Nathalie Edenburg: “A inspiração é algo imprevisível”

 Nathalie Edenburg

Nathalie Edenburg nasceu na cidade mineira de Juiz de Fora e começou a pintar nas viagens solitárias do mundo das passarelas (a artista plástica também é modelo internacional e já trabalhou para grifes renomadas como Christian Lacroix, Oscar De La Renta e DKNY). Em 2014 foi uma das convidadas a pintar uma ‘Knotted Gun’ do Non Violence Project, o qual Yoko Ono é embaixadora. Em 2015, com o fotógrafo Rogério Mesquita, cria o “How Do I Feel Today Project”, que vira projeto social para crianças. “Uma pintura por dia, por um ano, para mostrar meu estado de espírito.” Suas obras foram expostas no São Paulo Fashion Week, na galeria Luis Maluf e por meio do dinheiro das vendas ela conseguiu criar o projeto beneficente. Em 2018, lança “Nathalie Edenburg Art Jewelry”: “peças de arte para serem vestíveis”. Em 2020, com a série de pinturas Alcatruz, assina o painel da exposição “Drive Thru Art”. “Me sinto muito realizada, pois, é muito gratificante seguir o caminho que acredito e ver o resultado da transformação social que ele pode causar. É um desafio estar sempre movimentando o projeto, tentando angariar fundos e dar continuidade, principalmente nos dias de hoje devido à pandemia, apesar de saber que tenho muito ainda a contribuir, o projeto está parado por causa da retração das empresas e pelo isolamento social, mas estou ansiosa, para assim que possível, retomá-lo”, afirma a jovem e talentosa artista.

Nathalie, o que é ser uma artista em sua visão?

A arte nos dá subsídios para compreender melhor a vida. O artista oferece um produto de um estado espontâneo, que nos dá um entendimento de mundo mais amplo. Não à toa, é uma das manifestações mais antigas da raça humana e sempre foi a forma de representação, de expressão de uma civilização e sua cultura. A história da arte é também a história da raça humana.

Como as observações dos acontecimentos externos influenciam em seus trabalhos?

O artista é um reflexo do mundo em que ele vive, ele expressa a verdade do seu tempo. Não tem como negar ou se abstrair dos acontecimentos do mundo, eles se apresentam diante do trabalho.

Esse senso de observação já mudou o rumo de alguma criação?

Inevitavelmente, mesmo que de uma forma inconsciente, o rumo do trabalho artístico muda conforme os cenários.

Como a junção de observações externas e reflexões internas são desencadeadas em sua criatividade?

A criatividade é fruto da comunhão entre aquilo que sinto, aquilo que vejo e a forma como me expresso. A inspiração é algo imprevisível.

A arte deve ter um papel social?

A arte sempre terá um papel social. Além de que os artistas tendem a mostrar em suas obras alguns dos problemas da nossa sociedade, a arte pode realizar estímulos de percepção, sensibilidade e está ligada a força criadora que move e conecta as pessoas, auxiliando-nos no nosso crescimento humano e social.

Tinha essa motivação social quando criou o seu projeto com as crianças?

Sem dúvida. A ideia de fundar o projeto social partiu de um sincero desejo de encorajar as pessoas/jovens/crianças a se conectarem com o estado criativo através das práticas artísticas.

Todos nós somos seres criativos e devemos manifestar de alguma forma. Desenvolvemos bloqueios na nossa infância, por questão de insegurança e acreditar que não somos capazes. A missão do “How Do I Feel Today”, meu projeto de vida, é encorajar pessoas a se expressarem, usando a arte como um meio de autoconhecimento e fazer com que com crianças e jovens de situação vulnerável e baixa renda tenham acesso a material artístico.

Como você se sente hoje quando olha a série “How Do I Feel Today” e todos os seus desdobramentos?

Me sinto muito realizada, pois, é muito gratificante seguir o caminho que acredito e ver o resultado da transformação social que ele pode causar. É um desafio estar sempre movimentando o projeto, tentando angariar fundos e dar continuidade, principalmente nos dias de hoje devido à pandemia, apesar de saber que tenho muito ainda a contribuir, o projeto está parado por causa da retração das empresas e pelo isolamento social, mas estou ansiosa, para assim que possível, retomá-lo.

Vamos falar um pouco sobre design. O que um design deve ter além de forma e função?

Alma. Além da forma, funcionalidade e conceito, a peça precisa ter identidade… Alma.

Como a sua percepção de artista plástica interfere em suas criações como designer?

As joias são uma extensão do meu trabalho como artista plástica. Muitas vezes a forma transgride a tela e se torna joia. Estou constantemente interessada nas formas das coisas, imaginando linhas e figuras. Tais inspirações são manifestadas tanto em forma de pintura, joia ou qualquer outra coisa que possa vir a ser. Os hábitos criativos são como um vício, ou mania, quanto mais você pratica mais inspiração se coloca diante de você.

Você já falou sobre introspecção e inconsciência. Qual a importância desses dois aspectos para o seu ofício?

No meu processo eu busco deixar a intuição substituir a lógica. Como artista busco trazer à superfície minhas visões interiores, impressões e vivências pessoais, expressando-as em termos estéticos para a apreciação e reflexão do espectador. A arte cumpre o seu papel ao despertar sensações e provocar reflexões. É só na introspecção que posso alcançar esse estado.

Estamos em um dos momentos mais complexos da nossa existência. Que sentimento foi o mais visceral em você nesse período?

No começo de tudo, um sentimento muito forte de vazio, estávamos vivendo quase no automático e de repente, tudo mudou. Aquela pergunta “qual o sentido de tudo isso?”, “por que estamos passando por isso?” “para aonde iremos?”. Tudo veio à tona com o exercício da empatia. Manuel Bandeira dizia: “Perder o nada é um empobrecimento”. Hoje penso, que bom que temos o nada. Na cultura japonesa, esse momento vazio é chamado de “Ma”, que significa “porta” e “sol”.

Ao abrir uma porta encontramos o caminho para ver o Sol (luz). Através do vazio encontramos o caminho da sabedoria. Depois de ler sobre isso, intitulei minha obra do projeto “Drive Thru Art”, exposição em formato Drive Thru que aconteceu no meio da pandemia, de “A Porta do Sol”. A obra foi pintada em acrílico sobre lona e tem 10 metros de largura por 5 metros de altura.

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