Ricardo Camargo, marchand e fundador da Ricardo Camargo Galeria: “Sempre acreditei em apresentar obras de qualidade”

O galerista

O galerista Ricardo Camargo começou sua trajetória aos 15 anos, por intermédio de seu irmão Ralph Camargo, com quem trabalhou na galeria Art-Art, que em São Paulo foi a pioneira no lançamento dos artistas da geração 1960. A partir daquele momento e ao longo dos 48 anos de sua carreira firmou parcerias e conheceu várias pessoas que se tornaram importantes para a arte brasileira, como Pietro Maria Bardi (diretor do MASP por 45 anos), Volpi, Wesley Duke Lee e Flávio de Carvalho. Em meio a tantos anos de profissão se destacou o momento em que Ricardo recebeu o convite para ser o curador de Anita Malfatti, Lygia Clark e Tarsila do Amaral na exposição “Latin American Women”, em março de 1995, organizada pelo Milwaukee Art Museum em Wisconsin, e que percorreu posteriormente os Museus de Phoenix, Arizona, Denver, Colorado, finalizando em Washington D.C., Estados Unidos. Um traço marcante de sua carreira é a diversidade de estilos, evidente nas mais de 90 exposições que realizou – de exposição de Arte Pré-Colombiana à Vanguarda Tropical, de obras modernistas às contemporâneas. Ricardo é hoje um dos poucos galeristas em São Paulo que atua nesse mercado desde a década de 60 e que continua ativo na sua Galeria. Dentre as características próprias da Galeria está o ineditismo de suas exposições que são extremamente bem recebidas pelo público.

Ricardo, em que momento a arte exerce um papel social?

A arte exerce inúmeros papéis na vida das pessoas e no coletivo, pois, a partir da construção cultural a mente das pessoas se expande, fica mais observadora, criteriosa, questionadora. Ela traz referências para que a pessoa possa moldar o seu próprio olhar e com isso é claro que também desempenha um papel social, seja pela inspiração, seja pelo questionamento que ela própria traz aos olhos de todos, a reflexão que gera.

O que é ser um galerista em sua visão pessoal?

O galerista seleciona a arte, garimpa com critérios de qualidade e das preferências de seu público o que julga ser os melhores trabalhos. Ele traz para exibir aquilo que inspirará e deslumbrará. Ele é um intermediário da arte em suas inúmeras vertentes, inclusive intermediando períodos da História e da Evolução coletiva geral ou de um povo em específico.

Quais as principais mudanças vivenciadas pela sua galeria no mercado das artes nos últimos 15 anos?

Dentre as principais mudanças dos últimos 15 anos está o nosso vínculo inaugural e de manutenção com o Wesley Duke Lee Art Institute, que inclusive foi pré-lançado em nosso stand na SP Arte em 2015. A nossa forma de valorizar a Cultura e o acesso a ela tem evoluído. Realizamos exposições dos artistas da geração 1960 que ficaram emparedados pela geração anterior e posterior, mostrando sua importância cultural e de rompimento com o passado. Nós mantivemos a seleção criteriosa da qualidade das obras e artistas expostos, e seguimos diversificando as exposições. Esse é um dos nossos pilares desde o começo da Galeria há 25 anos. Além disso, também nos vemos em constante desafio para manter a Galeria atualizada no digital, no online, por meio dos sites da Galeria e do Instituto – que conta com um banco de dados incrível do Wesley – e a presença inicial em redes sociais como Facebook e Instagram.

Como o Brasil está posicionado quando o assunto é Arte Moderna?

A Arte Moderna brasileira ainda é pouco vista no exterior, exceção à excelente exposição da Tarsila do Amaral no MOMA, uma artista que ficou muito valorizada no mercado externo e obviamente também no interno. Apesar de alguns artistas modernistas terem vivido no exterior, principalmente em Paris, como Vicente do Rego Monteiro, Antonio Gomide, Victor Brecheret, e da Anita Malfatti ter estudado e vivido na Alemanha e Estados Unidos, ainda não foram devidamente reconhecidos como artistas de primeira linha. Ainda há trabalho a ser feito neste sentido.

Existem movimentos históricos dentro da Arte Moderna. Por que você acredita que esses movimentos fascinam o público até hoje?

O fascínio do público pela Arte Moderna ficou marcado pela famosa “Semana de 22” realizada aqui em São Paulo, porque foi um rompimento com a arte acadêmica, mostrando a qualidade dos artistas desta época, além de valorizar também a música, literatura e a arte em geral. A arte questionadora exerce encantamento, pois, faz pensar e refletir.

O que foi crucial para aguçar o seu interesse pela arte?

