Karine Oliveira: “Nossos planos para 2021 são muito arrojados”

Karine Oliveira

Karine Oliveira, já vendeu coxinha, teve marca de roupas, trabalhou com reforço escolar e foi servidora pública. Após uma trajetória variada de trabalho, ela se tornou uma das personalidades do meio empresarial. A empreendedora está entre as figuras mais bem-sucedidas antes dos 30 anos, sendo reconhecida pela famosa Revista Forbes. Criada na periferia de Salvador (BA), Karine é a criadora da Wakanda Educação Empreendedora, empresa que traduz conteúdos de negócios para quem empreende por necessidade. Karine ficou ainda mais reconhecida no âmbito nacional após participar do Shark Tank Brasil, reality de empreendedorismo da Sony Channel. Logo depois da experiência, ela virou sócia da empresária carioca Camila Farani. A trajetória de Karine começa no bairro do Engenho Velho da Federação, uma das comunidades com maior concentração de terreiros de religiões de matriz africana em Salvador. Filha de um mestre de obras e de uma professora informal, ela viu os pais se separarem quando ainda tinha por volta de seis anos. Como as aulas de reforço escolar não eram suficientes para pagar as contas, a mãe precisou se desenrolar no mundo das vendas trabalhando com Karine no comércio de coxinhas (a ideia de vender coxinhas partiu da própria Karine). Karine cursou todo o ensino básico em escolas públicas e, atualmente, concilia a vida de empresária com a de graduanda em Serviço Social.

Karine, por que a educação como meio para se empreender?

Acredito que a educação é um combustível para empreender. Até porque acredito ser a mesma coisa (sem educação o empreendedorismo seria uma barreira). Imagine que você tem várias ferramentas e se você não souber realmente utilizar acaba que essas ferramentas mais te atrapalham do que te ajudam. Assim é a educação e o conhecimento. Quanto mais você tem conhecimento do que está fazendo, maior habilidade você tem e isso lhe auxilia para ter bons resultados. Quando não investimos em educação, acabamos fazendo de qualquer jeito – o que limita os nossos resultados. Tem gente que realmente consegue empreender sem conhecimento… mas para ter uma grande abrangência, para poder deixar um legado, para poder realmente sonhar alto, penso que só através da educação!

Como as observações externas foram fundamentais na criação da Wakanda Educação?

Quando começamos a Wakanda, já tínhamos um público cativo que estava nos meios do empreendedorismo e que também entendem que tipo de pessoas estão lá. Através disso o que me causou mais estranheza, foi que pessoas como eu (empreendedores da periferia), não estavam nesses ambientes. Foi aí que comecei a perceber o quanto a barreira linguística era literalmente o inviabilizador da escala daquelas pessoas nesse ambiente. Comecei a perceber se realmente tinha muita diferença o tal do Elevator Pitch (aquela apresentação que o baleiro e a baleira faz no ônibus). O Elevator Pitch é uma apresentação que startupeiros fazem para possíveis investidores e que dura poucos minutos. A similaridade com os baleiros e baleiras é ter que vender o produto em minutos. Foi daí que falei que são apenas contextos diferentes, mas com finalidades muito parecidas que é conseguir uma chance. A partir disso comecei a observar o que eu poderia hackear no meio do empreendedorismo e usar a coisa que temos de mais importante pra mim, que é a linguagem (o nosso baianês) para começar a traduzir os conteúdos. A partir disso que surgiu a Wakanda.

E as reflexões internas?

A parte das reflexões internas foi muito com o que aprendi com a economia solidária e com a minha mãe. Sempre a acompanhei quando ela fazia as facilitações. Nas aulas que ela dava, sempre vi a habilidade que tinha principalmente em conseguir falar a mesma coisa de várias formas diferentes e de ser poliglota em alguns assuntos. A partir daí percebi que eu também queria ensinar para as pessoas assim, ou seja, treinar essa habilidade e estar com pessoas diversas. Isso originou literalmente a metodologia da Wakanda que é baseada na tradução e principalmente focada em pegar a nossa linguagem informal que chamo de vibranium e usá-la como tecnologia.

Quais os principais pilares da Wakanda?

Na Wakanda trabalhamos com alguns pilares que são primordiais. O primeiro é o pilar da diversidade. Dentro das nossas formações e de tudo que fazemos, tentamos alcançar um público diverso, seja em estágio de negócios diferentes ou com pontos de vista diferentes, mas sempre tendo uma turma bastante diversa, porque sabemos que a riqueza está na diversidade. O segundo pilar é a acessibilidade. É sempre pensar como tornarmos acessíveis, qualquer coisa que fazemos, seja em relação à metodologia, seja em relação aos exercícios, seja com relação à estrutura física. Que no embalo do empreendedorismo, consigamos atender mulheres e mães solo que tinham suas crias e que tinham que levá-las para as aulas para prestar atenção no que estavam investindo em conhecimento naquele momento. Os principais pilares da Wakanda tem muito a ver com acessibilidade para várias pessoas. O terceiro pilar é a igualdade, já que aqui trabalhamos com um time completamente diverso, mas entendemos que homens e mulheres têm o mesmo patamar de igualdade. Precisamos entender que acessibilidade e tecnologia não são coisas diferentes e principalmente respeitar os diversos pontos de vista.

