Ricardo Almeida: “O mercado editorial não é pouco competitivo”

Clube de Autores

Ricardo Almeida é CEO do Clube de Autores (a maior plataforma de autopublicação da América Latina). Hoje, a plataforma on demand, representa cerca de 27% de todos os livros publicados no Brasil. Além disso, oferece uma gama de serviços profissionais para os autores independentes que pretendem crescer e se desenvolver no mercado de literatura. Possui mais de 30 anos de experiência com planejamento digital. Antes de cofundar a empresa em 2009, atuou na I-Group e na Agência A2C como diretor-geral e diretor de Planejamento e Inovação respectivamente. É criador e coordenador do MBA em Marketing Digital da FECAP, criou também a metodologia Moebius de Planejamento Estratégico Digital. Em 2014 ganhou o YCE (Young Creative Entrepreneur) com o case do Clube de Autores. Ricardo é formado em Propaganda e Marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “O maior desafio do setor foi se adaptar a um modelo de negócios onde o intermediário tinha um poder de fogo muito, muito menor. No passado, quando as livrarias eram essencialmente a única maneira de se vender livros, havia uma dependência financeira por parte de editoras e autores que as transformava quase que em escravas. Livrarias podiam impor as regras que quisessem, de vendas por consignação a parcelamentos inacreditáveis sobre os exemplares vendidos”, afirma o CEO da plataforma de autopublicação.

Ricardo, como o mercado editorial enfrenta a crise do novo coronavírus?

O mercado editorial pós-pandemia é absolutamente diferente do pré-pandemia – como, aliás, muitos mercados. A diferença aqui é que as mudanças não foram causadas, mas apenas aceleradas pelo Covid. Desde 2018 e 2019, quando os dois gigantes varejistas – Cultura e Saraiva – entraram em colapso, toda a cadeia foi repensada.

Na prática, essas duas grandes varejistas eram responsáveis por 40% de todo o faturamento do setor – e suas quebras representaram calotes até então impensáveis. O resultado disso? Algumas editoras – como a Cosac Naify – fecharam as portas de vez. Outras recalcularam toda a cadeia financeira – do tamanho de suas tiragens a formatos de venda (até então majoritariamente dominada pela consignação). E essencialmente todas fecharam as portas para novos talentos, de certa forma colocando em xeque o próprio futuro da literatura brasileira.

Sob esse aspecto, a pandemia acabou, paradoxalmente, resgatando o mercado editorial de si mesmo.

Sem as grandes varejistas e com a súbita e absoluta imposição de se transacionar online, via internet, uma enxurrada de marketplaces acabou tomando o lugar das livrarias tradicionais. Para se ter uma ideia, aliás, 80% das vendas no comércio eletrônico inteiro, no primeiro semestre de 2020, ocorreram via marketplaces – que ofereceram condições de negociação e margens muito melhores para as editoras do que o mercado “normal” costumava praticar. E, finalmente, houve uma espécie de despertar súbito do mercado de autopublicação. Já devidamente integrado aos marketplaces, plataformas como o Clube de Autores viram seu tamanho dobrar em poucos meses – tanto na quantidade de novos livros publicados (atualmente na casa dos 40 por dia) quanto no volume de vendas, confirmando uma sede por novidades do leitor brasileiro que estava há anos sendo completamente ignorada.

Hoje, quase um ano depois da primeira quarentena ser decretada no Brasil, o mercado editorial é completamente diferente. As compras ocorrem online; há uma oferta de títulos imensamente maior; a estrutura logística inclui modelos de impressão sob demanda revolucionários; e a conta parece, finalmente, começar a fechar para todos do setor.

É o maior desafio deste setor nos últimos tempos?

O maior desafio do setor foi se adaptar a um modelo de negócios onde o intermediário tinha um poder de fogo muito, muito menor. No passado, quando as livrarias eram essencialmente a única maneira de se vender livros, havia uma dependência financeira por parte de editoras e autores que as transformava quase que em escravas. Livrarias podiam impor as regras que quisessem, de vendas por consignação a parcelamentos inacreditáveis sobre os exemplares vendidos. O raciocínio era simples: não aceitar significava estar – literalmente – fora do mercado.

Na medida em que a internet passou a ser o local de compra, tudo começou a mudar. E, quando a pandemia forçou o uso da internet como único canal de compra, todo o mercado se viu diante de uma oportunidade única para adaptar seu modelo, rever sua cadeia e entrar em uma era com uma dependência muito menor dos intermediários.

Isso não significa, claro, que todo o setor esteja soltando fogos de artifício: décadas de problemas estruturais não se resolvem em meses. Mas significa, sim, que pela primeira vez há uma saída positiva para o mercado e um prospecto de crescimento realmente poderoso.

