Negócios de impacto buscam debater o ESG

James Marins

Negócios que aliam lucro ao propósito de gerar soluções para problemas da sociedade – conhecidos como negócios sociais – são potenciais aliados de empresas que buscam imersão em práticas ESG (Environment, Social, Governance). É o que avalia o advogado, investidor social e cofundador do Instituto Legado de Empreendedorismo Social, James Marins, que também é autor do livro “A Era do Impacto”. ESG é o termo em inglês utilizado para abordar práticas de sustentabilidade ambiental, inclusão social e governança no universo corporativo. Nos últimos anos, as cifras vêm aumentando entre investidores que buscam os chamados investimentos responsáveis como fator principal para recursos, uma tendência que se torna cada vez mais irreversível. Se a sigla ainda é novidade para muitas pessoas, as práticas responsáveis não são. Há muitos anos os negócios de impacto buscam debater o ESG a longo prazo, não associando atitudes como o baixo impacto ao meio ambiente como algo apenas para “apagar incêndio”, mas sim criar algo que mude a forma de fazermos negócio. Os pilares do impacto são inclusão, diversidade e ecologia. “É preciso pensar na importância do impacto no desenvolvimento e até na originação dos seus negócios. Como isso pode implicar na capacidade de ser saudável, sob diversos aspectos, inclusive na capacidade de ser melhor recebido no momento de buscar captação de recursos”, explica Marins.

James, como analisa a nova ética econômica?

A pandemia funcionou como uma espécie de “aceleradora de futuros” e de repente nos vimos em um mundo distópico, disfuncional. Nesse mundo pandêmico, problemas sociais e ecológicos emergiram com mais força, novas gerações assumiram mais protagonismo por meio das redes e consumidores mais conscientes passaram a exigir respostas éticas por parte das empresas que passam a ter que se explicar diariamente em termos de diversidade, inclusão e ecologia. Nesse caldo de novas economias, movimentos como Empreendedorismo Social, Capitalismo Consciente, Sistema B, Finanças Sociais e outros promovem uma nova forma de agir econômico, em que haja alinhamento entre os negócios e as necessidades de toda a sociedade e de todo o planeta. É interessante lembrar que no Brasil, por exemplo, o movimento ESG se tornou “megatrend” do motor de buscas Google exatamente no auge da pandemia.

Qual seria o pilar fundamental dessa nova ética econômica?

Nessa nova ética, essa ética do impacto, torna-se importante compartilhar como sua atividade empresarial contribui para as pessoas e para o planeta. Inclusive para seus acionistas você precisa explicar não apenas se ganha dinheiro, mas como ganha dinheiro, ou seja, nessa nova ética do impacto, nem todo lucro importa, nem todo lucro é igual. Então podemos dizer que na nova ética econômica o pilar fundamental é a transparência. Por isso o movimento ESG tem entre seus pilares a governança corporativa, que tem como base a prestação de contas e a transparência. Só que agora, empresas têm que ser transparentes com toda a sociedade.

Empreendimentos que não estiverem aliados com os impactos sociais estão fora do “jogo?”.

O jogo demora para mudar, mas está mudando. O que observamos é que existem empresas que ainda estão presas a conceitos construídos no século passado, que tem dificuldade de acompanhar o MTM – Movimento Transformador Massivo que está em curso no Século XXI. O que muitos estudos apontam é que empresas que tem mais diversidade, são mais inclusivas e que adotam a nova ética do impacto são também as mais resilientes nas crises e as mais capazes de gerar resultados no longo prazo. Estás empresas que compreendem melhor o nosso século e que não ficaram presas ao passado, entregam mais resultados para os acionistas e também para a sociedade. É um fenômeno interessante.

Como agir de forma assertiva nesse ecossistema?

Em primeiro lugar pensando da porta para dentro e somente depois da porta para fora. Não adianta nada gastar milhões em marketing de sustentabilidade se dentro de sua empresa não há diversidade nem inclusão e ninguém está pensando seriamente em sustentabilidade. Essa seria uma vertente do green wash, a lavagem verde, na qual a empresa faz uma maquiagem de sua imagem, mas continua adotando práticas destrutivas das pessoas e do meio-ambiente. Então, em primeiro lugar, crie internamente um ambiente consciente e somente depois isso irá comunicar essa ética ao seu produto, ao seu serviço e a seus consumidores. A criação de comitês pode funcionar muito bem, especialmente a constituição de um comitê de stakeholders, que ouça não apenas os interesses dos acionistas, ou sócios, mas que dê voz para colaboradores, funcionários e fornecedores. O próximo passo é a promoção da equidade de gênero e racial e a promoção da inclusão para pessoas com deficiência e também da sustentabilidade em todo o processo produtivo. Feito isso as mudanças ocorreram e é incrível como pesquisadores de gestão têm demonstrado a relação entre diversidade e competitividade. Essas ações influenciarão positivamente produtos, serviços e, consequentemente, clientes e consumidores. Importantes fundos de investimento de todo o mundo já estão dizendo que se um gestor não é capaz de perceber a importância das questões sociais e ambientais para seus negócios ele é incapaz de gerir com segurança o seu investimento. Prestação de contas social e ecológica é um movimento bem forte que vem de cima para baixo.

