Lani Goeldi: “Nada ocorre por acaso nesta vida”

A curadora

Um amplo panorama do trabalho desenvolvido por ceramistas de todo o Brasil está sendo apresentado pelo Festival de Arte Cerâmica Online através das principais plataformas de internet – YouTube, Instagram e Facebook. Realizado pela Associação Artística Cultural Oswaldo Goeldi, com incentivo através do Edital PROAC Expresso Lab 40/2020, do Governo do Estado de São Paulo, o Festival de Arte Cerâmica Online conta com a participação de artistas e artesãos de todo o país. Mas não se trata de uma “exposição virtual” de obras desses artistas e artesãos, o projeto vai muito além. Em um processo dinâmico, até o final de março, a cada cinco dias, o Festival de Arte Cerâmica Online irá progressivamente disponibilizando nas plataformas de vídeos nos quais os artistas contam sua história, falam sobre as técnicas que utilizam e mostram alguns de seus trabalhos. A equipe do projeto viajou e continua viajando pelos quatro cantos do Brasil, para entrevistar todos os artistas e artesãos em seus locais de trabalho e produzir os vídeos. “Nosso objetivo com o projeto é não apenas de destacar a arte de cada um dos ceramistas escolhidos. Queremos contribuir para resgatar a importância e a beleza da Arte Cerâmica como manifestação tradicional da cultura e arte regional”, diz Lani Goeldi, curadora do Festival de Arte Cerâmica Online. As ações desenvolvidas pelo projeto vão difundir e preservar a tradição da modelagem em argila.

Lani, o que deve nortear um curador em sua vivência profissional?

O curador tem como função principal “cuidar” da circulação pública do trabalho, é responsável pelo “produto final” – a exposição – e o sucesso dela. Ele é uma figura-chave na criação do conceito, montagem e todo o resultado de uma exposição. O trabalho do curador consiste também em visitar ateliês de artistas, discutir interesses com colegas, se comunicar com instituições, organizar, selecionar artistas e obras, apresentar exposições e promover a arte. E é também considerado um dos mediadores entre o trabalho artístico e o público.

O curador é figura primordial nos sistemas da arte, mas sua atuação engloba várias questões além da organização de obras em um determinado espaço. Pesquisa, articulação, crítica, conhecimentos multidisciplinares, entre eles história da arte, expografia, museologia, cenografia e conhecimentos específicos de tecnologia são um dos elementos básicos de um bom profissional.

Qual a importância de Oswaldo Goeldi para o ofício que escolheu?

Quando me envolvi profundamente com o trabalho de Goeldi, foi como um mergulho profundo em minha ancestralidade. É pertinente ressaltar que o trabalho do artista-gravador, ilustrador e professor Oswaldo Goeldi (1895- 1961) foi seminal na contribuição da história da gravura no Brasil. Como filho do naturalista e zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917) e da carioca Adelina Meyer (1869-1953), Goeldi desde muito cedo esteve ligado às correntes artísticas e de vanguarda da Europa, sofrendo, assim certa influência dos ambientes artísticos e da obra de artistas europeus.

Goeldi foi um gênio visionário, porém, na época um artista incompreendido por escolher uma arte considerada menor no meio artístico – A Gravura. Parte de seu acervo pessoal, livros, objetos, fotos, mobiliários, documentos, ficaram com seu irmão mais novo Edgar Goeldi, meu avô, e o único irmão que deu descendentes a Emílio Goeldi. Assim, no intuito de preservar a história, decidi aprimorar meus conhecimentos para iniciar o processo de catalogação de todo o acervo. E assim nasceu o Projeto Goeldi no final da década de 90.

Como as observações externas influem em seu trabalho como curadora?

Um bom curador nunca deve parar de estudar, de aprimorar seus conhecimentos e principalmente visitar exposições e feiras. As viagens também auxiliam no aprendizado, mesmo que não sejam a trabalho, eu as utilizo como laboratórios, pois, sempre aprendo com pessoas, lugares, costumes e principalmente com suas histórias.

E as suas reflexões internas?

Creio que nada ocorre por acaso nesta vida, sou espiritualista e muito sensível à arte. Aos nove anos pintei meu primeiro quadro, meu avô materno era também um pintor e minha mãe é pianista. Ao longo de minha jornada tive muitos ganhos e perdas, mas procuro entender tudo como um grande aprendizado, com o único objetivo de deixar um legado para as próximas gerações. Procuro difundir meu trabalho para o maior número de pessoas enfatizando inclusive que se temos um sonho devemos caminhar em busca da realização.

A arte deve ter um papel social em sua visão?

Sem dúvida, a exemplo deste novo tempo que estamos vivendo, para manter a sanidade do mundo, artistas se reinventaram para mostrar ao público através da internet e redes sociais, seus trabalhos, performances e apresentações. Influenciando cada vez mais pessoas na produção artística.

Além disso, acredito que quando tudo isso passar, todos sairemos com uma enorme bagagem cultural, pois, a arte nunca esteve tão acessível, nunca ficamos tão ligados aos livros, aplicativos, vídeos, etc… que de certa forma nos conectam com pessoas e instituições de vários lugares do mundo.

Você foi idealizadora do primeiro curso de Museologia e Curadoria de Arte Itinerante. Como aqueles pilares foram fundamentais para o que realiza nos dias atuais?

