Os impactos da alta inflação em todo mundo

A WIT Asset realiza a gestão de fundos de investimentos e carteiras administradas para pessoas, grupos familiares e empresas. A WIT Asset conta como principal serviço a gestão de fundo de investimentos, como um de altíssima liquidez (WIT Genesis voltado ao perfil de investidor conservador), um multimercado (WIT Atlantis indicado para perfis moderados) e um de ações com retorno mais expressivo (WIT Kapta voltado ao perfil de investidor mais arrojado). A WIT tem escritórios em Curitiba (PR), São Paulo e nos principais centros econômicos do interior paulista: Campinas, São João da Boa Vista, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Araçatuba e Votuporanga. Nesta entrevista, o diretor da WIT Felipe Simões, fala sobre os reflexos da inflação entre outros assuntos: “Um aumento de juros nos EUA gera pressão para empresas do S&P, já que o mercado exige retorno cada vez maior para investir nelas, pois, o investimento livre de risco está remunerando mais. Então, esse fluxo de saída das bolsas americanas pode migrar para países emergentes como o Brasil. O valor de mercado das bolsas americanas é gigantesco e qualquer porcentagem vinda de lá pra cá pode gerar uma alta bastante expressiva aqui nas ações brasileiras, principalmente as small caps. Por outro lado, os juros mais altos nos EUA pressionam a nossa Selic ainda mais. O mercado já está precificando, e durante mais tempo, a renda variável pode se tornar menos atrativa”.

Felipe, a tendência em 2022 é de inflação elevada em todo o mundo?

Sim. A tendência em 2022 é de inflação elevada em todo o mundo por causa da alta dos preços das commodities. Como as commodities são os insumos mais básicos da cadeia produtiva, ela afeta o mundo inteiro. E como não há perspectivas de quando vai acabar a guerra na Ucrânia, é difícil saber até quando teremos esses preços elevados.

A recessão de agora é diferente de 2008?

A crise de 2008 foi causada por um abalo de confiança na capacidade de pagamento dos bancos, no sistema financeiro americano e o gatilho desta falta de confiança foi o setor imobiliário, com a bolha imobiliária. Basicamente, teve um excesso de liquidez nos EUA. O dinheiro que estava em abundância migrou para ativos ruins e estes ativos ruins começaram a não honrar com os pagamentos, o que gerou uma desconfiança no sistema financeiro como um todo.

Já a crise atual é uma crise global de preços. Então, ela é menos específica do que a de 2008. Ela é mais abrangente e realmente afeta de maneira bem parecida o mundo inteiro. E o que é possível apontar como semelhança é que as duas crises têm a mesma origem: a política de QE (Quantitative Easing ou Flexibilização Quantitativa), que os EUA vinham adotando há décadas, imprimindo dinheiro e abaixando os juros como solução para toda a ameaça de recessão.

A diferença é que antes os EUA continuavam podendo aplicar esta medida como solução aos novos problemas. Atualmente, eles não têm mais essa opção. Antes, a crise de 2008 foi resolvida com o próprio veneno que a causou. Agora, o Banco Central americano não vai conseguir dar este mesmo remédio para a economia. Então, ele vai ter que ser mais ortodoxo, aceitando uma recessão para que os preços voltem aos seus devidos lugares. O Fed não tem mais a heterodoxia (keynesianismo) como opção na política monetária.

Na primeira quinzena de julho, Ibovespa e S&P, por exemplo, caíram muito frente a essa onda de aversão ao risco.

De que forma uma recessão vai impactar a bolsa de valores?

Acredito que o S&P teve um ajuste bastante relevante. Pode continuar ajustando mais? Pode. Mas eu vejo para médio e longo prazos um marasmo na bolsa americana. Eu vejo-a oscilando em um patamar mais baixo do que oscilava anteriormente. Provavelmente, é o que vamos ver por um bom tempo. Não vejo quedas abruptas na bolsa americana, apesar de que pode acontecer. Podemos ter um menor interesse do que havia antes, por causa das taxas de juros mais altas e a renda fixa remunerando bem.

Como o investidor pode se preparar para enfrentar este período?

Períodos difíceis na economia não necessariamente coincidem com períodos difíceis nos investimentos. Há excelentes opções de investimentos, tanto em renda fixa, pois, juros estão mais altos tanto no Brasil como nos EUA e em boa parte do mundo, quanto em renda variável. Por causa de toda essa queda que tivemos, estamos com vários ativos em bolsas negociando em níveis bem atrativos de valuation. Então, há excelentes opções. É um momento bem interessante para montar uma carteira de investimentos ou então para rebalanceá-la, dependendo do perfil e do momento do cliente.

