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Tom Stoppard: um agudo crítico dos jornais

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Poucos dramaturgos contemporâneos são tão reverenciados quanto Tom Stoppard. Com uma carreira que se estende por mais de seis décadas, ele é responsável por algumas das obras mais sofisticadas, verborrágicas e intelectualmente estimulantes do teatro moderno. Peças como Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos (1966), Arcadia (1993), Travesties (1974) e, mais recentemente, Leopoldstadt (2020) demonstram sua habilidade ímpar em combinar filosofia, arte, história e humor britânico em roteiros densos e profundamente humanos.

Nascido em 1937, na então Tchecoslováquia, Stoppard chegou ao Reino Unido ainda criança, fugindo da perseguição nazista. Criado na Inglaterra, tornou-se um exemplo do que há de mais refinado na tradição cultural britânica, ainda que sua trajetória pessoal – marcada por exílio, assimilação e redescoberta de raízes judaicas – tenha fornecido a base para reflexões mais íntimas em suas obras mais recentes.

“Sua obra – e suas críticas – continuam a nos lembrar que a liberdade de expressão não deve ser confundida com liberdade de distorção, e que o jornalismo, para ser relevante, precisa fazer mais do que noticiar: precisa pensar.”

Apesar de ser amplamente celebrado como um defensor das liberdades intelectuais e da imprensa livre, Stoppard sempre foi, paradoxalmente, um crítico feroz da maneira como os jornais impressos operam e moldam a opinião pública. Essa tensão entre liberdade e responsabilidade na mídia é um tema recorrente em sua produção dramatúrgica e em suas declarações públicas ao longo dos anos.

Stoppard nunca escondeu sua admiração pelo ideal de uma imprensa livre e ética. No entanto, seu ceticismo diante do jornalismo tradicional – especialmente o impresso – tem raízes profundas. Em entrevistas e ensaios, o dramaturgo frequentemente manifestou preocupação com o que chamou de “teatralização da notícia” e com a transformação dos jornais em instrumentos de entretenimento disfarçados de informação.

Sua peça Night and Day (1978) é exemplar nesse sentido. Ambientada em uma fictícia colônia africana à beira da guerra civil, a obra satiriza jornalistas britânicos em missão internacional, desnudando o cinismo, a busca por escândalos e a superficialidade da cobertura ocidental de conflitos no chamado Terceiro Mundo. A peça questiona o que, afinal, motiva a imprensa: a verdade ou a venda de jornais?

A imprensa como espetáculo e deformação

Não se trata, para Stoppard, de uma crítica a indivíduos, mas sim a uma lógica de produção. Ele argumenta que o jornalismo impresso, em sua ânsia por narrativas impactantes e deadlines apressadas, sacrifica a complexidade em nome da legibilidade. A verdade – em sua forma mais bruta, contraditória e incômoda – costuma ser editada até caber em colunas de 400 palavras. Essa compressão, segundo ele, não é apenas estética: é epistemológica. Como algo é contado molda a percepção do que é contado.

O dramaturgo vai além ao afirmar que, muitas vezes, os jornais se tornam coautores dos eventos que relatam. Eles não apenas registram a realidade, mas a constroem, orientando o leitor sobre o que deve ser temido, elogiado ou rejeitado. Nesse processo, os fatos deixam de ser fins e passam a ser meios – uma matéria-prima narrativa a ser moldada segundo a pauta editorial ou o apelo comercial.

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Em um mundo cada vez mais digitalizado, é curioso que Stoppard, em vez de direcionar sua crítica às redes sociais ou às novas plataformas de informação, mantenha foco no jornal impresso. A explicação pode estar no fato de que, para ele, a imprensa tradicional ainda carrega uma aura de credibilidade e autoridade que, se mal utilizada, torna sua influência ainda mais perniciosa. “As mentiras em papel-jornal são mais elegantes”, chegou a ironizar certa vez.

Nos últimos anos, em eventos públicos e seminários culturais, Stoppard tem demonstrado crescente desilusão com o jornalismo político britânico, especialmente durante o período do Brexit e da ascensão do populismo. Segundo ele, os jornais, em vez de esclarecer o debate público, contribuíram para sua deterioração com manchetes alarmistas, análises enviesadas e uma postura beligerante em relação à nuance. O “quarto poder”, para ele, frequentemente atua como partido de oposição sem responsabilidade institucional.

Um jovem e muito inquieto Tom Stoppard ainda na década de 70 (Foto: Prospect)
Um jovem e muito inquieto Tom Stoppard ainda na década de 70 (Foto: Prospect)

Isso não significa que Stoppard defenda censura ou um modelo jornalístico idealizado. Pelo contrário: sua crítica parte justamente do desejo de que a imprensa esteja à altura da responsabilidade que lhe cabe em democracias liberais. Em suas palavras, “o jornalismo é indispensável, mas não é infalível. E quando se comporta como se fosse, vira propaganda”.

Aos 87 anos, Tom Stoppard segue lúcido, produtivo e cada vez mais interessado nas fronteiras entre linguagem, poder e representação. Sua obra – e suas críticas – continuam a nos lembrar que a liberdade de expressão não deve ser confundida com liberdade de distorção, e que o jornalismo, para ser relevante, precisa fazer mais do que noticiar: precisa pensar.


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