Mamonas Assassinas no NP: impactante
A foto do tronco do vocalista Dinho sendo arrastado por um bombeiro, logo na entrada da capa do Notícias Populares, ainda ecoa na cabeça de muitas pessoas. Depois vieram outras na parte interna da publicação: a de um bombeiro segurando uma perna, fragmentos espalhados no mato, destroços confundidos com carne. Não era metáfora. Era literal. E era terrível! O finado e lendário jornal paulistano decidiu escancarar o que restou dos Mamonas Assasinas após o acidente aéreo de 2 de março de 1996. Dois dias depois da tragédia, o Brasil que dançava “Pelados em Santos” foi obrigado a encarar a brutalidade da morte sem filtro, sem tarja, sem anestesia.
O choque não foi apenas pela violência das imagens, mas pela velocidade com que o riso virou luto. A banda que, em menos de um ano, havia se tornado um fenômeno nacional, misturando escracho, virtuosismo musical e uma ironia quase infantil, foi transformada em espetáculo póstumo. O NP — como era conhecido — não fez concessões. Publicou imagens sem qualquer censura dos corpos mutilados. Décadas depois, essas fotos ainda circulam em plataformas digitais, recicladas pelo algoritmo do horror que nunca descansa.
“A tragédia dos Mamonas foi um marco geracional. A cobertura do NP foi um marco midiático. Impactante, sim — mas também revelador. Revelador de um tempo em que o sensacionalismo não pedia licença e de um público que consumia o choque com a mesma voracidade com que consumia o sucesso da banda.”
O fotógrafo Fernando Cavalcanti, responsável pelas imagens, declarou anos depois que, apesar de ter feito “algumas fotos boas e outras tantas significativas” em mais de 20 anos de carreira, suas fotos mais famosas continuam sendo “as dos pedaços dos corpos dos Mamonas Assassinas espalhados no mato ao redor dos destroços”. E acrescentou um detalhe quase literário: só horas depois, já na casa dos pais, vendo os primos chorando diante da televisão, o baque finalmente o atingiu. A imagem dos meninos da banda começou a casar com a dos corpos que ele havia fotografado.
Há, nessa confissão, uma fissura ética. O fotógrafo cumpre seu papel documental; o jornal cumpre seu papel comercial; o público cumpre seu papel voyeur. Todos, de algum modo, engrenagens de uma máquina que transforma tragédia em produto. A editora do jornal à época, Eliane de Fátima da Silva Souza, afirmou que havia fotos ainda mais pesadas que poderiam ter sido publicadas — e que parte da redação defendia isso. A lógica era simples e brutal: se vende, imprime-se.
Entre o sensacionalismo e a memória
Após a efetiva publicação das fotos, o Notícias Populares bateu seu recorde de tiragem. Vendeu como nunca. E, num segundo momento, publicou um pedido de desculpas aos leitores por não ter conseguido suprir a demanda. O gesto é quase uma ironia involuntária: desculpar-se não pelo conteúdo, mas pela escassez do produto.
Hoje faz 30 anos da morte dos integrantes do grupo — Dinho, Júlio Rasec, Bento Hinoto, Samuel Reoli e Sérgio Reoli — e a pergunta que se impõe não é apenas sobre o acidente, mas sobre a cultura que o seguiu. O que aquela capa diz sobre nós? Sobre a imprensa? Sobre o limite entre informar e explorar?
Há um detalhe que circula como lenda urbana, mas que foi repetido à exaustão: um braço — que dizem ser do vocalista — teria ido parar na redação do jornal uma semana após o ocorrido. Verdade factual ou exagero simbólico, a imagem é poderosa. Um pedaço da tragédia invadindo o espaço da produção da notícia. Como se a própria realidade cobrasse o preço da espetacularização.
O Notícias Populares sempre viveu da fronteira tênue entre o grotesco e o popular. Fundado com a proposta de falar ao povo sem verniz acadêmico, tornou-se célebre por manchetes escandalosas, crimes sanguinolentos e uma estética que misturava pulp fiction com jornalismo policial. No caso dos Mamonas, porém, a linha foi atravessada com uma naturalidade desconcertante.
É preciso lembrar o contexto: 1996 não tinha redes sociais, não havia a viralização instantânea que hoje banaliza qualquer imagem chocante. O impacto era concentrado, físico, palpável. A banca de jornal era o feed. A capa era o clique. Quem comprava levava para casa o horror impresso em papel-jornal, manchando dedos e memórias.
Ao mesmo tempo, não se pode fingir surpresa moral retrospectiva. O público comprou. O recorde de vendas não foi fabricado no vácuo. Houve curiosidade, choque, talvez até uma necessidade coletiva de confirmar o inacreditável. A banda que parecia indestrutível estava ali, reduzida à fragilidade da carne.
Trinta anos depois, o legado dos Mamonas Assasinas permanece mais associado à alegria do que à tragédia. Suas músicas continuam sendo cantadas por gerações que nem eram nascidas em 1996. O humor debochado, que misturava rock, forró, heavy metal e paródia, ainda encontra eco num país que vive de rir para não chorar.
Já o episódio do Notícias Populares permanece como estudo de caso nas faculdades de jornalismo. Ética, limites, responsabilidade social. Publicar ou não publicar? Mostrar tudo ou preservar a dignidade? O argumento da “realidade nua e crua” costuma ser invocado como escudo. Mas a realidade também exige contexto, respeito e, sobretudo, humanidade.
A tragédia dos Mamonas foi um marco geracional. A cobertura do NP foi um marco midiático. Impactante, sim — mas também revelador. Revelador de um tempo em que o sensacionalismo não pedia licença e de um público que consumia o choque com a mesma voracidade com que consumia o sucesso da banda.

No fim, fica a pergunta incômoda: o que nos choca mais hoje — as fotos em si ou o fato de termos comprado o jornal? Talvez a resposta esteja no silêncio constrangido que ainda paira quando o assunto volta à tona. Porque a memória coletiva, assim como o papel-jornal, também mancha. E algumas manchas, por mais que o tempo passe, não saem.
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