Caso Havaianas: chilique direitista reciclado
Há algo de curiosamente previsível na política brasileira contemporânea: sempre que falta projeto, sobra escândalo simbólico. O chamado “Caso Havaianas” entra direto nessa prateleira de episódios em que a indignação parece menos ideológica e mais performática. Uma propaganda de chinelos — sim, chinelos — foi elevada ao patamar de ameaça civilizatória por setores da direita que enxergaram na frase “não começar o ano com o pé direito” um suposto ataque político. O problema não é a leitura enviesada; é a urgência em transformar qualquer peça publicitária em trincheira cultural.
A campanha, estrelada por Fernanda Torres, não faz menção a partidos, governos ou ideologias. Ao contrário, aposta em um discurso genérico, quase motivacional, sobre viver o ano novo “com os dois pés”, seja na estrada, na jaca ou na porta. Mas, em tempos de polarização crônica, metáforas simples viram códigos secretos, e o marketing vira manifesto. Para alguns parlamentares, não usar Havaianas tornou-se um ato político; jogar o chinelo no lixo, um gesto de resistência épica — ainda que o lixo, ironicamente, seja o destino natural de qualquer sandália depois de alguns verões.
“Filmes, livros, peças publicitárias e até escolhas de elenco tornaram-se campos de batalha porque tocam em feridas que nunca cicatrizaram. Ao invés de enfrentar o debate sobre o passado autoritário do país com argumentos e dados, parte da direita prefere reagir com boicotes simbólicos e gestos performáticos, como se jogar um par de chinelos fora fosse um ato de reescrita histórica.”
O boicote ganhou força não pelo conteúdo do comercial, mas pelo histórico recente da atriz. Desde sua participação em Ainda Estou Aqui (2024), filme que denuncia crimes do Regime Militar, Fernanda Torres passou a ser tratada como símbolo de uma narrativa que incomoda quem prefere lembrar a ditadura como um período de ordem e bons costumes. Assim, não se ataca a propaganda; ataca-se a pessoa. Não se discute a mensagem; discute-se o mensageiro. É a velha tática de deslocar o debate do campo das ideias para o terreno da histeria moral.

Há, também, um elemento de marketing involuntário nisso tudo. Poucas marcas conseguem comprar tanta exposição quanto a que surge de um boicote barulhento e mal fundamentado. As Havaianas, que atravessaram décadas como símbolo pop nacional, de repente se veem no centro de um debate político que não provocaram. O resultado costuma ser paradoxal: enquanto alguns queimam chinelos em nome da pureza ideológica, outros correm às lojas para comprar o “calçado proibido”. O capitalismo, sempre pragmático, agradece.
Política de chinelo e memória curta
No fundo, o episódio revela mais sobre quem protesta do que sobre quem é alvo do protesto. A política brasileira vive uma espécie de adolescência tardia, em que gestos teatrais substituem propostas concretas. É mais fácil brigar com uma propaganda de 30 segundos do que explicar um plano econômico, social ou institucional para o país. É mais confortável apontar inimigos imaginários do que lidar com a ausência de lideranças viáveis e de discursos renovados.
Há um dado que não pode ser ignorado: a propaganda não contém crítica alguma à direita. A associação automática entre “pé direito” e “direita política” é uma leitura forçada, quase uma paródia involuntária. Se toda expressão cotidiana virar senha ideológica, logo teremos debates acalorados sobre usar a mão direita para cumprimentar alguém ou virar à direita no trânsito. A política, reduzida a esse nível de literalidade, perde densidade e vira meme — ainda que alguns insistam em tratá-la como cruzada moral.
O incômodo real parece residir na disputa pela memória histórica. Filmes, livros, peças publicitárias e até escolhas de elenco tornaram-se campos de batalha porque tocam em feridas que nunca cicatrizaram. Ao invés de enfrentar o debate sobre o passado autoritário do país com argumentos e dados, parte da direita prefere reagir com boicotes simbólicos e gestos performáticos, como se jogar um par de chinelos fora fosse um ato de reescrita histórica.

No limite, o “Caso Havaianas” expõe um esgotamento narrativo. Quando a política se resume a caçar ofensas onde elas não existem, é sinal de que falta horizonte. Talvez fosse mais produtivo — e menos constrangedor — investir energia em construir um projeto convincente para 2026, em vez de declarar guerra a uma sandália de borracha. Afinal, governos se elegem com votos, não com stories indignados. E democracias se fortalecem com ideias, não com chiliques reciclados.
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