A finitude consciente em All That Jazz
Poucos filmes encaram a morte com tamanha coreografia quanto All That Jazz, obra dirigida por Bob Fosse que, mais do que um musical, é um acerto de contas coreografado entre um homem e sua própria decadência. Lançado em 1979, o longa não apenas antecipa a morte como a ensaia, a ilumina, a transforma em espetáculo — e, talvez por isso mesmo, a torna mais desconcertante. Aqui, a finitude não é um evento súbito, mas um processo meticulosamente editado, como um número de abertura que insiste em nunca terminar.
O protagonista Joe Gideon, interpretado por Roy Scheider, é um alter ego escancarado de Fosse: um diretor, coreógrafo, mulherengo, viciado em trabalho e autodestruição. Ele começa seus dias com um ritual que mistura colírio, anfetaminas e negação — uma rotina que beira o cômico se não fosse tão trágica. A famosa frase “It’s showtime, folks!” funciona como um mantra cínico, um pacto silencioso com o colapso iminente. Gideon sabe que está morrendo; a questão é como transformar isso em arte antes que o pano caia.
“Se em Cabaret havia um comentário político sobre a ascensão do nazismo, em All That Jazz o inimigo é interno — um corpo que falha, uma mente que não desacelera, um ego que se recusa a admitir limites. É o narcisismo elevado à condição de tragédia estética.”
O filme se equilibra entre o real e o alucinatório, costurando ensaios de dança, crises cardíacas e fantasias com uma precisão quase cirúrgica. Não há concessões sentimentais. A morte surge como interlocutora, personificada pela figura etérea de Angelique, que acompanha Gideon em conversas que misturam flerte e despedida. É um recurso que poderia soar pretensioso em mãos menos hábeis, mas aqui ganha contornos de uma elegância perturbadora. Fosse não quer piedade; quer lucidez — ainda que embalada em lantejoulas.
A montagem, premiada com o Oscar, é um espetáculo à parte. O filme avança em cortes que lembram o ritmo de um coração irregular: acelera, desacelera, falha, retoma. Cada sequência parece dialogar com a anterior como se fosse uma resposta tardia, uma tentativa de corrigir o que já foi perdido. Nesse sentido, All That Jazz é menos sobre o fim da vida e mais sobre o fracasso em organizá-la — um inventário emocional que nunca fecha as contas.
O espetáculo como autópsia
Há, no centro da obra, uma ideia incômoda: a de que a arte pode ser tanto redenção quanto mecanismo de fuga. Gideon transforma tudo em performance — suas relações, suas culpas, suas dores físicas. As mulheres em sua vida orbitam como satélites conscientes de sua própria descartabilidade, enquanto ele segue em frente, guiado por uma compulsão que não distingue criação de destruição. Fosse parece sugerir que o artista, quando levado ao extremo, torna-se uma máquina de consumir a si mesmo.
Essa visão encontra eco em outros trabalhos do diretor, como Cabaret, mas aqui o tom é mais íntimo, quase confessional. Se em Cabaret havia um comentário político sobre a ascensão do Nazismo, em All That Jazz o inimigo é interno — um corpo que falha, uma mente que não desacelera, um ego que se recusa a admitir limites. É o narcisismo elevado à condição de tragédia estética.
O número final, uma espécie de delírio coreografado que mistura hospital e palco, é talvez um dos momentos mais ousados do cinema. Não há redenção, apenas encenação. A morte é tratada como um último show, com direito a aplausos imaginários e despedidas ensaiadas. É belo, sim — mas também profundamente inquietante. Afinal, o que resta quando até o fim precisa ser performado?

Revisitar All That Jazz hoje é confrontar uma obra que continua desconfortavelmente atual. Em tempos de produtividade tóxica e culto à performance constante, Joe Gideon parece menos uma exceção e mais um arquétipo. A diferença é que, ao contrário de muitos, ele sabe exatamente onde isso vai dar. E mesmo assim continua. Porque, no fim das contas, parar seria admitir que o espetáculo acabou — e isso, para certos artistas, é simplesmente inadmissível.

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