O quintal, os tupiniquins e o tatuado Hegseth
Na segunda-feira (14), o chanceler chinês Wang Yi respondeu com firmeza às declarações do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, que classificou a América Latina como um território a ser “recuperado” pelos EUA. A reação veio após uma entrevista de Hegseth à Fox News, onde ele lamentava a perda de influência americana na região — atribuída, segundo ele, aos anos “negligentes” da era Obama — e apontava o crescimento da presença chinesa como uma ameaça. Hegseth acusou a China de dominar a América Latina por meio de acordos que levariam ao endividamento, à vigilância tecnológica e a uma infraestrutura de má qualidade.
Wang Yi, em resposta, não só repudiou a lógica de quintal, mas também afirmou que os países latino-americanos “querem construir seu próprio lar”, distantes da tutela de grandes potências. Essa breve troca de declarações, ainda que pareça rotineira nas disputas sino-americanas, diz muito sobre a forma como a América Latina é percebida — e, mais importante, sobre como parte dela ainda se permite ser tratada.
A ideia de “quintal” não é nova. A Doutrina Monroe, lançada em 1823 pelos EUA, foi um marco dessa mentalidade: a América para os americanos, no caso, os americanos do Norte. O termo serviu como base para justificar intervenções militares, golpes, embargos e a imposição de governos alinhados aos interesses de Washington. Essa concepção de tutela imperial ainda habita o discurso de parte da elite política estadunidense, como fica evidente na fala de Hegseth.
Um espelho na planície: o eco brasileiro
O mais perturbador, contudo, não é o que dizem os Estados Unidos, mas como esse discurso encontra eco no Brasil. E aqui vale uma pausa crítica. Se os EUA tratam a América Latina como quintal, há quem, por estas bandas, vista com orgulho o uniforme de jardineiro. A direita brasileira — especialmente em sua vertente mais alinhada ao bolsonarismo — assume sem cerimônia uma posição subalterna, quase devocional, em relação a Washington. Não ao Estado americano, em sua diversidade e complexidade, mas ao imaginário forjado durante a Guerra Fria, reciclado com verniz cristão, anticomunista e militarista.
Pete Hegseth, antes de ser secretário de Defesa, era apresentador da Fox News, expoente da ala mais conservadora e conspiracionista da mídia norte-americana. Sua nomeação durante o segundo governo Trump não surpreendeu os que acompanham o progressivo aparelhamento ideológico da administração republicana. Hegseth é, antes de tudo, um ideólogo: um homem de guerra (com passagem pelo Iraque e Afeganistão), que vê o mundo como um tabuleiro maniqueísta, dividido entre o Bem (os EUA e seus aliados) e o Mal (China, Rússia, Irã, e todo país que insista em autonomia).
Essa lógica é adotada sem questionamento pela extrema-direita brasileira, que vê em Trump um messias global e em figuras como Hegseth legítimos pastores da ordem ocidental. Essa vassalagem ideológica não se resume ao plano das ideias. Ela se materializou na política externa do governo Bolsonaro, que rompeu com décadas de pragmatismo para alinhar-se cegamente à Casa Branca trumpista. O Brasil, durante esse período, tratou a China com desconfiança e hostilidade — mesmo sendo seu maior parceiro comercial — em nome de um alinhamento automático com os EUA. Até hoje, esse legado persiste.

Há, nesse comportamento, um misto de complexo de vira-lata e nostalgia colonial. A elite bolsonarista — formada, em grande parte, por militares da reserva, empresários ultraconservadores e pastores neopentecostais — ainda acredita que a salvação do Brasil virá de fora. Sonham com tropas americanas desfilando no Rio de Janeiro, com McDonald’s em cada esquina da Amazônia e com embaixadas convertidas em templos do livre-mercado. A retórica de Hegseth encontra, portanto, não apenas ressonância, mas entusiasmo.
Enquanto Wang Yi reforça a soberania latino-americana e a multipolaridade como valores geopolíticos, figuras como Hegseth falam em “recuperar” territórios. A linguagem é bélica, possessiva, imperial. Mas não são os Estados Unidos que preocupam mais — o império, afinal, age como império. O que assusta é a prontidão com que parte da América Latina se curva a ele, muitas vezes contra seus próprios interesses.
O bolsonarismo ainda domina a direita, embora fragmentada. E a influência de figuras como Hegseth é perceptível nas redes sociais, nos discursos parlamentares e nas igrejas. O anticomunismo histérico, a sinofobia disfarçada de patriotismo e a submissão a Washington são pilares de um projeto de poder que se alimenta da dependência e do medo.
A fala de Wang Yi, ao afirmar que os povos da América Latina querem “construir seu próprio lar”, aponta para o que está em jogo. A disputa entre EUA e China é real, estratégica e inevitável. Mas para a América Latina — e para o Brasil — a questão fundamental não é escolher entre uma potência ou outra. É decidir se queremos, finalmente, deixar de ser quintal. E isso não virá de discursos em Pequim ou Washington, mas de uma elite que pare de se comportar como súdita e passe a pensar como soberana. É o mínimo que se espera de um país que se pretende protagonista no século XXI.
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