O ponto crucial do meu interesse pela arte aconteceu quando fui trabalhar com o meu irmão Ralph, ainda em sua primeira galeria. Foi assim que passei a vivenciar cada exposição que ele apresentava, e eu montava. Marcou-me muito o fato de ter conhecido vários artistas de diferentes movimentos artísticos, isso abriu o meu olhar para o novo mundo com arte.

Quais são os pilares fundamentais da sua galeria?

Os principais pilares de minha galeria estão relacionados ao que eu valorizo e à minha trajetória. Sempre acreditei em apresentar obras de qualidade e que possibilitam apreciar o trabalho do artista independente de ser da sua fase principal ou que mais se destacou, porque todo trabalho vem sendo lapidado e desenvolvido e eu valorizo isso. Aprecio conhecer as pessoas com quem me relaciono, cada colecionador, cada artista, identificar suas personalidades e quais obras são compatíveis com elas e com as outras obras de suas coleções. Assim como tenho prazer em montar exposições na minha galeria, tenho prazer em ajudar o colecionador a valorizar a sua coleção, montando as obras de forma harmoniosa. Sou detalhista e é por isso que penso em cada detalhe dos catálogos que faço, porque é um livro que compila obras de qualidades e pode ser guardado para a posteridade.

Um galerista é de certo modo um educador?

Sem dúvida o galerista é um educador, é muito importante orientar o cliente/colecionador para o que se recomenda adquirir ou não, evidentemente respeitando o gosto de cada um deles (Arte Moderna, Concreta, Abstrata, Contemporânea, etc). Sempre priorizo melhor qualidade do que quantidade de obras em uma coleção, mostrando que algumas vezes têm mais sentido uma excelente obra sobre papel do que uma média pintura, principalmente quando essa determinada obra tem um histórico de já ter participado de importantes exposições. Por isso que digo que priorizo a qualidade da obra.

A sua trajetória começou aos 15 anos. O que você ainda traz daquele jovem para os dias atuais?

O prazer de montar as exposições continua sendo um grande momento para mim, onde posso olhar para cada obra enxergando detalhes e elementos preciosos, inclusive para identificar com quais coleções esta obra teria mais afinidade. Outro momento que adoro é a visitação ao atelier do artista, poder dialogar e sentir a alma da criação de cada obra é algo fantástico. Assim como, mesmo depois de mais de 50 anos na profissão, continuo tendo um enorme prazer quando levo as obras na casa dos colecionadores. Gosto estar com pessoas, ao vivo, algo pessoal.

Como a diversidade de estilos marcou a sua atuação como galerista?

Ser uma galeria eclética, não só de um estilo, sempre foi o meu sonho, primeiro pela variedade de artistas de movimentos completamente diferentes e de técnicas variadas, que trazem um desafio para o meu trabalho. Com isso também atraio públicos diversificados e preciso me manter em constante aprendizado, é uma oportunidade de evolução em meu trabalho.

O senhor conheceu grandes artistas como Volpi, Wesley Duke Lee e Flávio de Carvalho. O que absorveu desses gigantes e que trouxe posteriormente para o seu ofício?

Realmente tive o grande prazer de conhecer e conviver com artistas da maior importância no cenário das artes plásticas.

Com Volpi aprendi a humildade e simplicidade. Ele era um artista tímido. Ao frequentar sua casa, atelier e vê-lo preparando a sua própria tela via essa simplicidade em todas as etapas, mesmo antes de iniciar uma nova pintura.

O Flávio de Carvalho era muito divertido. Ele foi o primeiro grande artista que conheci – aos 16 anos. A sua inteligência e ousadia eram marcantes, tanto que ele participou do primeiro “happening” em São Paulo. Nessa época eu era tímido e foi por meio destes contatos e exemplos que aprendi a me soltar.

O Wesley Duke Lee foi alguém ainda mais marcante para mim, um amigo de longa data, com quem comecei a desenvolver a amizade lá em 1970 até o seu falecimento em 2010. Ele era absolutamente culto, viveu anos nos Estados Unidos e um pouco no Japão, depois de ter sido premiado na 8.ª Bienal de Tóquio, disciplinado e perfeccionista – algo que eu também tento ser – tivemos uma bonita relação de amizade e de negócios. Há 6 anos criei o Wesley Duke Lee Art Institute com a Patrícia – sobrinha do Wesley. O Instituto fica na casa ao lado da galeria, e lá mantivemos todos seus pertences pessoais e profissionais, buscando sempre fazer o melhor possível para manter a sua memória viva, honrar sua personalidade e história.

Claro que em tantos anos de carreira tive contato com outros grandes artistas que me influenciaram e inspiraram e que eu gostaria de citar aqui, pelo respeito que carrego por eles: Willys de Castro e Hércules Barsotti, Antonio Henrique Amaral, Rubens Gerchman, Antonio Dias, José Antonio da Silva, Mira Schendel e muitos outros.

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