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Por que o Pasquim fracassaria hoje?

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Há algo de quase mítico quando se fala em O Pasquim. Não era apenas um jornal: era trincheira, palco, botequim e confessionário de uma geração que ria para não ser esmagada. Criado em plena ditadura militar, ele transformou o humor em arma e o deboche em linguagem política. Hoje, porém, a pergunta não é se ele faria sucesso — mas se sobreviveria.

O primeiro obstáculo é justamente o contexto. O Pasquim nasceu como resposta a um regime autoritário, num ambiente em que a censura tornava o humor ainda mais potente. Rir era resistir. Hoje, vivemos em uma democracia formal, com liberdade de imprensa consolidada. Isso não significa ausência de tensões, mas muda radicalmente o papel do humor político. Sem o peso opressivo de um inimigo claro, o riso perde sua função de catarse coletiva e se dilui em múltiplas bolhas ideológicas.

“Reunir figuras como Millôr Fernandes, Jaguar, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Henfil, Paulo Francis e Ziraldo em um mesmo projeto seria hoje economicamente proibitivo e, talvez mais importante, logisticamente impossível do ponto de vista das vaidades criativas. Aquela concentração de gênios era produto de um momento histórico específico — um raro alinhamento de talento, circunstância e necessidade.”

Outro ponto é a própria mídia. O jornal impresso, que já foi rei, hoje é quase uma relíquia. A velocidade da internet transformou a informação em fluxo contínuo e descartável. O que antes era aguardado semanalmente, hoje se dissolve em segundos no feed. Um Pasquim contemporâneo teria que disputar atenção com memes, vídeos curtos e algoritmos vorazes — e dificilmente conseguiria manter o mesmo impacto cultural.

Há também a questão do talento. Reunir figuras como Millôr Fernandes, Jaguar, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Henfil, Paulo Francis e Ziraldo em um mesmo projeto seria hoje economicamente proibitivo e, talvez mais importante, logisticamente impossível do ponto de vista das vaidades criativas. Aquela concentração de gênios era produto de um momento histórico específico — um raro alinhamento de talento, circunstância e necessidade.

E há o humor em si. O Pasquim era irreverente, provocador e frequentemente politicamente incorreto. Hoje, o ambiente cultural é mais sensível — ou mais vigilante, dependendo do ponto de vista. O humor que outrora desafiava o poder agora precisa atravessar o crivo das redes sociais, onde julgamentos são instantâneos e muitas vezes implacáveis. O risco de “cancelamento” não é apenas um detalhe: é um fator estrutural que molda o que pode ou não ser dito.

Entre algoritmos e susceptibilidades

Mas há ainda outras camadas menos óbvias. O Pasquim floresceu em um tempo em que o público compartilhava referências comuns. Hoje, a fragmentação é a regra. Cada grupo consome seu próprio conteúdo, reforçando suas crenças. Um jornal satírico que tentasse falar com todos provavelmente não falaria com ninguém. Ou pior: seria apropriado por uma tribo e rejeitado pelas demais.

Além disso, a lógica econômica mudou. O Pasquim operava em um modelo relativamente simples: vendia exemplares e conquistava leitores fiéis. Hoje, a monetização do conteúdo depende de cliques, engajamento e publicidade programática. O humor sofisticado, cheio de camadas e ironias, muitas vezes perde para o conteúdo mais direto e viralizável. Em outras palavras, o algoritmo não tem senso de humor — ou tem um gosto bastante questionável.

Há ainda o fator da instantaneidade. O Pasquim tinha tempo para maturar suas ideias, construir suas piadas, lapidar seus textos. Hoje, a pressão por produzir constantemente reduz o espaço para a elaboração. O humor se torna reativo, quase impulsivo, perdendo a densidade que fazia do jornal algo mais do que uma coleção de piadas: um retrato crítico do país.

A tentativa de ressuscitar esse espírito já foi feita. O Pasquim 21, capitaneado por Ziraldo nos anos 2000, tentou atualizar a fórmula, mas naufragou. Faltava não apenas o contexto original, mas também a capacidade de reinventar o modelo para um novo tempo. Era uma homenagem, não uma revolução — e o público percebeu.

No fundo, o fracasso hipotético do Pasquim hoje não diminui sua grandeza; pelo contrário, a reforça. Ele foi filho de uma época em que o humor era uma necessidade vital, não apenas entretenimento. Talvez o maior erro seja tentar transplantá-lo para o presente como se fosse um produto replicável.

Um Pasquim contemporâneo teria que disputar atenção com algoritmos (Foto: Wikipédia)
Um Pasquim contemporâneo teria que disputar atenção com algoritmos (Foto: Wikipédia)

Se surgisse hoje, provavelmente não seria um jornal. Talvez fosse um coletivo digital, um canal híbrido, um experimento multimídia. Mas dificilmente teria a mesma força simbólica. Porque o Pasquim não era apenas o que dizia — era o momento em que dizia. E isso, como toda boa piada, depende de timing.


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