Qual o papel da inovação para esse novo mindset empresarial?

No século passado a inovação parecia exclusiva de universidades e grandes corporações, as únicas que tinham dinheiro para investir em informação, computadores e laboratórios. Hoje a inovação é distribuída, todos têm um supercomputador nas mãos e a novidade pode surgir em todo lugar. Por isso é importante buscar a inovação dentro e fora do seu negócio, sem a necessidade de criar inovação, mas de percebê-la ao nosso redor. Aliás, onde há mais diversidade e inclusão há mais inovação. Startups de impacto social e negócios sociais são altamente inovadores e boa parte de novos negócios reconfiguram o antigo para serem mais inclusivos. Criar produtos e serviços acessíveis a cada vez mais pessoas de modo a atender suas condições sociais, físicas ou culturais peculiares tem sido um dos grandes caminhos da inovação.

Todos esses fatores devem ser pensados na origem do negócio?

Sim, se você começar seu negócio com base no tripé diversidade, inclusão e ecologia, você está pensando seu negócio para o futuro. É mais fácil criar um DNA de impacto do que ter que reconstruir o avião em pleno voo.

Como não perder o norte com o negócio em movimento?

Pois, é, a única constante é o movimento e como o movimento pode te levar para muitos lados diferentes os princípios têm que ser sua maior bússola. Quando em dúvida sobre para onde é o norte, pense se você está atendendo aos propósitos éticos que geraram sua energia empreendedora. No propósito está o norte e o propósito não é incompatível com o lucro, mas o lucro não pode ser seu único propósito.

Qual a importância dos líderes nesses novos tempos?

Os melhores líderes são aqueles capazes de mostrar os propósitos corretos. No Instituto Legado trabalhamos com o conceito de DNA do Empreendedor Social que é representado pela sigla ETP/PIA, ou seja, ética, tecnologia e psicologia, representados respectivamente por propósito, inovação e atitude. O líder empreendedor social é movido pelo propósito, pela inovação e pela atitude e com isso supera barreiras e movimenta recursos humanos e materiais na melhor direção. Nesses novos tempos o líder não é apenas aquele que sabe para onde o mundo está indo, mas sobretudo aquele que sabe para onde o mundo tem que ir.

O empreendedorismo social cresce em todo mundo. Como o Brasil está situado em comparação com outras partes do planeta?

O Brasil tem um ecossistema de empreendedorismo social incrível, já visitei importantes redes no Recife, em Belo Horizonte, em São Paulo, em Joinville, sem falar de Curitiba que é muito dinâmica. São ecossistemas em construção, mas com muita inovação para o impacto. Somos referência: o filme brasileiro “Quem se Importa”, dirigido pela cineasta Mara Mourão foi premiado no mundo inteiro e passa em Harvard para ensinar o que é ser um empreendedor social e o Instituto Legado de Empreendedorismo Social é “case” do Projeto Erasmus da União Europeia. Isso porque nesse campo, nossas desvantagens socioeconômicas são convertidas em energia transformadora e isso nos diferencia em todo o mundo.

Como descreveria o papel do Instituto Legado nesse ambiente?

Somos aquilo que o ICE – Instituto de Cidadania Empresarial chama de dinamizadores do ecossistema. O Instituto Legado é uma entidade de filantropia estratégica, promovemos filantropia empreendedora, negócios sociais, startups de impacto e empresas conscientes, empresas alinhadas com a ética do impacto. Costumamos dizer que levamos o empreendedorismo para o social e o social para o empreendedorismo e nosso papel é buscar mudanças sistêmicas. Nesse campo, temos influenciado centenas de milhares de pessoas que passam a olhar diferentemente o papel da filantropia e dos negócios. Acho que estamos cumprindo nosso papel.

Quais os principais programas e cursos do Instituto?

Temos três principais programas. Primeiro, o Projeto Legado de Empreendedorismo Social, que apelar gratuitamente iniciativas de impacto social. Essas iniciativas são tanto filantrópicas como negócios sociais que selecionamos anualmente e que recebem 150 horas de capacitação e concorrem ao Prêmio Legado de Empreendedorismo Social. Segundo, o projeto Legado Semente, que é voltado exclusivamente para negócios e startups de impacto social e que promove conhecimento, mentoria e inserção no ecossistema de startups e de finanças sociais. Terceiro, mas não menos importante, o MBA em Gestão de Organizações e Negócios de Impacto, que é um programa de pós-graduação, totalmente EAD com design instrucional criado pioneiramente pelo Legado e pela Google for Education, com mais de 360 horas. Todas as informações sobre nossos programas estão no nosso site www.institutolegado.org.

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