Orelhão: início, auge e fim nostálgico
Durante décadas, ele esteve ali. Imóvel, paciente, muitas vezes vandalizado, às vezes salvador. Na esquina, na praça, em frente ao bar ou colado ao ponto de ônibus, o orelhão fazia parte da paisagem urbana brasileira como poste, banca de jornal ou cachorro vira-lata. Agora, oficialmente, sai de cena. A autorização da Anatel para o recolhimento definitivo dos últimos telefones públicos encerra não apenas um serviço, mas um hábito social, um gesto cotidiano e um capítulo inteiro da vida coletiva do país.
O fim do orelhão não é apenas tecnológico; é simbólico. Ele representou, durante muito tempo, a democratização da voz. Antes do celular, antes da internet, antes mesmo da linha fixa ser regra, o telefone público era o único meio de comunicação de quem não tinha telefone em casa — e isso não era pouca gente. O orelhão foi o microfone improvisado das classes populares, o fio invisível entre quem estava longe e quem precisava ser avisado de algo urgente: um atraso, um nascimento, uma morte, um “cheguei bem”.
“O fim do orelhão não precisa ser tratado como tragédia, mas também não merece ser ignorado como simples obsolescência. Ele foi testemunha silenciosa de encontros, despedidas, brigas de casal, chamadas desesperadas e boas notícias gritadas no meio da rua. Foi cenário de vida real, sem filtro, sem Wi-Fi, sem nuvem.”
Havia também o ritual. Procurar ficha ou cartão, esperar a ligação completar, falar rápido, porque o tempo custava. A conversa tinha urgência, objetividade e, paradoxalmente, emoção. Não havia áudio em alta definição, mas havia presença. Não havia emoji, mas havia tom de voz. O orelhão ensinou gerações a dizer o essencial em poucos minutos, algo que os aplicativos modernos, ironicamente, desaprenderam.
E não se trata apenas de nostalgia barata. O orelhão foi design, política pública e identidade visual. Oficialmente chamado de Telefone de Uso Público (TUP), o abrigo em formato de concha foi projetado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, sino-brasileira, em um gesto raro de sofisticação funcional no espaço urbano. Lançado em 4 de abril de 1972, primeiro no Rio de Janeiro e em São Paulo, ele virou ícone exportável: atravessou fronteiras, chegou à América Latina, à África, à China. Poucos objetos urbanos brasileiros alcançaram tamanho reconhecimento internacional.
Do símbolo de acesso à peça de museu urbano
O auge do orelhão coincide com o período em que comunicar-se era um privilégio controlado. Ter telefone fixo em casa significava status, fila de espera e, em muitos casos, investimento financeiro. O orelhão, nesse cenário, funcionava como um equalizador social imperfeito, mas necessário. Ele não resolvia tudo, mas oferecia uma chance. Era público, estava na rua, não perguntava renda, CPF ou plano mensal.
Com o avanço dos celulares, primeiro elitizados, depois populares, o orelhão começou a envelhecer em silêncio. As fichas sumiram, os cartões perderam sentido, a manutenção virou custo sem retorno. O aparelho que antes reunia filas passou a acumular poeira, pichações e abandono. Tornou-se cenário de fotografia urbana, abrigo improvisado, peça de museu a céu aberto — quando não apenas um estorvo esquecido.
A decisão da Anatel segue a lógica econômica e tecnológica do nosso tempo. Não faz sentido manter uma estrutura cara para um serviço que quase ninguém usa. Mas há algo de melancólico nesse desligamento definitivo. Não porque o passado era melhor, mas porque ele era diferente. O orelhão não foi substituído apenas por tecnologia superior; foi substituído por uma lógica individualizada de comunicação, em que cada um carrega seu mundo no bolso e raramente compartilha o espaço público para se conectar.
Curiosamente, enquanto o orelhão desaparece, cresce o discurso sobre cidades mais humanas, mais inclusivas, mais coletivas. O telefone público era, goste-se ou não, um símbolo disso: um objeto pensado para todos, disponível a qualquer hora, sem senha, sem cadastro, sem algoritmo decidindo o alcance da sua voz.
O fim do orelhão não precisa ser tratado como tragédia, mas também não merece ser ignorado como simples obsolescência. Ele foi testemunha silenciosa de encontros, despedidas, brigas de casal, chamadas desesperadas e boas notícias gritadas no meio da rua. Foi cenário de vida real, sem filtro, sem Wi-Fi, sem nuvem.

Talvez o maior legado do orelhão seja lembrar que tecnologia também é cultura. E que, quando ela some, não leva apenas fios e cabos, mas gestos, hábitos e pequenas cenas que ajudaram a construir quem fomos. O silêncio que fica na esquina onde antes havia um orelhão não é técnico. É histórico.
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