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Lazarus: a despedida de David Bowie

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Há artistas que se retiram do palco; outros simplesmente desaparecem. David Bowie fez algo mais raro: escreveu a própria saída como uma obra final, meticulosamente encenada. “Lazarus”, lançada poucos dias antes de sua morte, não é apenas uma música — é um epitáfio em forma de arte, um adeus que recusa o sentimentalismo barato e abraça a estranheza que sempre foi sua marca registrada.

A faixa integra o álbum Blackstar, uma obra que já nasceu cercada por um clima de despedida, embora muitos não tenham percebido de imediato. Em tempos de lançamentos descartáveis e algoritmos vorazes, Bowie optou por um gesto quase teatral: transformar sua própria morte em narrativa estética. Não como espetáculo vulgar, mas como expressão última de controle criativo.

““Lazarus” não encerra a carreira de David Bowie; ela a reconfigura. A canção funciona como uma chave de leitura retroativa: ao ouvi-la, revisitamos toda a trajetória do artista sob uma nova luz”

“Look up here, I’m in heaven”, canta ele logo no início — e o verso, hoje, soa menos como poesia e mais como anúncio. É difícil não revisitar a canção sem o peso do que viria dias depois. A morte de Bowie, causada por um câncer mantido em sigilo, redefiniu completamente a escuta da faixa. O que antes poderia soar como metáfora passou a ser interpretado como literalidade quase desconcertante.

Mas reduzir “Lazarus” a uma simples carta de despedida seria injusto — e, talvez, até um pouco preguiçoso. A música é densa, sinuosa, construída sobre um jazz experimental que flerta com o desconforto. Não há aqui concessões fáceis ao ouvido médio. Bowie não quis ser lembrado como um ícone domesticado; preferiu reafirmar seu compromisso com o risco.

O homem que transformou a morte em linguagem

O título, claro, remete à figura bíblica de Lázaro, ressuscitado por Jesus Cristo. A escolha não é aleatória. Bowie sempre transitou entre o sagrado e o profano, entre o mito e a carne. Em “Lazarus”, ele parece sugerir não exatamente uma ressurreição, mas uma permanência simbólica — uma vida que continua na obra, não no corpo.

O videoclipe reforça essa leitura com imagens perturbadoras: Bowie de olhos vendados, deitado em uma cama que evoca tanto um leito hospitalar quanto um altar sacrificial. Há algo de ritualístico ali, como se o artista estivesse conduzindo sua própria cerimônia de passagem. Não é exagero dizer que poucos músicos conseguiram transformar o fim em algo tão esteticamente coerente.

Comparado a despedidas mais convencionais do rock, o gesto de Bowie beira o aristocrático. Enquanto muitos artistas se agarram à nostalgia ou à repetição de fórmulas, ele escolheu o enigma. Não há conforto em “Lazarus”. Há, sim, uma espécie de beleza fria, quase clínica — como se a morte fosse apenas mais uma etapa a ser estilizada.

E aqui reside uma provocação inevitável: até que ponto a morte de um artista deve ser consumida como parte de sua obra? No caso de Bowie, essa fronteira parece deliberadamente borrada. Ele não apenas aceitou o fim — ele o incorporou. E, ao fazer isso, nos deixou um legado que desafia a própria ideia de despedida.

“Lazarus” não encerra a carreira de David Bowie; ela a reconfigura. A canção funciona como uma chave de leitura retroativa: ao ouvi-la, revisitamos toda a trajetória do artista sob uma nova luz. O camaleão do rock, que tantas vezes mudou de pele, talvez tenha realizado sua transformação mais radical justamente no silêncio que se seguiu.

No fim das contas, “Lazarus” é menos sobre morrer e mais sobre permanecer. Em uma era obcecada pela permanência digital e pela ilusão de eternidade, Bowie nos oferece algo mais sofisticado: a eternidade como gesto artístico, como construção deliberada. Não há ingenuidade aqui — apenas consciência plena de que o fim também pode ser obra.

Bowie sempre transitou entre o sagrado e o profano, entre o mito e a carne (Foto: Wikipédia)
Bowie sempre transitou entre o sagrado e o profano, entre o mito e a carne (Foto: Wikipédia)

E talvez seja isso que incomoda. Porque “Lazarus” não nos permite apenas lamentar; ela nos obriga a pensar. Sobre arte, sobre morte e, sobretudo, sobre o raro privilégio de um artista que soube sair de cena sem jamais perder o controle do próprio roteiro.

Última atualização da matéria foi há 5 dias


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