Patrícia Soares, cofundadora e CEO da Prestho: “O empréstimo consignado nunca foi o vilão”

Fundadores da Prestho

O Brasil caminha para se tornar um país de população majoritariamente idosa. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o grupo de idosos de 60 anos ou mais será maior que o grupo de crianças com até 14 anos já em 2030, tornando alvo de diversas empresas e setores da economia. Uma delas são as fintechs para terceira idade, empresas que aproveitam a transformação digital no setor bancário, mas direcionam essa inovação para um público mais resistente à tecnologia. A Prestho, é uma das primeiras fintechs do Brasil a criar uma tecnologia 100% digital, com jornada exclusiva voltada à idosos, para facilitar o acesso ao crédito consignado para esse público. Em março, o pedido de empréstimo online cresceu 28% e cerca de 67,7% das solicitações foram realizados por meio de dispositivos móveis. Já no mês de outubro a empresa registrou um aumento de 108% nas solicitações de crédito. Fundada em Minas Gerais, a fintech dedicou um ano de estudos e testes antes de lançar a plataforma para o mercado, entendendo o perfil e estudando as necessidades reais do público idoso nesta área. Patrícia Soares, CEO da Prestho, explica que construíram a tecnologia pensada na experiência do usuário. “A navegação deste público é diferente, com necessidades e dificuldades bem específicas. Queremos contribuir para a inclusão digital e financeira das pessoas na melhor idade”, comenta.

Patrícia, como se deu a criação da Prestho?

A Prestho nasceu em 2018 com o desejo de levar ao público da terceira idade acesso facilitado e seguro ao crédito consignado. Após 20 anos no mercado de consignado, juntamente com meu sócio, também com 10 anos na área. Nós conhecíamos bem a dor desse público, percebemos o quanto eles estavam carentes de olhares voltados para eles. Queriam independência e fazer parte desta revolução online. O propósito era desenvolver uma solução tecnológica totalmente adaptada às necessidades específicas para os usuários da terceira idade, os “seniores digitais”.

Quais os pilares da fintech?

Desde o início nosso propósito era facilitar a vida das pessoas com 60+, acesso seguro, fácil e rápido ao crédito consignado. Focamos em uma solução para que as pessoas não precisassem se deslocar para fazer uma simulação de crédito, sem limite de horário para contratar um empréstimo ou um cartão de crédito. O serviço é disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias no ano. Um olhar diferenciado para quem precisa. Todo o time da Prestho tem valores muito fortes, como, por exemplo, encantar e surpreender nossos clientes. É muito comum ver alguém fazendo uma chamada de vídeo para se apresentar ao cliente ou desejar feliz aniversário, ou simplesmente um ótimo final de semana. Temos contato muito próximo com nossos clientes. Focamos na experiência no cliente.

O foco da Prestho sempre foi o público idoso?

Sim, a Prestho nasceu digital para o público da melhor idade. Entregamos a este público a autonomia que desejavam. É um público negligenciado pelo mercado e que merece um olhar diferenciado. O idoso está cada vez mais conectado e carente de tecnologia.

Como convencer um público que é historicamente mais resistente à tecnologia?

A motivo da resistência vejo que está mais concentrado ao fato de que este público tem necessidades muito específicas. Tem que ser uma tecnologia de fácil usabilidade, na linguagem adequada para quem vai usá-la. Foi esta dor que a Prestho explorou. Durante 12 meses, em 2018, nos dedicamos exclusivamente a estudar o comportamento deste público no universo online. Fazer a inclusão digital dos idosos é algo que nos movimenta todos os dias. Fizemos vários protótipos e testamos a navegação através do celular, tablet e computador com pessoas reais, entre 60 e 72 anos. Este estudo apenas reforçou que o desejo deles eram estar cada vez mais conectados e independentes, sem precisar da ajuda de terceiros para resolver as coisas o dia a dia. A plataforma da Prestho teve o estudo de cores, fontes, tamanho de botões e linguagem voltada para pessoas com 60+, desta forma, qualquer faixa etária consegue navegar e ter uma boa experiência.

Esse foi o principal desafio da fintech?

Sim, o principal desafio são as mudanças no comportamento do usuário. Estamos caminhando no Brasil para uma população majoritariamente idosa. Para que a inclusão digital ocorra, este público tem que ter aceitação das ferramentas, por isso é tão importante desenvolver soluções de fácil acessibilidade. Para o desenvolvimento de interfaces foi necessário uma pesquisa aprofundada sobre o perfil do usuário. Foi exatamente com essa preocupação que conseguimos aplicar em nossa plataforma as necessidades reais que eles têm. Um ponto relevante e que acelera esta inclusão é que ninguém mais quer ser incomodado por telefonemas inoportunos de oferta de crédito. Esses usuários acabam, assim, optando naturalmente pelas plataformas online. É preciso que se conscientizem da importância dos idosos se tornarem independentes em suas atividades com tais dispositivos, garantindo a estes autoconfiança e uma melhor qualidade de vida.

