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Prometer CDI de 180% termina em sirene

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Há crises que explodem com barulho, e há outras que fazem o que a má teoria econômica sempre faz: crescem em silêncio, embaladas por planilhas otimistas, rentabilidades improváveis e a fé quase religiosa de que “desta vez é diferente”. O caso do Banco Master pertence à segunda categoria. Não houve corrida bancária televisionada, nem gerente trancado em agência cercada por depositantes. Houve algo mais perigoso: normalidade demais. Quando um banco médio passa a prometer retornos incompatíveis com o risco declarado, quando liquidez vira conceito elástico e criatividade contábil passa a ser tratada como inovação financeira, o problema já não é pontual — é sistêmico. Não no sentido de contágio imediato, mas no sentido mais profundo: erosão de critérios. Por isso convoquei Mário Henrique Simonsen. Não o Simonsen caricaturado como tecnocrata frio, mas o economista que entendia que mercados não quebram apenas por ganância, mas por autoengano. O banqueiro que sabia que matemática financeira não aceita retórica. E o ministro que jamais confundiu crescimento com milagre. Simonsen retorna não para comentar o escândalo, mas para desmontar a ilusão que o tornou possível.

Frederic Chaz – Professor, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025. Foi uma surpresa?

Mário Henrique Simonsen – Para quem olha balanços, não. Para quem olha propagandas, talvez. Crises bancárias raramente nascem do nada; elas são cultivadas. Quando um banco precisa pagar 180% do CDI para captar recursos, ele está gritando que seu risco não cabe no discurso institucional. Rentabilidade muito acima da média não é mérito — é confissão.

Chaz – Muitos investidores alegam que confiavam na cobertura do FGC. Isso muda algo?

Simonsen – O Fundo Garantidor de Créditos é um seguro, não um salvo-conduto para a imprudência. Ele existe para proteger o sistema, não para legitimar apostas mal avaliadas. Quando o investidor terceiriza totalmente o juízo crítico ao FGC, ele ajuda a socializar prejuízos privados. Isso tem nome em economia: risco moral.

Chaz – O banco investiu fortemente em ativos de baixa liquidez, como precatórios e carteiras de crédito consignado problemáticas. Onde está o erro central aí?

Simonsen – O erro está em casar passivos líquidos com ativos ilíquidos sem colchão adequado. Isso é finanças básicas. Não se financia promessa de resgate diário com ativos que dependem de decisões judiciais ou contratos mal formalizados. Isso não é ousadia — é irresponsabilidade estrutural.

Chaz – Um relatório do INSS apontou falhas graves em centenas de milhares de contratos de consignado. Isso agrava o quadro?

Simonsen – Agrava e esclarece. Quando a base do ativo é juridicamente frágil, o valor econômico é ilusório. Crédito sem consentimento válido não é crédito; é passivo disfarçado. O mercado costuma descobrir isso tarde demais, mas descobre.

Chaz – A Polícia Federal fala em emissão de títulos falsos e manipulação contábil. Isso indica fraude ou má gestão levada ao extremo?

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Simonsen – Essa distinção cabe à Justiça. Do ponto de vista econômico, ambas produzem o mesmo resultado: balanços mentirosos. A contabilidade não é opinião, é linguagem formal. Quando ela é manipulada, o banco deixa de ser instituição financeira e passa a ser ficção.

Chaz – O caso envolve também o Banco de Brasília (BRB), acusado de adquirir carteiras problemáticas. Isso aponta falha institucional mais ampla?

Simonsen – Aponta para algo recorrente no Brasil: a confusão entre política, conveniência e avaliação de risco. Bancos públicos não estão imunes à matemática. Quando compram ativos ruins para sustentar narrativas, acabam transferindo o problema para o contribuinte. É uma velha história com novos personagens.

Chaz – O controlador do banco foi preso e depois liberado com tornozeleira. Isso satisfaz a necessidade de responsabilização?

Simonsen – Prisões não resolvem insolvências, mas ajudam a restaurar limites. O que importa é que haja consequência clara entre decisão e resultado. Um sistema financeiro saudável não é aquele sem falhas, mas aquele em que erros custam caro a quem os comete — não ao público difuso.

Chaz – Mais de 1,6 milhão de clientes aguardam o reembolso do FGC. O sistema corre risco?

Simonsen – O risco maior não é financeiro, é pedagógico. Se o episódio for tratado como exceção infeliz, nada muda. Se for entendido como sintoma — da busca cega por rendimento, da leniência com estruturas opacas e da crença em rentabilidade sem custo — então talvez se aprenda algo. Crises são aulas caras. O Brasil costuma faltar a elas.

Chaz – Que lição central o caso Banco Master deixa?

Simonsen – Que não existe engenharia financeira capaz de revogar a aritmética. Que liquidez não se inventa, se constrói. E que quando um banco precisa explicar demais por que paga tanto, é porque algo já está errado. O mercado pode ser imperfeito, mas ele pune invariavelmente a ilusão persistente.


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