia Comportamental, Pesquisa, Planejamento Estratégico, Financeiro e de Marketing. Além de consultoria e projetos para empresas, a NOZ foca o trabalho em estudos sociais sobre diversos temas, como Cooperação, Educação, Trabalho e Empreendedorismo, Maturidade (50+), Doação, Mulheres e o Mercado de Trabalho. A empresa produz informação e conhecimento, acreditando que estas têm o poder de transformar. Tem como objetivo impulsionar o debate, a troca de experiências e a escuta de novas visões e percepções. “O isolamento social, principalmente no início da pandemia, transformou a casa no local de trabalho, de estudo, das atividades físicas, e também o local de lazer. Com isso, nossa rotina e comportamentos sofreram um grande impacto, sem nenhum tempo de adaptação”, afirma a economista e fundadora da NOZ.

Juliana, quais comportamentos humanos foram mais afetados durante a pandemia?

O isolamento social, principalmente no início da pandemia, transformou a casa no local de trabalho, de estudo, das atividades físicas, e também o local de lazer. Com isso, nossa rotina e comportamentos sofreram um grande impacto, sem nenhum tempo de adaptação.

Em maio passado, após dois meses de distanciamento social, o Instituto Bem do Estar e a NOZ Pesquisa e Inteligência conduziram a primeira fase do mapeamento Saúde da Mente & Pandemia, que contou com mais de 1.500 participantes. Naquele momento já notamos alguns pontos de atenção importantes, como: 51% afirmam ter reduzido a prática de atividade física e 32% não estavam conseguindo manter uma alimentação saudável.

Outro ponto importante, foi a busca por manter o convívio social, que foi um dos hábitos mais afetados pelo isolamento. Na pesquisa, 58% e 53% afirmam que estavam realizando encontros virtuais com amigos e familiares, respectivamente. Esses dados ressaltam o avanço do comportamento virtual que foi impulsionado em nosso dia a dia – home office, aulas e cursos online, e-comerce…

Como você vislumbra a saúde mental dos brasileiros pós-Covid?

A pandemia pode gerar diversos e diferentes sentimentos entre as pessoas. Na pesquisa, por exemplo, notamos que o medo não era proveniente de um só fator, mas de todas as consequências e incertezas causadas pela pandemia, tanto relacionadas a saúde – ficar doente, contaminar alguém e até mesmo da morte – assim como aquelas relacionadas aos aspectos econômicos, como perda de renda e desemprego.

Análises publicadas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) demostram que a desigualdade no acesso a direitos básicos como saúde, saneamento e trabalho tornam a periferia e suas populações mais vulneráveis e afetadas de forma mais grave à pandemia da Covid-19. A ideia que o vírus atinge a todos é real, mas seus efeitos podem ser muito diferentes, conforme afirmou a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima: “a capacidade de proteção e de resposta a isso é diferente num país desigual como o nosso”.

Nesse cenário vejo a saúde mental dos brasileiros no pós-pandemia como um fator de extrema atenção. A insegurança, medo e mesmo a Covid não chegarão ao fim na mesma velocidade que chegaram. Com isso, em uma nova realidade, conviveremos ainda com esses sentimentos por um período, que podem ser agravados pelas questões econômicas. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Contínua Mensal (PNAD Contínua), divulgada em 30 de outubro (2020), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou desemprego recorde, com 13,8 milhões de pessoas.

Infelizmente, tudo aponta que as doenças mentais serão a quarta onda da pandemia, no entanto, os dados da pesquisa “Saúde da Mente & Pandemia” comprovam que essa “onda” começou em março, crescendo desde então.

Os gastos destinados para saúde mental têm aumentado exponencialmente?

Eu diria que os gastos são inferiores às necessidades. Segundo relatório da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) os recursos ainda estão aquém do necessário. A OMS tem alertado constantemente sobre a necessidade de mais recursos financeiros serem destinados para a saúde mental, à medida que a pandemia continua com uma demanda ainda maior de programas direcionados na área.

Quais os indícios desses transtornos na produtividade econômica?

Estimativas pré-Covid-19, destacadas também pela OMS, revelam que cerca de US$ 1 trilhão em produtividade econômica é perdido anualmente apenas com a depressão e a ansiedade; em contrapartida, a cada US$ 1 gasto em cuidados, US$ 5 retornam para a sociedade.

Outro ponto de estudo da Noz é a maturidade (50+). Quais são os principais anseios e medos dessa faixa da população?

Especificamente na pesquisa, observamos que o aumento da sensação de medo foi maior entre os mais jovens. Afirmaram estar com mais medo: 74% das pessoas com menos de 30 anos e 66% entre os com mais de 50 anos. Vejo essa informação como um ponto importante e que reforça a questão sobre os pontos relacionados ao medo.

