Rebeca Toyama: “Nossa mente precisa de desafios”

 Rebeca Toyama

A pandemia trouxe para o mundo corporativo grande aceleração da tecnologia, e com o isolamento social, ganhamos uma nova companhia: o mundo remoto que era presente para alguns, mas ganhou novos tons e agora é cada vez mais democrático. Se antes ficar em casa era sinônimo de acolhimento e relaxamento, hoje também abriga escritórios e sala de aulas, e nesse novo espaço de convivência sem barreiras muito bem definidas é muito fácil se perder o chão. Rebeca Toyama, especialista em estratégia de carreira vem trazer a reflexão sobre a desaceleração da rotina e como momentos de lazer podem auxiliar na criatividade. Recentemente, um estudo feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra o quão pode ser agressivo à saúde trabalhar até altas horas. Segundo o levantamento realizado em mais de 150 países, mostrou que jornadas de trabalho de mais de 55 horas semanais torna os profissionais mais propensos a terem doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. “Não é surpresa que estamos nos sentindo cansados após um ano marcado pela morte e a solidão. Podemos observar nestes casos de sobrecarga a Síndrome de Burnout, que é conhecida como o distúrbio emocional causado pelo esgotamento profissional, e precisamos ficar atentos a isso também. Ou seja, precisamos sempre nos perguntar: será que não está na hora de se desligar um pouco?”, ressalta Rebeca Toyama.

Rebeca, por que a criatividade é uma habilidade tão apreciada no mercado?

Essa habilidade é essencial para criar soluções complexas e inovadoras em ambientes instáveis, como, por exemplo, o que estamos vivendo na pandemia e antes dela, por conta da crise econômica.

Sempre foi assim ou hoje vemos isso mais potencializado?

A criatividade sempre foi algo admirado, mas um tanto estigmatizado. Porém, atualmente o mercado tem estabelecido uma relação mais madura com ela, entendendo que não é algo restrito a publicitários ou artistas, mas também importante para engenheiros, economistas, executivos e empreendedores. Por isso, essa habilidade tem ganho mais espaço nas empresas e no ranking de habilidade do Fórum Econômico Mundial.

Como desenvolver a criatividade de uma forma ininterrupta?

Trazendo para nosso estilo de vida algumas rotinas que estimulem criatividade, como, por exemplo: conhecer pessoas que pensem diferente que as de nossa bolha, frequentar lugares diferentes, estudar culturas diferentes, ler autores de linhas diferentes das que acreditamos.

Qual a importância de absorver visões e opiniões divergentes em prol da criatividade?

Nosso potencial criativo é ilimitado, porém, limitado pela nossa visão de mundo que é repleta de crenças, paradigmas e vieses cognitivos, portanto, ampliar nossa visão com conteúdo divergente é uma técnica muito eficaz para sermos mais criativos e menos rígidos também.

Como as observações externas podem influenciar nessa criatividade?

Escuta ou observação ativa sem críticas, ou julgamentos, respeitando a opinião do outro costuma ser uma estratégia bastante fértil para criatividade. Que realizada com estado de presença no aqui e agora permite encontrarmos formas diferentes de ser, fazer ou aprender coisas novas.

Originalidade e criatividade estão sempre juntas?

Não. Originalidade são minhas competências essenciais, aquelas que como DNA ou digital são únicas em mim, transbordando, o famoso sendo eu mesmo. Criatividade é minha capacidade de criar, sendo ou não eu mesmo. Existem pessoas originais que não possuem o foco de criar, geralmente pensam muito e realizam pouco. Também existem pessoas criativas que não são originais, geralmente o foco está em solucionar algo, independentemente da originalidade.

O autoconhecimento afeta mais a criatividade ou a originalidade?

Como autoconhecimento afeta praticamente tudo em nossas vidas, ficaria difícil mensurar. Posso desenvolver qualquer competência ou entregar qualquer resultado, mas quanto menor meu autoconhecimento, maior será o esforço.

A criatividade consegue nos tirar de nossa zona de conforto?

A criatividade é um convite para sair da caixa que nos limita em nossa zona de conforto, mas para transpor essa barreira precisamos aprender lidar com o medo do novo e gostar do friozinho na barriga que sentimos quando lidamos com algo desconhecido.

Como percebemos que estamos nessa zona de conforto?

Apatia, distração, desânimo. Nossa mente precisa de desafios para olhar para o alto a adiante. Se não oferecemos isso a ela, a tendência é que o foco vá para baixo ou para atrás e daí temos esse cenário de crescente problemas com saúde mental dentro e fora das empresas.

Ter a percepção que estamos na zona de conforto é fundamental para termos um espírito proativo?

Não vejo muito essa relação, observo pessoas se anestesiando, distraindo ou compensando para não olhar para sua vida: maratonas de séries, rede social, compulsão por compras, alimento ou drogas lícitas e ilícitas. A consequência disso está mais para um espírito reativo que percebe que estava na zona de conforto quando somos surpreendidos por algum choque ou alguma crise.

O que será fundamental no pós-Covid e que indiscutivelmente orbitará sobre a criatividade, a originalidade e a iniciativa?

Estamos tendo novos desafios e enfrentaremos tantos outros que ainda desconhecemos, e esse cenário demandará muita criatividade para encontrarmos soluções originais para identificarmos as iniciativas mais adequadas para resolver tais problemas. A pandemia nos traz o convite para repensarmos a forma que nos relacionamos com nossa vida pessoal e profissional, para criar um estilo de vida original que garanta qualidade de vida e bem-estar financeiro para nós e para sociedade como um todo.

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