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As histórias do soturno Edifício Dakota

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Há prédios que são apenas concreto bem localizado. Outros, raros, parecem respirar. O Edifício Dakota, no Upper West Side de Nova Iorque, pertence à segunda categoria — aquela em que a arquitetura não se limita a abrigar corpos, mas também histórias, fantasmas simbólicos e uma reputação que insiste em atravessar décadas. De frente para o Central Park, ele observa a cidade como um aristocrata antigo: silencioso, imponente e permanentemente desconfiado de quem se aproxima.

Construído no final do século XIX, quando aquela região ainda era vista como “longe demais” do centro nervoso de Manhattan, o Dakota nasceu extravagante. Elevadores internos, pátio central, apartamentos gigantescos e uma estética que mistura Art Nouveau, neogótico e delírios europeus transplantados para o Novo Mundo. Era luxo antes mesmo de Nova Iorque saber exatamente o que fazer com tanto luxo. Um edifício pensado para poucos — e, ao que tudo indica, continua fiel a esse projeto original.

“O Dakota também colabora com a imaginação. Seus telhados inclinados, arcos dramáticos e detalhes ornamentais contrastam com os edifícios envidraçados ao redor, como se ele tivesse parado no tempo por escolha própria. É um anacronismo consciente. Enquanto Manhattan corre, o Dakota observa.”

Mas prédios não viram lenda apenas por sua planta baixa. O Dakota carrega um tipo específico de fama: a que combina glamour, tragédia e uma pontinha de paranoia coletiva. Ali viveram artistas, maestros, atores e milionários que preferem o anonimato blindado. E ali também se cristalizou um dos momentos mais traumáticos da cultura pop do século XX: o assassinato de John Lennon, em 1980, na entrada do edifício, quando o ex-Beatle retornava para casa com Yoko Ono. Desde então, o Dakota deixou de ser apenas endereço — virou ponto de peregrinação emocional.

O curioso é que o prédio parece ter absorvido o acontecimento como parte de sua mitologia. Não há placa ostensiva, não há espetáculo. O silêncio do Dakota após a morte de Lennon é quase ofensivo para uma cidade que transforma tudo em atração turística. Talvez aí resida parte de seu fascínio: ele não se explica, não se desculpa, não se abre. Continua ali, austero, como se dissesse que a tragédia é problema dos vivos.

Antes mesmo de Lennon, porém, o cinema já havia ajudado a escurecer sua aura. Foi no Dakota que Roman Polanski filmou O Bebê de Rosemary, em 1968, usando o prédio como cenário externo do Bramford, um edifício habitado por vizinhos excessivamente simpáticos e intenções demoníacas. A partir dali, o Dakota passou a habitar o imaginário popular como um lugar onde algo sempre parece fora do lugar — ainda que tudo esteja impecavelmente limpo.

Entre o luxo seletivo e as sombras persistentes

Há também o lado institucionalmente antipático do Dakota, que só reforça sua lenda. O processo de seleção de moradores é notoriamente rigoroso. Ter dinheiro, ao que parece, é apenas o começo. Celebridades já foram recusadas. Fortunas foram analisadas como se fossem currículos morais. O edifício não quer apenas moradores; quer perfis, comportamentos, previsibilidade. Uma espécie de condomínio que funciona como clube privado sem explicar as regras do jogo.

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Esse controle excessivo alimenta, claro, teorias e boatos. Fala-se em aparições, em corredores que rangem mais do que deveriam, em uma atmosfera pesada que alguns visitantes juram sentir. Nada comprovado, tudo repetido. Nova Iorque, afinal, adora uma boa lenda urbana — principalmente quando ela envolve ricos excêntricos, arte, assassinato e um prédio que parece saído de um romance gótico europeu.

Do ponto de vista arquitetônico, o Dakota também colabora com a imaginação. Seus telhados inclinados, arcos dramáticos e detalhes ornamentais contrastam com os edifícios envidraçados ao redor, como se ele tivesse parado no tempo por escolha própria. É um anacronismo consciente. Enquanto Manhattan corre, o Dakota observa. Enquanto o mercado imobiliário surta, ele seleciona. Enquanto a cidade grita, ele sussurra.

Talvez por isso o edifício provoque tanto incômodo e fascínio. Ele desafia a lógica contemporânea de acesso irrestrito, de exposição constante, de fama como moeda universal. No Dakota, a celebridade não garante entrada. A história pesa mais do que o hype. E o silêncio vale mais do que qualquer marketing.

O Dakota carrega um tipo específico de fama: a que combina glamour e tragédia  (Foto: Wiki)
O Dakota carrega um tipo específico de fama: a que combina glamour e tragédia (Foto: Wiki)

No fim das contas, o Edifício Dakota é menos um lugar mal-assombrado e mais um espelho elegante das contradições urbanas: luxo e luto, arte e violência, exclusividade e curiosidade pública. Um prédio que virou personagem — e que parece confortável nesse papel. Soturno? Sem dúvida. Mas, em uma cidade que raramente dorme, talvez seja reconfortante saber que ao menos um edifício insiste em permanecer acordado, atento, e um tanto desconfiado de todos nós.


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