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O México terá paz pós El Mencho?

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A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o temido “El Mencho”, líder do Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), em operação do Exército mexicano no último 22 de fevereiro, produziu cenas que parecem saídas de um roteiro de ação — mas eram, tragicamente, realidade. Tiros, explosões, carros incendiados, bloqueios em rodovias e pânico no Aeroporto Internacional de Guadalajara. A pergunta inevitável ecoa dentro e fora do México: a eliminação do homem forte do cartel abrirá caminho para a paz ou apenas inaugurará um novo capítulo da mesma guerra?

O episódio teve contornos quase cinematográficos. Houve relatos de atirador ativo nas imediações e possivelmente dentro do saguão do aeroporto. Voos foram desviados, companhias internacionais cancelaram operações para Puerto Vallarta, a Embaixada dos Estados Unidos na Cidade do México emitiu alerta de segurança. O Estado mostrou força; o crime respondeu com fogo. No meio, a população civil, sempre figurante involuntária.

“Se há algo de irônico em toda essa história, é que a execução de uma operação para restaurar a ordem gerou, temporariamente, mais caos. Talvez seja o retrato mais fiel do dilema mexicano: para cortar o mal pela raiz, expõe-se o terreno inteiro às intempéries.”

Não é a primeira vez que o México celebra a queda de um “chefão”. A história recente registra o abatimento ou captura de líderes como Joaquín “El Chapo” Guzmán, do Cartel de Sinaloa. Em todos os casos, o enredo se repetiu: comoção, manchetes globais, discursos oficiais sobre o triunfo do Estado de Direito. E, meses depois, a violência redistribuída, fragmentada, muitas vezes intensificada.

O CJNG, sob o comando de El Mencho, tornou-se uma das organizações criminosas mais agressivas e expansivas do continente. Sua capacidade de enfrentar forças federais com armamento pesado, drones improvisados e táticas paramilitares transformou o cartel em símbolo de um novo tipo de narcotráfico: empresarial, brutal e midiático. Não se tratava apenas de vender drogas; era exibir poder.

Decapitar resolve?

A estratégia de “decapitação” — eliminar o líder para enfraquecer a estrutura — tem lógica militar. Mas o narcotráfico não é um exército regular; é um ecossistema. Quando a cabeça cai, as hidras locais disputam o pescoço. Facções internas brigam pela sucessão, rivais avançam sobre territórios, alianças se desfazem. O resultado, no curto prazo, costuma ser mais violência, não menos.

No caso do CJNG, a incógnita é dupla. Primeiro, quem assume? Um sucessor consolidado pode manter a coesão e reduzir confrontos internos — o que, paradoxalmente, pode estabilizar a violência em certos territórios. Por outro lado, uma sucessão fragmentada pode espalhar células autônomas ainda mais imprevisíveis. Segundo, como reagirão os rivais? O Cartel de Sinaloa, historicamente em disputa com o CJNG, pode enxergar a morte de El Mencho como janela de oportunidade.

Há ainda o fator político. O governo mexicano, pressionado por anos de críticas à política de “abraços, não balas”, terá agora a tentação de capitalizar o episódio como prova de firmeza. Mas segurança pública não se resolve com um troféu. O narcotráfico prospera onde há ausência de Estado, corrupção sistêmica e oportunidades econômicas escassas. Enquanto essas variáveis permanecerem, a equação continuará desequilibrada.

Internacionalmente, o impacto também é relevante. O alerta da embaixada norte-americana e o cancelamento de voos por empresas como Air Canada e Delta Air Lines sinalizam que a violência local tem efeitos globais. Turismo, investimentos e cadeias logísticas sentem o abalo. A imagem de um aeroporto sob fumaça é devastadora para qualquer economia.

Mas seria ingênuo supor que nada muda. A morte de um líder com o perfil de El Mencho, conhecido por centralizar decisões estratégicas e cultivar reputação de implacabilidade, altera sim o tabuleiro. Cartéis são organizações racionais no sentido econômico: calculam riscos e lucros. Uma operação bem-sucedida do Exército envia mensagem clara de que há custos reais para a liderança ostensiva e midiática do crime.

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A questão é se essa mensagem será suficiente para produzir moderação ou apenas sofisticar as táticas. O narcotráfico contemporâneo já se diversificou: extorsão, mineração ilegal, tráfico de pessoas, controle territorial de mercados locais. Mesmo que a exportação de drogas sofra abalos temporários, as economias ilícitas internas continuam.

Há também um elemento cultural e simbólico. El Mencho não era apenas um chefe operacional; tornou-se personagem de corridos, lendas urbanas e narrativas de poder. A morte pode enfraquecer o mito — ou reforçá-lo, dependendo de como será absorvida pelo imaginário popular. O crime organizado, afinal, também se alimenta de símbolos.

Então, o México terá paz? A resposta honesta é: não imediatamente. A curto prazo, é plausível esperar rearranjos violentos. A médio e longo prazo, tudo dependerá de políticas estruturais — fortalecimento institucional, combate à corrupção, investimento social e cooperação internacional consistente. A morte de um homem, por mais poderoso que tenha sido, não dissolve as engrenagens que o produziram.

Se há algo de irônico em toda essa história, é que a execução de uma operação para restaurar a ordem gerou, temporariamente, mais caos. Talvez seja o retrato mais fiel do dilema mexicano: para cortar o mal pela raiz, expõe-se o terreno inteiro às intempéries.

O CJNG, sob El Mencho, tornou-se uma das facções criminosas mais agressivas  (Foto: Wiki)
O CJNG, sob El Mencho, tornou-se uma das facções criminosas mais agressivas (Foto: Wiki)

El Mencho caiu. O sistema que o sustentava, não. A paz, se vier, não virá por decreto militar nem por manchete triunfal. Virá — se vier — quando o Estado conseguir ocupar, com legitimidade e eficiência, os espaços que hoje são administrados à bala. Até lá, a pergunta do título continuará menos retórica do que gostaríamos.


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