Esta ideia surgiu a partir da própria demanda da Associação Cultural Oswaldo Goeldi, quando estávamos realizando exposições por todo país e precisávamos de produtores locais, montadores, iluminadores, monitores e em muitas cidades tudo ficava muito restrito e difícil. Tínhamos que chegar no município uma semana antes, encontrar estes profissionais, treiná-los e posteriormente contratá-los. Diante deste trabalho, percebemos uma carência neste segmento, vimos que poderíamos fazer este treinamento com antecedência. Assim, pesquisamos sobre cursos nas áreas de museologia e curadoria e na época detectamos que só havia cursos de graduação em poucas capitais e demasiadamente dispendiosos.

Foi então que a equipe do Projeto Goeldi decidiu colocar em prática a ideia deste curso para leigos e profissionais que apreciam esta área. Temos ex-alunos que hoje são diretores de Museus, atuam em Galerias de Arte no exterior e servidores públicos que conseguiram aprimorar seus conhecimentos a partir deste aprendizado. Hoje nossos cursos foram segmentados para: curso de Museologia e Curadoria de Arte, Curso de Gestão e Produção Cultural, Curso Museu a Céu Aberto e Curso de Restauro e Patrimônio. Todos cursos livres de 10 a 40 horas semanais.

As edições foram em diferentes cidades do país. Como isso moldou a sua visão de mundo?

Posso dizer que em cada cidade que passei e cada trecho de viagem que tivemos que percorrer, de avião, carro, ônibus, táxi e até canoa, foi uma aventura incomparável. Desde cursos para mais de sessenta pessoas até a visitação de uma ilha de apenas um habitante, me fez constatar que nosso país ainda é um solo fértil e virgem para todo e qualquer tipo de aprendizado. Temos que ter consciência que nunca sabemos tudo, e particularmente posso enfatizar que em muitos lugares aprendi muito mais do que ensinei.

Você é uma grande agente quando se fala no tripé arte-educação, economia criativa e sustentabilidade. Esse tripé poderia ser melhor desenvolvido em nosso país em sua visão?

Sim, as políticas públicas são muito importantes para este tripé acontecer. Lembro que certa vez me disseram que era uma afronta levar a obra de Oswaldo Goeldi para o centro de São Paulo, em lugar considerado pouco nobre para expor um trabalho tão importante.

Porém, minha opinião sempre foi diferente, meu olhar está no ponto de vista do artista que retratou os excluídos da sociedade e buscava valorizar o que apenas estava nas sombras. Penso que dar luz à aquilo que já existe é mais simples do que podemos imaginar. Porque os costumes, as tradições, as histórias estão em toda parte, basta apenas ter alguém com os sentidos apurados para experimentar, delinear um roteiro e traduzir para uma linguagem artística.

Um curador é de certa forma um educador?

Sem dúvida, não consigo conceber uma mostra sem pensar no educativo, mesmo que sem obrigatoriedade governamental, busco o olhar do público, como ele poderá sair da exposição diferente de quando entrou. Não só pelo conceito delineado, mas sim, levando consigo um aprendizado, uma história pra contar quando lhe perguntarem o que mais ele gostou naquela mostra.

Particularmente, à medida que mergulhamos a fundo na concepção e na pesquisa sobre uma exposição, obrigatoriamente devemos compartilhar com nosso público, seja ele de qualquer faixa etária ou nível de escolaridade.

Qual a importância do digital para arte no mundo contemporâneo?

Fundamental, uma ferramenta que quando bem utilizada só agrega valor e facilita o trabalho de qualquer curador ou profissional da produção artística cultural. Nesta época de pandemia, visitar museus e exposições de forma virtual só acrescenta e nos prepara melhor para uma futura visita física, que pode acontecer ou não. Outro fator importante é realizarmos exposições com acessibilidade virtual. Nós já atuamos com esta ferramenta há mais de 4 anos, com enfoque em pessoas com deficiência visual e auditiva, utilizando áudio descrição e libras em todas as nossas exposições. Outra ferramenta que adotamos no início de 2020 e estamos expandindo este ano é a utilização da Realidade Aumentada e telas interativas em nossas exposições.

É daí que surge o Festival de Arte Cerâmica Online que contempla a importância dessa arte tão tradicional?

Particularmente tenho um grande fascínio pela Cerâmica e venho trabalhando mais ativamente com ela desde 2009 quando resolvemos difundir mais a arte Figureira de Taubaté e o símbolo do artesanato do Estado de São Paulo: O Pavão Azul.

A ideia do Festival surgiu com o objetivo de buscar ceramistas de todo o país para que pudessem apresentar seus trabalhos, falar e difundir a sua arte enquanto design, objetos decorativos e utilitários. Este projeto foi proposto no Edital PROAC-LAB do Estado de São Paulo e ficamos muito felizes em poder realizá-lo na íntegra.

Claro que, em um primeiro momento, seria muito mais simples apenas receber de vários artistas seus vídeos para a divulgação deste conteúdo nas plataformas criadas para o Festival de Cerâmica Online, mas optamos por formar uma equipe capacitada que estudou e pesquisou as regiões brasileiras e coletar pessoalmente este material e assim realizar um verdadeiro documentário destes ceramistas e das cidades que eles residem. Começamos por Taubaté-SP e seguimos para São Paulo – Capital, Goiás-GO, Belém-PA, São Luís -MA, Porto Alegre -RS e Taiobeiras-MG – Vale do Jequitinhonha.

Assim, em um momento tão difícil, conseguimos ir aos quatro cantos do Brasil, registrar imagens de ceramistas incríveis com histórias de vida e trabalhos tão relevantes, diversos e com a mesma matéria-prima em comum: O barro. O Festival de Cerâmica Online encerra no dia 30/03, mas os vídeos continuarão online. A experiência foi abraçada por tantos outros ceramistas que continuaremos a realizar os registros para uma segunda edição.

Esperamos que seja breve…

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