Nos últimos 15 anos o mercado editorial encolheu 15%. Quais os principais motivos desse encolhimento?

Eu interpretaria essa estatística com muita cautela justamente pelas mudanças pelas quais o mercado está passando. Sim, o mercado tradicional encolheu significativamente nos últimos anos de acordo com uma série de institutos. Mas esses mesmos institutos, por outro lado, desconsideram em suas contas praticamente todos os novos modelos, da autopublicação às plataformas de assinatura. O que quero dizer com isso? Que o mercado não encolheu: ele se transformou – e em um ritmo mais rápido do que os institutos conseguem medir. Esse descompasso leva a uma miopia perigosa quando se analisa os números do setor.

Acredita que estamos diante de um contrassenso, afinal livrarias fecham, mas os leitores estão lendo cada vez mais…

Essa questão ilustra perfeitamente o ponto anterior. Se há mais leitores lendo cada vez mais, como é possível afirmar que o mercado está encolhendo? Mais leitores lendo mais livros significa – obviamente – mais consumo. O grande ponto é que esse consumo deixou de ser monopolizado pelas livrarias. Hoje, ouvem-se livros em aplicativos. Assinam-se livros em plataformas. Compram-se livros diretamente dos autores que os autopublicam. Há mais diversidade de oferta – uma diversidade amplamente correspondida por uma demanda já muito amadurecida e ainda crescente.

Seria justo dizer que o e-commerce salvou o mercado editorial em 2020?

Seria justo dizer que o e-commerce salvou todo o futuro do mercado editorial.

Quais os movimentos e alternativas interessantes que apareceram nesse setor?

O principal, a meu ver, é a autopublicação. Não se constrói uma cultura de consumo de literatura apenas com clássicos. Clássicos são clássicos, serão sempre fundamentais até para entendermos a nossa própria identidade – mas eles refletem o pensamento da era na qual foram escritos. O nosso tempo, a nossa era, é consolidada a partir dos livros que estão sendo escritos hoje, neste momento, neste instante.

E, no passado, havia uma barreira financeira pesadíssima para que novos autores encontrassem espaço, o que estava danificando – e muito – a nossa própria cultura. A autopublicação está salvando isso. Somente aqui, no Clube de Autores, temos mais de 40 livros novos publicados todos os dias – livros que são automaticamente distribuídos para todos os marketplaces e aplicativos de venda nos formatos impresso e digital. Isso significa conectar leitores e autores, significa semear novas ideias, fomentar a cultura. Isso é revolucionário.

Mas não devemos ficar restritos à autopublicação. Livros, hoje, podem ser consumidos em forma de áudio. Podem ser assinados em uma espécie de releitura dos tempos dos fascículos. Podem ser trocados online. Livros, hoje, podem ser consumidos da maneira que o leitor quiser.

Como se deu a criação do Clube de Autores?

A partir da nossa própria experiência. Como autores, nos deparávamos com todas essas barreiras financeiras para publicar nossos livros. Como autores, não conseguíamos entender essa lógica de se precisar pagar para contar uma história quando o óbvio, o natural, deveria ser receber por ela. Munidos dessa crença, fizemos o que nos pareceu óbvio: criamos uma plataforma de autopublicação gratuita para o autor.

Quais os grandes diferenciais dessa iniciativa?

A democratização editorial absoluta. Todos podem publicar os seus livros no momento que quiserem. Todos têm acesso ao mercado, até porque distribuímos nos principais marketplaces e livrarias. Todos conseguem chegar aos seus leitores e leitores em potencial.

A autopublicação é um caminho a ser percorrido nesse cenário?

Diria que, para o autor independente, cuja carreira ainda não esteja consolidada, a autopublicação é o único caminho.

Quais as vantagens da autopublicação?

Controle absoluto. O autor publica da maneira que preferir, acompanha as suas vendas online e em tempo real, tem acesso a comentários dos seus leitores e a uma distribuição ampla, atingindo não só os principais canais de venda no Brasil como também em todo o mundo. E isso tudo, frise-se, sem pagar absolutamente nada.

Como um livro ainda chamará a atenção com tantas opções e dispersões?

Um livro, costumo dizer, deve ser encarado pelo seu autor como um produto. Da mesma forma que qualquer produto, o livro precisa ser visualmente atrativo; precisa ter uma sinopse cativante; precisa ter uma campanha de comunicação eficiente.

O mercado editorial não é pouco competitivo. Ao contrário: eu diria que ele é inclusive o mais concorrido do mundo uma vez que o leitor tem opções que atravessam o tempo. E, nesse sentido, o autor moderno precisa estar disposto a ser seu próprio empresário, precisa aprender a ser tão vendedor quanto escritor.

Isso é algo simples, fácil? Não – mas não há outra saída.

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