Com toda esta volatilidade no mercado e eleições presidenciais em vista, vale a pena o investidor dolarizar parte da carteira?

Sobre dolarizar a carteira, depende muito do objetivo do cliente. Então, se o cliente quer diversificar a carteira, a dolarização é sempre uma opção interessante. O dólar estava próximo a R$ 4,50 e agora está em um patamar 20% mais elevado. Então, já teve um certo ajuste, mas se o objetivo é diversificação, eu acho interessante.

Mas é importante ressaltar que dolarizar a carteira não significa que você está protegendo contra um risco-Brasil, por exemplo, de quando o Collor foi lá e bloqueou a poupança de todo mundo. Para resolver este problema, você teria que aplicar offshore. Dolarizar a carteira não é a mesma coisa que aplicação offshore. Importante fazer esta distinção porque a dolarização protege em relação ao que os investimentos vão entregar de retorno e com qual volatilidade. Mas para proteger de algo um pouco mais extremo, o ideal seria ter uma parte offshore.

Como os países emergentes, como o Brasil, podem se beneficiar do aumento dos juros americano e europeu?

Um aumento de juros nos EUA gera pressão para empresas do S&P, já que o mercado exige retorno cada vez maior para investir nelas, pois, o investimento livre de risco está remunerando mais. Então, esse fluxo de saída das bolsas americanas pode migrar para países emergentes como o Brasil. O valor de mercado das bolsas americanas é gigantesco e qualquer porcentagem vinda de lá pra cá pode gerar uma alta bastante expressiva aqui nas ações brasileiras, principalmente as small caps. Por outro lado, os juros mais altos nos EUA pressionam a nossa Selic ainda mais. Então, se a gente tiver juros em um patamar mais elevado que o previsto, do que o mercado já está precificando, e durante mais tempo, a renda variável pode se tornar menos atrativa comparada à renda fixa.

O que você tem aconselhado aos clientes investidores?

Na minha visão, nada de muito relevante mudou em termos de cenários nestes últimos dois meses. Continuo acreditando que bolsas americanas e europeias devem passar por um período mais difícil, possivelmente, um marasmo que comentei anteriormente; e a bolsa brasileira continua sendo interessante dado o nível de valuation que há em várias ações. Pensando em médio e longo prazo, a bolsa brasileira continua sendo uma das melhores opções que eu enxergo dentre todas as classes de ativos do mundo.

É possível que o FED e o BCE combatam a inflação sem enfrentar recessão?

Acho difícil combater a inflação sem enfrentar a recessão porque ele conseguia fazer isso anteriormente através da política monetária de queda de juros e impressão de dinheiro. Porém, agora ele não consegue mais fazer isso. Então, o correto mesmo é aceitar uma recessão lá nos EUA e seguir uma linha mais ortodoxa. Desta forma, a inflação acaba se ajustando de uma maneira mais orgânica.

O Banco Central Americano e o BCE iniciaram um ciclo de alta de juros. Você acredita que este movimento continue até quando e atinja qual marca?

Em 2006, o Fed chegou a elevar os juros americanos para 5,25%, que acabou coincidindo mais ou menos com o período da crise de 2008. Acredito que ele deve voltar a elevar para este patamar, talvez um pouco mais dessa vez dada a maior gravidade da situação. Então, acho que deve ficar entre 5,25% e 6,0% até o final do ciclo.

Quais as expectativas para a reunião do COPOM hoje?

O mais provável é que seja um aumento de 0,5%, mas eu não descarto que o Banco Central seja um pouco mais agressivo e proponha um ajuste de 0,25% apenas. Não descarto esta opção, dado o histórico do Roberto Campos Netos de em alguns momentos tomar uma postura um pouco mais agressiva.

O mercado tem apostado que a taxa de juros no Brasil se mantenha em 14% a.a. por muito tempo. Qual a sua visão sobre o assunto?

A minha opinião é que o Brasil já devia ter iniciado o ciclo de redução de juros. O Brasil já chegou muito antes que o resto do mundo em um patamar bastante atrativo de juros e outros países, como a própria Rússia, que está no meio de uma guerra e não tem uma democracia tão bem estabelecida como o Brasil, estão abaixando os juros. Recentemente, a Rússia abaixou os juros de 9% para 8% e pra mim não faz sentido nenhum o Brasil remunerar mais de 50% a mais do que a Rússia. Na minha opinião, já temos espaço para redução de juros.

*Com participação da jornalista Mariana Cruz.

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