Michele Villa Franca: “Estamos trabalhando juntos na revisão destes processos”

Carreira Preta

Fundado por Michele Villa Franca, o Carreira Preta é especializado em consultoria para ações afirmativas. Busca levar experiências e estratégias afrocentradas para dentro das organizações por meio da inovação, educação e mentoria, com o objetivo de criar transformação que contribua para a luta contra o racismo. A consultoria atua com ações que promovem conexão e discussões em coerência com a realidade da empresa e seus colaboradores, através de soluções como mapeamento e seleção de talentos negros como trainees, estagiários e executivos; programas de desenvolvimento, palestras e webinários com temáticas afrocentradas; workshop com board e inovação organizacional, a fim de redesenhar cultura e processos organizacionais, inserindo o pilar da diversidade. Centra a figura do profissional negro trazendo protagonismo e projetando-o em novos arquétipos refletindo e criando práticas, políticas e programas. Em novembro do ano passado, o Carreira Preta e a plataforma de inovação Kyvo, anunciaram parceria para potencializar oportunidades de projetos e programas corporativos que considerem a quebra de paradigmas que sustentam o racismo estrutural e que dificultam a inclusão e ascensão de negros nas empresas – fator relevante no processo de inovação que ambas consultorias acreditam. “As áreas de RH já chegam para falar conosco com alguns dados em mãos sobre sua demografia e diversidada”, afirma.

Michele, como surgiu o Carreira Preta?

O Carreira Preta surgiu de um sentimento de insatisfação e falta de referência, junto a uma tomada de autoconsciência e vontade enorme de transformar a realidade. Percebi o quanto dediquei meu trabalho para desenvolver profissionais – principalmente executivos -, e quão poucos de fato eram negras e, além disso, eu tinha tão poucas referências negras nesses cargos.

A tomada de consciência veio tardia e com o real entendimento e significado do que é ser mulher negra (principalmente no Brasil) e me conectar com minha ancestralidade. Além disso, me tornar mãe depois de algumas tentativas, com a consciência de que me tornaria mãe de um menino negro nesta sociedade racista, só me fez querer mudar mais ainda a realidade.

Nós negros somos ensinados que o legado eurocentrado é correto, portanto, a prática de vestimentas, fala, religião ou outro diferente disso demanda cultura direcionada. Por isso o afrocentrismo é necessário e é um dos pilares de nosso trabalho, complementado aos pilares de ancestralidade e afrofuturismo para que possamos reconhecer nossas histórias, nossa força e referência, além de nos projetar em novos cenários, histórias e outros espaços como protagonistas.

Qual o principal norte da consultoria?

Gerar transformação através da educação e de ações que tragam o profissional negro ao centro do objetivo dos projetos, acelerando sua carreira e visibilidade, tornando referência, gerando consciência de atuação para todos, descontruindo padrões e combatendo o racismo. Isso é feito de forma metodológica e estruturada, entendendo que todos são participantes da transformação.

Como as observações externas foram fundamentais para a criação da consultoria?

Quando a empresa foi criada estava direcionada para o profissional e não para as organizações. E com essas observações externas reconhecemos nosso potencial para criar soluções organizacionais. Daí surgiu também nosso entendimento de expandir conexões e ações integradas com as corporações e empresas, visando potencializar oportunidades de realmente transformar as estruturas das organizações.

As empresas têm sido receptivas com as estratégias afrocentradas que estão sendo levadas para dentro das organizações?

Sim, desde que estejam no mínimo citando a pauta da diversidade. Em empresas que já estão buscando ações efetivas podemos fazer um trabalho completo, com impacto cultural e de liderança, de forma inovadora.

Essas organizações ainda pecam em quais quesitos que você considera como primordiais?

Falar e não praticar disseminando a cultura de diversidade sem prática; aplicar trabalhos desconectados dos que já estão em andamento internamente; desacreditar que projetos de diversidade geram resultado.

Como são feitas as conexões das empresas com o Carreira Preta?

Redes sociais, parcerias e indicações por jobs de referência. Além disso, estamos oferecendo em nosso site, duas horas de consultoria grátis e muitas empresas entram em contato para tirar dúvidas e experimentar nossa metodologia e conhecer melhor nosso trabalho.

Houve mudanças na cultura organizacional das empresas brasileiras nos últimos tempos e que vão de encontro com as ações afirmativas?

Nas empresas com as quais estamos em contato é comum perceber que elas se deram conta do racismo estrutural e estão buscando ser mais intencionais, buscando fazer parte da solução, mesmo que ainda não saibam exatamente como. As áreas de RH já chegam para falar conosco com alguns dados em mãos sobre sua demografia e diversidade. Além disso, e talvez até de forma mais impactante, temos líderes de áreas de negócio abordando o Carreira Preta e depois apresentando para as áreas de RH, o que demonstra que a liderança, independente da orientação da área de Gestão de Pessoas, está despertando para a questão e de que forma está agindo.

Em que momento essas mudanças de paradigma são fundamentais para a inovação organizacional?

Quando elas quebram processos e modelos antiquados de trabalho que foram estabelecidos de forma inconsciente reproduzindo padrões de preconceito e que ao se tornarem conscientes fazem com que a empresa redefina seus conceitos de sucesso, talento, performance entre outros, abrindo espaço para inovar em todos os aspectos da organização.

O profissional negro ainda está longe da gestão?

Sim, se pensarmos no ambiente corporativo. No ambiente de empreendedorismo é um pouco diferente já que nossa cultura expulsa o profissional negro dos espaços corporativos e o leva para o empreendedorismo ou para atividades com focos operacionais. Os dados mostram isso e a cultura do trabalho de maneira geral ainda tem uma visão da ascensão profissional para a gestão com critérios e características que mantém os negros à margem destas oportunidades.

Por que isso ainda ocorre?

A resposta curta seria racismo estrutural, mas podemos ir mais longe. Nossas intervenções em empresas e profissionais tem demonstrado que a jornada de vida do profissional negro inclui responsabilidades que drenam sua energia e atenção em fases críticas do desenvolvimento profissional. A falta de referências negras na liderança de negócios e os obstáculos para educação prejudicam o desenvolvimento dos profissionais negros. Além disso, um dos clientes apontou que profissionais brancos com 10 anos ou mais de casa receberam pelo menos quatro promoções ou movimentações de salário enquanto isso só era verdade para 50% dos colaboradores negros e agora estamos trabalhando juntos na revisão destes processos para promover equidade.

O que você acredita que sairá da união do Carreira Preta com a Kyvo?

Soluções integradas de gestão de pessoas e inovação de negócios que irão potencializar as ações afirmativas garantindo a quebra dos padrões de racismo estrutural de forma a ampliar a integração entre negócios e a comunidade negra tornando realidade o afrofuturismo e promovendo a transformação social tão necessária e já em andamento. A Kyvo tem ampla expertise com projetos de inovação e gestão de relacionamento de startups com grandes corporações; acredito, portanto que a parceria renderá frutos importantes no ecossistema de inovação e empreendedorismo com objetivo de quebrar vieses de racismo estrutural nesses espaços também.

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