Paulo Humaitá: “Temos vivências profundas de grandes empresas”

Paulo Humaitá

Paulo Humaitá é fundador e CEO da Bluefields, com 11 programas de ideação e aceleração realizados para cerca de 200 startups brasileiras de tecnologia e impacto. O executivo trabalhou como CFO em algumas startups, tendo papel chave na estruturação do negócio e na captação de investimento, inclusive na HeroSpark – atualmente uma das principais edtechs da América Latina. Humaitá teve passagem pela Novozymes, líder global em biotecnologia, onde atuou como Business Finance Partner sendo braço direito de diretores nas Américas para as principais decisões econômicas, e depois como Business Developer com objetivo de ajudar na formação do mercado de biocombustíveis na América Latina. Paulo tem formação em Economia pela UEL, especialização em estratégia na PUC e Chicago Booth e é mestre em Desenvolvimento de Novos Negócios pelo Mackenzie. “Na Bluefields, aprendemos que empreender é a ciência de acreditar no que ainda não se vê, ao inovar a partir do propósito e refletindo valores como integridade, amor e justiça”, afirma o CEO. Ele ainda reflete sobre o Vale do Genoma [ecossistema de inovação com abordagem na pesquisa genômica e em inteligência artificial]: “O Vale une as forças necessárias para que as ideias saiam do papel. Há as empresas buscando soluções no Genoma, o ecossistema de startup querendo transferir isso em tecnologia e o Governo pensando em devolver esses valores para a população”.

Paulo, qual a importância dos dados para o mundo empresarial atualmente?

Com ciclos de produto cada vez mais curtos, a única coisa estável nas empresas é a mudança, o que justifica o fato de que muitas empresas têm implantado um novo modelo de trabalho como metodologias ágeis, design thinking e cultura startup. Inovar como uma startup é, além de conviver com incertezas extremas, um ciclo de lançar, aprender e ajustar. Portanto, dados são essenciais para aumentar a eficácia dos aprendizados da inovação. Pessoalmente, tenho me reinventado profissionalmente nos últimos 2 anos com a área de Ciência de Dados (Data Science), aprendi a programar e estou montando os primeiros modelos preditivos – onde é possível analisar grandes quantidades de dados em inteligência competitiva para inovar. Cientistas e engenheiros de dados são, sem dúvidas, grandes ativos de qualquer estratégia de inovação.

Por que o mercado agro como centro de atuação?

O agronegócio brasileiro vem forte na inovação nas últimas décadas, se mantendo altamente competitivo no mercado global. Com a acelerada digitalização de processos e o avanço tecnológico no campo, possibilitado pelo aumento das áreas conectadas, há um novo horizonte de possibilidades para inovar no agro.

Como surgiu o Vale do Genoma?

O projeto de quádrupla-hélice (Governo, Universidade, Sociedade Civil e Empresas) conta em seu conselho com o governo do estado, dois institutos de tecnologia (Ipec e Centro de Inovação no Agronegócio (Ciag)) e as instituições Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia (FSNT) e Associação Cilla Tech Park.

O que norteia o Vale?

O Vale do Genoma almeja se tornar um polo de startups ligadas à pesquisa genômica, meio ambiente e agropecuária.

Por que a inovação é a grande mola propulsora do Vale?

Porque o Vale une ciência, tecnologia e as forças necessárias para que as ideias saiam do papel. Há as empresas buscando soluções no Genoma, o ecossistema de startup querendo transferir isso em tecnologia e o Governo pensando em devolver esses valores para a população.

Quais as principais tendências do campo rural?

As tendências no agronegócio vão além de realidades atuais que já estão cada vez mais comuns, como pulverização com drones que complementam o trabalho em lugares específicos onde a máquina não consegue chegar. Novas tecnologias – como genômica, nanotecnologia, combinadas com inteligência artificial e Data Science – podem fazer toda a diferença na sustentabilidade do agronegócio, na medida em que veremos um campo cada vez mais digital.

Fale um pouco mais sobre a criação da Bluefields.

Tudo começou em reuniões no salão de festa do prédio, onde juntávamos pessoas de diferentes áreas de negócio para apoiar iniciativas empreendedoras. O nome foi uma das últimas coisas, realmente demorou para surgir, mas é uma junção de “blue” do famoso conceito da estratégia ‘Blue Ocean’, ou seja, inovação em novos mercados com “fields” de ‘campos missionários’. A Bluefields Aceleradora nasceu com a missão de transformar vidas através do empreendedorismo. Depois de “ajudar” mais de 20 negócios a falirem mais rápido, aprendemos o que não fazer e nos juntamos a uma rede global de aceleradoras em países em desenvolvimento. Compreendemos que simplesmente copiar e colar metodologias do Vale do Silício não funcionaria no Brasil, então tivemos que adaptar tudo. Do primeiro batch oficial de aceleração em 2017, tivemos um primeiro grande resultado de uma fintech adquirida por uma startup unicórnio. Desde lá foram mais de 200 startups e squads de inovação, entre soluções de validação e aceleração para startups, e inovação aberta com grandes empresas.

Por que o conceito de estar no chão de fábrica da inovação está tão presente no DNA da aceleradora?

Muitos do time já tivemos e trabalhamos em startups. Sabemos o que é passar pelos desafios do pequeno início e das fases de tração e escala. Além disso, temos vivências profundas de grandes empresas, conhecemos as dores e os mecanismos. Se inovar fosse uma fábrica, estaríamos ali meio das máquinas, completamente envolvidos com o processo de testar, aprender e refazer.

Quais os principais obstáculos quando se é uma plataforma de desenvolvimento de negócios?

Dizem que inovação é tanto ciência como arte. Alguns fatores culturais no mercado brasileiro afetam para que a vida de quem trabalha com inovação seja um pouco mais difícil: a distância entre as universidades e as empresas, por exemplo, é um deles. Acredito que as aceleradoras do futuro serão as que tiverem sucesso em transformar o ambiente de alta tecnologia e pesquisa em inovação de fato.

Como a Bluefields espera continuar tendo foco na tecnologia para impactar ainda mais (direta ou indiretamente) os diversos segmentos profissionais e empresariais?

A estratégia da Bluefields está bem determinada para os próximos anos e ela se divide em 3 principais frentes:

A primeira estratégia é escalar o Sparks, nosso programa de validação startups, de modo a colaborar para que o ecossistema de startups tenha 300 novas startups validadas por ano. Para isso, criamos o Acelera Brasil, uma rede de parceiros, fundações, empresas e famílias alinhados com o mesmo objetivo. O Sparks já atingiu altíssima satisfação dos empreendedores, com NPS acima de 90 na versão remota, incluindo startups de Angola, Portugal e outros países.

A segunda estratégia está relacionada aos programas de inovação aberta para os setores relacionados ao conceito de Biodigital, ou seja, saúde, alimentação, agronegócio e fábricas inteligentes. Começamos a fomentar negócios e cultura de inovação entre startups e grandes empresas desses setores através do maior programa de experiência digital do Brasil, que contou com 15 grandes empresas e 7 startups em uma jornada simultânea de inovação.

A terceira estratégia é acelerar a colaboração em ecossistemas de inovação. Como Bluefields, temos desempenhado um papel bastante relavante em ecossistemas nascentes, tais como o Vale do Genoma no Paraná (tecnologia genômica e inteligência artificial) e o Startup Grafeno (iniciativas de inovação e startups em nanotecnologia). Há muito ainda por vir quando o assunto é ecossistema brasileiro de inovação, e é nossa função ajudar desbravar alguns desses campos em que nosso país é vocacionado.

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