Dominic Cummings: o pai do Brexit
Poucos personagens recentes da política europeia encarnam tão bem a figura do estrategista incômodo quanto Dominic Cummings. Para uns, um gênio tático capaz de alterar o curso da história com slogans certeiros e dados bem manipulados; para outros, um operador cínico que ajudou a rebaixar o debate público ao nível de uma campanha permanente de desinformação. Entre esses extremos, há um fato difícil de contestar: sem ele, o Brexit talvez tivesse sido apenas mais uma frustração eurocética britânica.
Nascido em 1971, no nordeste da Inglaterra, Cummings não seguiu exatamente o roteiro clássico da elite política londrina. Passou por Oxford, é verdade, mas sua trajetória sempre foi marcada por uma certa aversão às formalidades institucionais. Trabalhou na Rússia nos anos 1990, teve passagens erráticas por projetos educacionais e campanhas políticas, e foi acumulando uma reputação de “mente brilhante, porém intratável”. Uma combinação que, convenhamos, costuma ser celebrada até o momento em que se torna inconveniente.
“Em seu blog e em entrevistas, ele segue disparando análises longas, técnicas e frequentemente ácidas sobre o funcionamento do Estado, a mediocridade da classe política e os desafios tecnológicos do século XXI.”
Seu primeiro grande momento veio na campanha contra a adoção do euro no Reino Unido, ainda nos anos 2000. Ali já estavam presentes os elementos que mais tarde seriam refinados: comunicação direta, exploração de medos difusos e um uso quase obsessivo de dados e segmentação de público. Mas foi em 2016 que Cummings encontrou o palco ideal — e o momento histórico certo.
Como diretor da campanha Vote Leave, ele ajudou a transformar uma pauta complexa em um mantra simples e emocional: “Take Back Control”. A frase não era apenas um slogan; era um dispositivo psicológico. Falava de soberania, imigração, identidade — tudo ao mesmo tempo, sem precisar explicar nada em profundidade. Foi política em versão condensada, pronta para consumo rápido. E funcionou.
A campanha do Brexit também ficou marcada pelo uso intensivo de dados e estratégias digitais controversas, frequentemente associadas a empresas como a Cambridge Analytica. Embora o grau de envolvimento direto de Cummings nesses mecanismos seja objeto de debate, seu papel na arquitetura da campanha é inegável. Ele entendeu antes de muitos que eleições modernas não são vencidas apenas com discursos, mas com algoritmos.
Após a vitória do Brexit, Cummings tornou-se uma figura ainda mais central ao assumir o cargo de principal assessor de Boris Johnson quando este chegou ao poder em 2019. Ali, sua influência atingiu o auge — e, como costuma acontecer, também plantou as sementes de sua queda.
O estrategista que virou problema
No governo, Cummings tentou aplicar sua lógica de ruptura a uma máquina estatal notoriamente resistente a mudanças. Defendeu reformas radicais, atacou burocratas, comprou brigas internas e acumulou inimigos com a mesma eficiência com que acumulava poder. Era o “outsider” dentro do sistema, mas agora com responsabilidades reais — uma transição que nem sempre favorece os iconoclastas.
Sua saída em 2020 foi tão turbulenta quanto sua ascensão. Oficialmente, divergências internas. Na prática, um misto de desgaste político, escândalos (incluindo a polêmica viagem durante o lockdown da COVID-19) e o desconforto crescente de governar com alguém que parecia prosperar no caos. O arquiteto da vitória tornou-se um risco à estabilidade do próprio governo que ajudou a construir.
Desde então, Cummings adotou um papel curioso: o de crítico feroz do sistema político britânico — incluindo figuras com quem trabalhou de perto. Em seu blog e em entrevistas, ele segue disparando análises longas, técnicas e frequentemente ácidas sobre o funcionamento do Estado, a mediocridade da classe política e os desafios tecnológicos do século XXI. É como se tivesse trocado os bastidores pelo púlpito, mas sem abandonar o tom combativo.
Atualmente, ele continua atuando como comentarista, estrategista informal e uma espécie de “consciência incômoda” do establishment britânico. Não ocupa cargos formais, mas sua influência persiste, especialmente entre aqueles que veem a política como um campo de experimentação — e não como um espaço de consensos.
Há algo de paradoxal em Dominic Cummings. Ele é, ao mesmo tempo, produto e crítico do sistema que ajudou a desestabilizar. Um homem que denunciou a ineficiência do Estado, mas cuja principal realização prática — o Brexit — ainda gera debates sobre seus custos e benefícios reais. Um estrategista brilhante que talvez tenha vencido a batalha, mas deixou o campo de guerra em estado permanente de tensão.

No fim das contas, Cummings não é apenas “o pai do Brexit”. Ele é também um símbolo de uma era em que a política deixou de ser apenas disputa de ideias para se tornar, cada vez mais, uma disputa de narrativas — moldadas, testadas e otimizadas como produtos. E nisso, goste-se ou não, ele foi um pioneiro.

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