Houve um aumento de 108% nas solicitações de crédito em outubro. A pandemia foi a principal causa desses números?

A pandemia de uma forma geral acelerou a transformação digital no Brasil em todos os setores, esta situação teve grande influência no aumento da procura por empréstimo consignado, mas não foi a única responsável. Apontaria outros 3 motivos: A situação econômica no Brasil, que deixou algumas linhas de crédito mais restritas, desta forma, o crédito consignado ganhou destaque. Outro motivo foi o grande aumento do desemprego, as famílias precisavam continuar honrando com seus compromissos, o aposentado e pensionista do INSS por terem uma renda garantida e acesso ao empréstimo consignado acabou se tornando o esteio do lar e recorreram ao consignado para ajudar familiares ou para suas próprias necessidades básicas como, alimentação e saúde. Por fim, o último motivo e talvez o mais relevante, foi o movimento do Governo para aliviar o impacto da pandemia. Foi feito várias alterações nas regras do empréstimo: beneficiários recém incluídos podem desbloquear o benefício com 30 dias para contratar empréstimo, prolongamento do prazo de pagamento de 72 meses para até 84 meses, redução na taxa de juros de 2,08% para no máximo 1,70%, carência de 90 dias para pagar a primeira parcela, isenção total do IOF e aumento de 5% na margem consignada.

Como o crédito consignado pode se transformar numa boa saída ao invés de ser um grande vilão da renda?

O empréstimo consignado nunca foi o vilão, pelo contrário, quando foi aprovado a Lei 10.820 em 2003 foi uma conquista, principalmente para as classes que tinham pouco ou nenhum acesso a linhas de crédito. As pessoas passaram a ter mais poder de compra. Hoje é inclusive uma alternativa para quitar dívidas mais caras. Como todo crédito ele tem juros, então antes de ser contratado tem que ser analisado com cuidado as reais necessidades. Tem que ser uma ajuda temporária. Vejo que a visão do crédito consignado ser vilão é o volume de fraudes. Todos os envolvidos neste processo tem incansavelmente combatido qualquer prática que visa lesar o cliente. É muito importante também que o cliente tome alguns cuidados como, por exemplo, nunca deixar seus dados pessoais em comentários de redes sociais. Os fraudadores também estão se digitalizando.

O que a Prestho tem realizado nesse sentido?

Todas as pessoas que nos acionam com dúvidas independente do canal, seja ele rede social, chat, Whatsapp ou telefone, buscamos ajudar e esclarecer. Entendemos que a informação é a melhor forma de combater os golpes e fraudes. Temos um canal em nossa plataforma com vários artigos sobre o assunto. É importante conhecer como este tipo de operação funciona e quais cuidados devem ser tomados. Não queremos ser apenas a opção financeira para nossos usuários, queremos também entregar valor a eles, levando apoio e informações úteis.

Ter um atendimento personalizado também faz a diferença em momentos como esse?

Faz toda a diferença. O público idoso mesmo se digitalizando, ainda gosta do “calor humano”, adoram conversar e se sentem seguros quando falam com alguém. É normal e faz parte do processo de inclusão digital. É um público fiel, então entregar a eles a melhor experiência inclusive através de um atendimento humanizado e personalizado é um diferencial da Prestho.

Quais os outros diferenciais do app que você gostaria de destacar?

O aplicativo foi lançado somente após coletarmos dados suficientes para entender em que tipo de aparelho seria instalado. Era importante que o app atendesse as necessidades de um público com dificuldade de se relacionar a tecnologia, por isso tem uma linguagem híbrida, leve e que não consome muito espaço no celular. Nele (o app) o usuário tem uma área exclusiva para acompanhar todas as operações de crédito em andamento ou já concluídas. Queremos aprovar o maior número de propostas possível, desta forma é apresentado para o cliente a oferta mais adequada para o seu perfil. Diferente dos marketplaces que mostram várias ofertas para serem comparadas antes, nossa solução faz isso na “retaguarda” otimizando o tempo do usuário e agilizando o processo. Neste modelo ganhamos eficiência nas aprovações de crédito e a experiência do cliente ficou melhor.

Como a Prestho pretende ser ainda mais valorizada no pós-Covid?

Evoluímos nossa solução construindo tudo com o usuário e continuaremos focados nisso, entendemos que desta forma erramos menos e atendemos a expectativa do público. É relevante destacar também que, desde o segundo semestre de 2020 estamos dedicados ao Open Banking, o processo está muito evoluído. Queremos iniciar 2021 já operando nesta modalidade. Com o Open Banking, a transformação digital ganha força e a experiência do cliente só melhora.

Compartilhar:
Voltar ao Topo
Ir para o conteúdo