Yayoi Kusama: pujança da arte oriental
Em um mundo onde a arte contemporânea muitas vezes se dissolve entre o banal e o pretensioso, Yayoi Kusama emerge como um raro caso de persistência estética, coerência intelectual e pujança visual. Aos 96 anos, completados em março, a artista japonesa continua a ocupar um espaço único no imaginário da arte global. De Tóquio a Nova York, sua famosa obsessão por bolinhas (ou polka dots) transcenderam o circuito das galerias para se tornarem parte de um fenômeno cultural de massa. Mas a popularidade jamais diluiu a força de sua obra — pelo contrário, ela parece amplificar a potência de um legado que vem sendo construído há mais de sete décadas.
Kusama não é uma artista recente nem uma celebridade fabricada pela viralização digital. Nascida em 1929, em Matsumoto, ela iniciou sua produção artística ainda jovem, no Japão do pós-guerra, marcada por visões alucinatórias que, segundo relata, a acometem desde a infância. Essas visões, de pontos que se multiplicam até o infinito e tomam conta de tudo, formam o cerne de sua produção e foram, por décadas, também seu tormento. Diagnosticada com transtornos mentais, Kusama transformou a dor em linguagem artística. Migrou para os Estados Unidos em 1957 e, já nos anos 1960, se destacava na efervescente cena nova-iorquina, ao lado de nomes como Andy Warhol e Claes Oldenburg — com quem, aliás, manteve uma rivalidade velada.
“Enquanto o mundo admira suas bolinhas e espelhos, a crítica começa a reconhecer o alcance filosófico e existencial de sua obra.”
Se há algo que distingue Kusama de muitos contemporâneos é a integridade de sua poética. O que poderia ser visto como obsessão visual — a repetição de pontos, a instalação de ambientes espelhados, o uso saturado das cores — se revela, com o tempo, uma filosofia de mundo. Kusama fala do infinito, da anulação do eu, da multiplicidade, da fragmentação do real. Em suas obras, o espectador não apenas contempla, mas é engolido pela composição. Suas salas de espelhos, onde luzes piscam ou formas se repetem ao infinito, criam experiências imersivas que precedem a moda atual dos installations interativos. Kusama estava lá antes que o mercado descobrisse que interatividade vendia.
Ao mesmo tempo em que sua obra alcança um público cada vez mais amplo, surge também uma questão legítima: até que ponto a projeção atual de Kusama é fruto da força de sua arte, e não da indústria cultural que transformou sua imagem numa marca global? É inegável que a artista — ou, mais precisamente, os que a representam — souberam negociar bem com o mercado. Kusama virou estampa de bolsas da Louis Vuitton, tema de exposição em redes sociais e presença constante em museus blockbuster, onde filas de horas se formam para poucos minutos em suas salas.
Da loucura ao fenômeno pop: até onde vai à autenticidade?
O risco aqui é o da estetização superficial. Uma parte do público parece mais interessada em tirar selfies dentro das instalações do que em absorver o sentido profundo que atravessa seu trabalho. O mesmo vale para curadores e instituições que, muitas vezes, limitam-se a repetir fórmulas de sucesso sem propor novos recortes críticos sobre a obra da artista. A própria repetição de seus temas — embora central em sua estética — pode dar margem a leituras preguiçosas.
Entretanto, seria injusto desconsiderar o impacto simbólico de uma mulher asiática, de idade avançada e com histórico de internações psiquiátricas, ocupar um lugar de destaque num cenário artístico dominado por padrões eurocêntricos e masculinos. Kusama rompeu várias barreiras com seus próprios meios. Nunca foi dependente de uma escola ou movimento. Nunca se encaixou com docilidade no discurso dos ismos da arte. Foi, sempre, Yayoi Kusama — única, incômoda, vibrante.
A longevidade da artista, que vive voluntariamente em um hospital psiquiátrico em Tóquio desde 1977, é outro dado significativo. De lá, ela comanda um estúdio com dezenas de assistentes, idealiza exposições e supervisiona uma fundação que preserva e difunde sua obra. Em 2023, a abertura do Yayoi Kusama Museum na capital japonesa solidificou sua posição como uma das artistas mais influentes do século XX e XXI.

Kusama segue ativa, produtiva e — talvez mais importante — cada vez mais estudada sob novas lentes acadêmicas. Enquanto o mundo admira suas bolinhas e espelhos, a crítica começa a reconhecer o alcance filosófico e existencial de sua obra. Trata-se, afinal, de uma meditação sobre o eu, o outro, o tempo e o infinito — temas que atravessam as grandes questões da arte desde sempre.
Kusama não apenas representa a pujança da arte oriental. Ela a redefine, subverte expectativas e propõe um caminho próprio. E, se o mercado às vezes transforma sua obra em espetáculo, cabe ao olhar atento resgatar, por trás das luzes e selfies, a mulher que viu o infinito na repetição e o traduziu em arte.
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