Felação e Deep Throat: prazer e tabu
Há práticas sexuais que atravessam séculos carregando mais julgamentos do que corpos. A felação é uma delas: tão antiga quanto as pinturas rupestres da imaginação humana e, ainda assim, tratada como se fosse uma moda recente, importada e suspeita. Em certas mesas de bar, é assunto sussurrado; em outros espaços, vira símbolo de libertação; nos tribunais de alguns países, é crime. A sexualidade, como quase tudo que toca o poder, raramente é apenas privada.
O termo “Deep Throat”, por sua vez, saiu do vocabulário clínico e ganhou o mundo pelo cinema — um filme que virou mito, escândalo, produto cultural e marcador de época. Curioso como um título pornográfico se tornou expressão pop, usada até para definir denúncias políticas profundas. Quando o sexo vira metáfora, percebe-se o quanto ele incomoda e fascina, ao mesmo tempo, sociedades que juram controlá-lo.
“No fim das contas, discutir felação e “Deep Throat” é discutir o velho embate entre prazer e controle. Entre o que se faz e o que se admite. Entre o desejo real e a moral oficial. Talvez o maior tabu não seja o sexo oral, mas a dificuldade social de lidar com o prazer sem recorrer à culpa, à punição ou à piada defensiva.”
Entre o prazer e o tabu existe um corredor estreito onde caminham a moral, a religião, o Estado e a hipocrisia cotidiana. O mesmo ato que, em um quarto, pode ser visto como intimidade consensual, em outro território é classificado como “contra a ordem natural”. Quem define essa ordem? E, mais importante: quem se beneficia dela?
No Brasil, o tema oscila entre piadas fáceis, machismo estrutural e uma falsa liberalidade performática. Fala-se muito de sexo, mas discute-se pouco o consentimento, o respeito e a assimetria de expectativas entre gêneros. A felação, não raro, é tratada como obrigação feminina ou troféu masculino, o que diz menos sobre prazer e mais sobre poder simbólico.
Moral, lei e o controle do corpo
Na Malásia, por exemplo, a questão deixa de ser apenas cultural e entra no campo penal. A seção 377A do Código Penal classifica a introdução do pênis no ânus ou na boca de outra pessoa como “relação carnal contra a ordem natural”, prevendo até 20 anos de prisão e chicotadas. A lei é raramente aplicada, é verdade, mas sua simples existência já cumpre um papel disciplinador: lembrar que o Estado observa até o que acontece entre quatro paredes.
Esse tipo de legislação não é um ponto fora da curva histórica. Durante séculos, práticas sexuais foram reguladas como se fossem ameaça à estabilidade social. Michel Foucault já alertava: controlar o sexo é controlar narrativas, corpos e subjetividades. Não se trata apenas de moral religiosa, mas de administração do desejo.
O paradoxo é evidente. Em países onde tais leis existem, o consumo de pornografia é alto, os debates fervilham nas redes sociais e a prática continua acontecendo, silenciosa e cotidiana. A lei vira teatro moral, mais preocupada em afirmar valores do que em regular comportamentos reais. Criminaliza-se o gesto, mas tolera-se a hipocrisia.
Há também a dimensão de gênero. A felação, historicamente, foi enquadrada como algo que “rebaixa” quem pratica, reforçando uma lógica hierárquica do sexo. Quando o prazer não é compartilhado, ele vira instrumento de dominação. Daí o desconforto social: não é o ato em si que assusta, mas a autonomia de quem escolhe fazê-lo.
O cinema, a literatura e a cultura pop ajudaram a embaralhar essas cartas. “Deep Throat” (Garganta Profunda em português), o filme, escancarou o que muitos fingiam não existir e abriu debates inesperados sobre censura, liberdade de expressão e consumo cultural. Transformou o que era clandestino em conversa pública — ainda que envolta em escândalo e exploração.
No fim das contas, discutir felação e “Deep Throat” é discutir o velho embate entre prazer e controle. Entre o que se faz e o que se admite. Entre o desejo real e a moral oficial. Talvez o maior tabu não seja o sexo oral, mas a dificuldade social de lidar com o prazer sem recorrer à culpa, à punição ou à piada defensiva.

Enquanto isso, leis antiquadas seguem empoeiradas, filmes viram clássicos improváveis e as pessoas continuam fazendo o que sempre fizeram: buscando prazer, afeto e sentido — apesar das normas, não por causa delas.
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Emanuelle Plath assina a seção Sob a Superfície, dedicada ao universo 18+. Com texto denso, sensorial e muitas vezes perturbador, ela mergulha em territórios onde desejo, poder e transgressão se entrelaçam. Suas crônicas não pedem licença — expõem, invadem e remexem o que preferimos esconder. Em um portal guiado pela análise e pelo pensamento crítico, Emanuelle entrega erotismo com inteligência e coragem, revelando camadas ocultas da experiência humana.




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