Succubus: quando o demônio quer sexo
Poucas figuras do imaginário ocidental atravessaram tantos séculos com tamanha elasticidade simbólica quanto a succubus. Meio demônio, meio projeção do desejo reprimido, ela aparece sempre à beira do leito — lugar onde a teologia perde a compostura e a imaginação ganha corpo. A succubus não nasce do nada: ela emerge de um caldo espesso de medo moral, curiosidade erótica e tentativa masculina de explicar aquilo que foge ao controle da vigília e da razão.
Na Antiguidade, ainda sem esse nome específico, já havia entidades femininas noturnas associadas ao esgotamento dos homens. Na Mesopotâmia, Lilitu rondava os sonhos; na Grécia, empousas e lâmias sugavam algo mais que sangue. Não se falava exatamente em “sexo”, mas em drenagem: de energia, de vitalidade, de virilidade. O prazer aparecia como efeito colateral perigoso, nunca como direito. Desde cedo, o recado era claro: desejar demais cobra juros altos.
“A succubus deixa de ser apenas predadora e passa a ser lida como metáfora da autonomia sexual feminina — algo que historicamente sempre foi demonizado. Não é coincidência que ela resurja com força num mundo que discute consentimento, poder e fantasia de forma mais aberta. O demônio, afinal, costuma morar onde a sociedade ainda tem medo de olhar.”
É na Idade Média cristã que a succubus ganha CPF demonológico. Teólogos e monges, mestres em transformar pulsão em culpa, passam a descrevê-la com minúcia suspeita. A succubus seria o demônio feminino que seduz homens durante o sono, enquanto o incubus faria o mesmo com mulheres. O detalhe curioso — e raramente comentado em tom sério — é que essa literatura surge em ambientes de clausura, celibato e vigilância obsessiva do corpo. O demônio, nesse caso, parece menos invasor externo e mais produto interno, uma terceirização do desejo proibido.
A escolástica medieval refinou o discurso: Tomás de Aquino discutiu se demônios poderiam realmente manter relações físicas, e o Malleus Maleficarum tratou o tema com um misto de paranoia e fixação. A succubus virou explicação oficial para poluções noturnas, fantasias inconvenientes e qualquer prazer não autorizado pela Igreja. Era mais confortável culpar o Inferno do que admitir que o corpo humano insiste em existir, mesmo sob ameaça de fogo eterno.
Do pesadelo teológico ao fetiche pop
Com o Iluminismo e o enfraquecimento da autoridade religiosa, a succubus não desapareceu: apenas trocou de roupa. Saiu do latim e entrou na literatura gótica, depois na psicanálise, no cinema, nos quadrinhos e nos videogames. Freud trocou o demônio pelo inconsciente, mas manteve o enredo: desejos reprimidos retornam à noite, disfarçados. A succubus moderna é menos castigo divino e mais sintoma psicológico — ainda que continue carregando culpa, medo e fascínio.
No século XX, ela passa a ser também ícone pop. Filmes, séries e animações a transformam em figura hipersexualizada, agora sem o peso explícito da condenação moral, mas ainda presa a um olhar masculino que a define pelo que oferece. A provocação permanece: a succubus deseja, mas esse desejo nunca é neutro. Ele consome, domina, esgota. O prazer feminino, quando ganha agência, continua sendo narrado como ameaça.
Nos dias atuais, a figura é reapropriada por discursos feministas, queer e artísticos. A succubus deixa de ser apenas predadora e passa a ser lida como metáfora da autonomia sexual feminina — algo que historicamente sempre foi demonizado. Não é coincidência que ela resurja com força num mundo que discute consentimento, poder e fantasia de forma mais aberta. O demônio, afinal, costuma morar onde a sociedade ainda tem medo de olhar.
Há, claro, uma ironia persistente: mesmo no mundo pós-digital, continuamos recorrendo à succubus para falar de sexo sem falar de sexo. Ela é o álibi cultural que permite flertar com o tabu mantendo uma distância segura. Quando o desejo incomoda, chamamos de entidade. Quando o prazer ameaça normas, damos chifres a ele.

A succubus, no fim das contas, diz menos sobre demônios e mais sobre nós. Sobre como o Ocidente lidou — e ainda lida — com o desejo: ora reprimindo, ora estetizando, ora culpabilizando. Ela sobrevive porque é útil. Enquanto houver medo do corpo e fascínio pelo proibido, haverá uma figura noturna disposta a aparecer e levar a culpa. E talvez seja justamente por isso que ela nunca perde o apelo: não porque o demônio quer sexo, mas porque o ser humano insiste em fingir que não quer.
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Emanuelle Plath assina a seção Sob a Superfície, dedicada ao universo 18+. Com texto denso, sensorial e muitas vezes perturbador, ela mergulha em territórios onde desejo, poder e transgressão se entrelaçam. Suas crônicas não pedem licença — expõem, invadem e remexem o que preferimos esconder. Em um portal guiado pela análise e pelo pensamento crítico, Emanuelle entrega erotismo com inteligência e coragem, revelando camadas ocultas da experiência humana.




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