O que norteia a visão do seu negócio?

A Wakanda existe para resolver um problema social que é o desemprego estrutural. Percebemos que o desemprego estrutural é um fato (inclusive antigo) e que através disso ele consegue fazer o empreendedorismo por necessidade, tornando-se uma realidade para múltiplas pessoas. Muito por conta disso a Wakanda chega para auxiliar esses empreendedores que estão por necessidade a entender que eles já sabem muito de empreendedorismo e que tem várias habilidades. Eles só precisam conseguir lidar melhor com essa relação de trabalho. Sabemos que trabalhar 14 horas para poder ganhar 200 reais (isso num negócio) não é para ser romantizado. A Wakanda vem a partir desse princípio: estar trazendo essas habilidades a empreendedores, já que sabemos que esse é o único sustento que eles têm. Eles [empreendedores] podem empreender de uma maneira mais saudável de modo que não prejudiquem tanto sua vida e sua saúde.

O projeto já impactou quantos empreendimentos periféricos?

Atualmente já atendemos mais de 600 pessoas aqui na Wakanda e o intuito neste ano inclusive é começar a trabalhar na casa das mil. Vamos começar atender mil pessoas, pois, os cursos online permitem isso.

Uma das ações que nos chamou bastante atenção foi o “Deusas do Empreendedorismo”. Poderia falar um pouco mais sobre isso.

Nosso produto chamado “Deusas do Empreendedorismo”, foi criado porque comecei a perceber que as mulheres investem mais em conhecimento mesmo tendo negócios pequenininhos. A maior parte das iniciativas de educação empreendedora não eram acessíveis para mães, principalmente mães solo. Estávamos pensando em como tornar isso acessível para essas mulheres, então criamos o Deusas que é um curso todo voltado para elas (com suas linguagens, exemplos, etc). Colocamos exemplos de negócios liderados por mulheres em vários estágios, mas também permitimos que essas mães solo possam se dedicar naquele momento, já que sabemos que elas também fazem parte de um grande número de pessoas que empreendem por necessidade. A ideia da “Deusas do Empreendedorismo” é que seja feito por mulheres e para mulheres com uma linguagem que entendemos.

Ser uma ponte entre as ruas e o mundo dos negócios traz uma responsabilidade ainda maior em sua visão?

Muita, muita responsabilidade, pois, estamos aprendendo com quem está no mercado, mas estamos criando coisas completamente novas. Quando falo sobre empreendedorismo por necessidade as pessoas ainda julgam que são pessoas sem escolaridade e que ganham pouco… pelo que percebemos nesses dois anos não tem nada a ver com isso. Na verdade, são pessoas que são vítimas desse desemprego estrutural e de opressões estruturais de gênero, raça e classe. Muitas vezes conheço mulheres com currículos incríveis que estão desempregadas e começam empreender por necessidade. Para mim, é uma responsabilidade também de me manter mais perto do meu propósito. Mesmo estando no mundo dos negócios, vendendo produtos e negociando, temos que mostrar para pessoas das ruas, que elas podem pensar grande como startup. Também mostramos para o mundo das startups que eles têm muito que aprender com a resiliência desses negócios que essas pessoas acabam abrindo nas ruas.

A pandemia tem afetado esse ecossistema?

Muito. Tem afetado esse ecossistema, porque são pessoas que nunca se transformaram digitalmente e tem bastante resistência a essa cultura tecnológica. Eles estão sendo duramente impactados por causa disso, além de tantas outras coisas que também estão impactando as suas vidas. O que nós da Wakanda estamos pensando é como conseguiremos mostrar para essas pessoas que eles não são obrigados a ter essa tecnologia, mas a tecnologia foi feita para estar a nosso favor (o que realmente facilita a vida). Tenho que escolher qual tecnologia funciona e como utilizá-la no meu negócio de uma forma que ela realmente me facilite, que me dê mais energia, que não canse a minha mente e não me deixe mais doente para ficar mais ansioso(a) no final do dia. A ideia é mostrar para as pessoas, o lado bom da tecnologia e quanto eles podem ser ajudados, já que essa transformação tecnológica veio para ficar e que somos empurrados para ela diariamente, sendo que durante um bom tempo não vamos mais voltar para trás!

Quais os planos da Wakanda para 2021?

Uau! Nossos planos para 2021 são muito arrojados. Primeiro é conseguir manter o crescimento da empresa e tentar manter essa façanha de crescer ainda estando em Salvador, mesmo sabendo que isso não é a realidade da maioria. Infelizmente a maioria tem que sair de Salvador para estar fazendo isso. Queremos ser a referência nesse atendimento dessa população de empreendedores por necessidade. Temos um grande desafio por aí… São metas completamente possíveis.

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