O medo, a insegurança, ansiedade, etc., estão tão relacionados ao efeito do possível contágio e risco, mas também aos impactos ao redor e no futuro.

Voltando a maturidade, agora olhando outras pesquisas que a NOZ já realizou com esse público, eu entendo que os principais anseios dos 50+ é quebrar o estigma da inabilidade, isso tanto para o mercado de trabalho quanto para o mercado consumidor. O que quero dizer com isso é que entendo que o principal anseio dessa geração é que a maturidade (relacionada a idade), também seja vista como condição de saber ou habilidade adquirida, assim como o significado da palavra.

Muitos que perderam o emprego durante a pandemia sofrem com ansiedade e insegurança?

O que pudemos notar, com dados que coletamos, foi que 80% dos que haviam sido demitidos entre março e maio de 2020 estavam mais inseguros, sendo 33% muito mais inseguros. Entre os que tiveram dispensa temporária (suspensão do contrato), 81% se sentiam mais inseguros. Já entre os que estavam trabalhando e não sofreram nenhuma alteração na rotina, o percentual foi de 58%. Portanto, pode-se afirmar que a instabilidade econômico-financeira é um forte fator para maior insegurança e consequente ansiedade.

Pessoas que estão empregadas também estão com os mesmos comportamentos?

Sim, 58% dos empregados estão se sentindo mais inseguros também. É um número bastante alto. Há diversos fatores que podem impactar os sentimentos e comportamento desse grupo: trabalho home office, redução salarial (ou de renda), dispensa temporária.

Especificamente falando sobre o home office, o que notamos é que não podemos comparar essa experiência de trabalhar em casa durante a pandemia com o home office sem pandemia. Há diversos fatores que podem aumentar o stress no primeiro caso, administrar a rotina dos filhos que estão tendo aulas online com a rotina do trabalho, por exemplo é um grande desafio.

Quais os principais desejos humanos que foram capturados pela NOZ na atual conjuntura?

Percebo uma valorização das experiências, das relações pessoais e de qualidade de vida principalmente. Viajar, ir ao teatro, a um show, confraternizar com os amigos e familiares. A crise financeira decorrente da pandemia já é um importante impulsionador para que as pessoas economizem mais e revejam seus hábitos de consumo, além disso, todos fomos privados de alguma forma de experiência, e claro, isso faz muita falta e acaba sendo ainda mais valorizado.

Esses desejos são muito díspares de um Brasil que vivia na pré-pandemia?

Já havia um movimento crescente por mais experiência e um consumo mais consciente. A pandemia acelerou, e muito, esse movimento.

O que mudou no empreendedorismo em especial e que a NOZ observou em suas pesquisas?

Penso que é obvio a expansão do online, e a necessidade das empresas se adaptarem as novas tecnologias. Já era uma necessidade, mas tornou-se uma obrigação para a sobrevivência.

Todos os setores foram impactados, mas acredito ser importante entender as diferenças de impacto entre os setores. Houve uma mexida geral nos hábitos, comportamento e necessidades dos consumidores e isso faz com que os empreendedores precisem estar ainda mais próximos dos seus clientes para entender os impactos em seu negócio.

Dito isso, estimular a cultura de inovação é um ponto-chave agora. Não há garantias, o momento é incerto, mas conseguir se adaptar, ter flexibilidade e proximidade com o cliente são os pontos-chave nesta nova realidade para o empreendedor.

A relação entre empresas e colaboradores se tornará mais humana?

O período é estressante e desafiador para todos, colaboradores e empresas. Os negócios precisaram se reinventar para sobreviver, e muitos precisaram optar por demissões, renegociações de dívidas, suspensões contratuais, reduções de salário.

Além de se adaptar para atender o mercado consumidor, as empresas precisaram também voltar a olhar para seus colaboradores.

Os responsáveis pelas organizações e gestores podem e devem oferecer apoio para que as equipes lidem com o aumento do stress. Os resultados são benéficos para os colaboradores e também para a empresa, que ganha em produtividade no trabalho.

A humanização na relação de trabalho tende a ganhar força, e espero que aconteça, ou teremos ainda mais impactos na saúde metal dos brasileiros. Temos visto um movimento de grandes empresas em busca de cuidados relacionados a saúde mental dos seus colaboradores.

O Instituto Bem do Estar, nosso parceiro, possui o Projeto “Estars no Trabalho” direcionado a empresas e organizações que visam o bem-estar de seus colaboradores. Além disso, na segunda fase do mapeamento Saúde da Mente & Pandemia pretendemos levantar dados sobre os efeitos dessa nova realidade em que vivemos, já com as consequências econômicas e os efeitos de mais de oito meses da pandemia, focando na população economicamente ativa, na juventude e nas periferias.

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