O infame assassinato de Yitzhak Rabin
Há assassinatos que interrompem uma vida. E há aqueles que sabotam o futuro. O caso de Yitzhak Rabin pertence, tragicamente, à segunda categoria. Sua morte, em 4 de novembro de 1995, não foi apenas o silenciamento de um líder político — foi o tiro seco contra uma possibilidade histórica de reconciliação no Oriente Médio. E, como toda tragédia política de grande escala, ela não ocorreu no vazio: foi gestada no caldo fervente do extremismo, da intolerância e da incapacidade humana de lidar com a complexidade da paz.
Rabin não era um pacifista ingênuo. Era, ironicamente, um homem de guerra que entendeu o limite da guerra. Ex-general e herói militar de Israel, ele conhecia o custo humano do conflito não por abstração acadêmica, mas por experiência direta. Talvez por isso tenha sido uma das figuras centrais dos Acordos de Oslo, firmados com a Organização para a Libertação da Palestina e simbolizados pelo aperto de mãos histórico com Yasser Arafat sob os olhos atentos de Bill Clinton. Era um gesto carregado de simbolismo — e de risco.
“Os Acordos de Oslo ainda são citados, mas mais como memória do que como projeto viável. A solução de dois Estados, outrora considerada um caminho plausível, hoje parece encurralada entre realidades políticas endurecidas e uma geografia cada vez mais fragmentada.”
Porque fazer a paz, como se sabe, é muito mais perigoso do que fazer a guerra. A guerra une pelo medo; a paz divide pela esperança. E foi exatamente essa esperança que inflamou setores radicais dentro da própria sociedade israelense. Rabin passou a ser visto não como um estadista pragmático, mas como um traidor. Sua imagem foi demonizada em protestos, caricaturada com símbolos nazistas — uma ironia grotesca para um país fundado sob as cinzas do Holocausto.
O autor dos disparos, Yigal Amir, não surgiu do nada. Ele foi produto de um ambiente ideológico que tratava concessões territoriais como heresia e a convivência com palestinos como capitulação moral. Seu ato não foi apenas criminoso; foi político no sentido mais perturbador da palavra: pretendia redefinir o curso da história. E, em certa medida, conseguiu.
A paz interrompida e o vácuo que se seguiu
Após a morte de Rabin, o processo de paz entrou em uma espécie de coma crônico. Seu sucessor imediato, Shimon Peres, tentou manter viva a chama dos acordos, mas enfrentou um cenário interno hostil e uma escalada de violência que minava qualquer tentativa de avanço. Pouco depois, a ascensão de Benjamin Netanyahu ao poder marcou uma inflexão significativa na política israelense, com maior ceticismo — para dizer o mínimo — em relação às concessões feitas em Oslo.
Do lado palestino, a frustração também cresceu. A promessa de um Estado próprio parecia cada vez mais distante, enquanto assentamentos israelenses continuavam a se expandir. O ciclo de desconfiança foi se retroalimentando, como uma engrenagem trágica que ninguém conseguia — ou queria — desmontar. A paz, que já era frágil, tornou-se quase uma ficção diplomática.
É tentador olhar para trás e romantizar Rabin como o “último grande pacificador”. Mas isso seria simplificar demais. Ele próprio enfrentava contradições, resistências e limites políticos concretos. Ainda assim, sua morte eliminou uma liderança que tinha legitimidade interna e capital político suficientes para sustentar negociações impopulares. E isso, em contextos de conflito prolongado, é raríssimo.
Há também um aspecto incômodo, quase universal, nessa história: o inimigo da paz nem sempre vem de fora. Muitas vezes, ele está dentro, alimentado por discursos inflamados, identidades rígidas e certezas absolutas. O assassinato de Rabin é um lembrete brutal de que sociedades democráticas não são imunes ao extremismo — apenas o acomodam de forma mais sofisticada, até que ele encontre uma brecha para agir.
Três décadas depois, o Oriente Médio continua a lidar com os escombros daquele momento. Os Acordos de Oslo ainda são citados, mas mais como memória do que como projeto viável. A solução de dois Estados, outrora considerada um caminho plausível, hoje parece encurralada entre realidades políticas endurecidas e uma geografia cada vez mais fragmentada.

No fim das contas, o assassinato de Yitzhak Rabin não foi apenas um episódio trágico — foi um ponto de inflexão. Um daqueles momentos em que a história não apenas muda de direção, mas perde velocidade moral. E talvez o mais perturbador seja reconhecer que, desde então, o mundo tem assistido, com uma mistura de resignação e cinismo, à lenta erosão daquela chance rara de paz.
Última atualização da matéria foi há 11 horas

Anacleto Colombo assina a seção Não Perca!, onde mergulha sem colete na crônica sombria da criminalidade, da violência urbana, das máfias e dos grandes casos que marcaram a história policial. Com faro apurado, narrativa envolvente e uma queda por detalhes perturbadores, ele revela o lado oculto de um mundo que muitos preferem ignorar. Seus textos combinam rigor investigativo com uma dose de inquietação moral, sempre instigando o leitor a olhar para o abismo — e reconhecer nele parte da nossa sociedade. Em um portal dedicado à informação com profundidade, Anacleto é o repórter que desce até o subsolo. E volta com a história completa.
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