Maria Teresa Jacob: “Tratamentos tradicionais não oferecem melhora”

 Maria Teresa Jacob

O uso de plantas para o tratamento de doenças é milenar (maconha incluída). Os primeiros registros de seu uso medicinal são datados antes de Cristo, mas o fato de ser considerada substância ilícita até este mês dificultou os avanços e estudos científicos da planta. Apesar do nosso país ter votado contra, no último dia dois de dezembro, depois de 60 anos, a ONU (Organização das Nações Unidas) retirou a maconha da lista de drogas mais perigosas, reconhecendo seus efeitos terapêuticos e trazendo novas possibilidades de pesquisas nessa área. Segundo estudo realizado pela The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids, nos Estados Unidos, o alívio da dor crônica é a condição mais comum relatada pelos pacientes que fazem uso da cannabis medicinal. Isso se dá pela existência do sistema endocanabinoide presente em todo o organismo que inclui receptores para substâncias da maconha. “É o único sistema do organismo que tem receptores em todos os órgãos e nos tecidos”, diz Maria Teresa Jacob, médica que desenvolve a medicina canabinoide com foco na dor crônica. Dentre os fitocanabinoides mais conhecidos e pesquisados, estão o THC (tetra-hidrocanabinol) e o CBD (canabidiol), mas existem mais de 400 substâncias ativas em sua composição. “Como são receptores que temos no corpo inteiro, a cannabis não vai atuar somente na dor”, reforça a Dra. Beatriz Jacob Milani, filha e parceira de trabalho de Maria Teresa.

O que é fibromialgia e como ela afeta a vida dos pacientes?

A dor crônica é uma das queixas mais frequentes na prática clínica e a FM é uma das causas principais de dor crônica difusa. Estima-se que acometa cerca de 2 a 8% da população mundial e é a maior responsável pela dor generalizada entre as mulheres em idade produtiva, porém, pode acometer também homens e até crianças. Nos Estados Unidos ela atinge 5 milhões ou mais de mulheres acima de 18 anos. A doença pode ter grande impacto na saúde, sensação de bem-estar e qualidade de vida. Frequentemente a dor é acompanhada por distúrbios do sono, alteração de humor, fadiga e outros sintomas somáticos. Muitos ainda a rotulam como doença psicossomática, porém, atualmente a teoria mais aceita é que exista uma amplificação da percepção da dor no sistema nervoso, conhecida como sensibilização central.

No que consiste o tratamento convencional da fibromialgia?

O tratamento deve abordar a parte não medicamentosa e medicamentosa. O tratamento não medicamentoso inclui a Acupuntura, a educação do paciente em relação à doença, atividade física, todas as modalidades de fisioterapia e reabilitação, yoga, alimentação saúdavel, técnicas de relaxamento e integração mente/corpo. Devido à complexidade da doença muitos pacientes não respondem bem aos tratamentos medicamentosos tradicionais. No tratamento farmacológico são utilizados Anticonvulsivantes, Antidepressivos, Analgésicos, Opioides fracos, relaxantes musculares entre outros. No mundo, até o momento, existem somente 3 medicamentos com aprovação de bula para tratar a FM: duloxetina e milnacipran e pregabalina.

O tratamento convencional garante qualidade de vida aos pacientes?

Muitas vezes os tratamentos medicamentosos tradicionais não oferecem uma melhora satisfatória dos sintomas aliviando alguns, mas não todos, não devolvendo ao indivíduo uma boa qualidade de vida. Aliado ao fato da melhora insatisfatória eles podem causar efeitos colaterais indesejáveis que chegam a impedir a continuação do tratamento, como, por exemplo, sedação excessiva, ganho de peso e distúrbios sexuais.

Como é feito o tratamento com a cannabis?

Como em outros casos de dor crônica a cannabis medicinal pode ser utilizada como coadjuvante de tratamento, atuando em diferentes sintomas, diminuindo ou até eliminando alguma medicação tradicional com melhora da qualidade de vida e sem efeitos adversos significativos.

Há efeitos colaterais no tratamento com a cannabis?

Na maioria das vezes os efeitos colaterais com a cannabis são leves a moderados e costumam ocorrer no início do tratamento até a dosificação ideal para o paciente.

O tratamento com a cannabis é recomendado para todos os tipos de pacientes com fibromialgia ou há restrições?

Normalmente não existem restrições ao uso da cannabis no tratamento da FM, deve-se avaliar o perfil do paciente e indicar a composição e dosagens dos componentes adequadas para ele.

Como são produzidos os medicamentos à base de cannabis utilizados no Brasil?

Os produtos de qualidade são adquiridos através de importação. O paciente deve procurar um médico com experiência em prescrição de cannabis medicinal. Com a sua prescrição em mãos, o paciente preenche um processo de importação de produto a base de canabidiol no site da Anvisa. Em aproximadamente 7 a 10 dias ele obtém a liberação e pode efetuar a compra do medicamento on-line.

Quais são os principais benefícios do tratamento com cannabis em relação ao convencional?

Quando o paciente não apresenta alívio satisfatório e/ou apresenta efeitos colaterais intoleráveis com tratamentos tradicionais, a cannabis pode controlar melhor os sintomas, sem efeitos colaterais e com recuperação da qualidade de vida.

Na sua análise como médica, ainda existe muito preconceito dos profissionais da saúde em relação à cannabis?

Sim, não só dos profissionais da saúde como também da população e de órgãos governamentais. Só mudaremos este cenário através da desmistificação da cannabis medicinal que já era utilizada com esta finalidade 4000 anos antes de Cristo.

Fale mais sobre isso.

Hoje sabe-se que ela atua no maior sistema do organismo responsável pelo equilíbrio orgânico, o sistema endocanabinóide, restabelecendo assim a saúde nos mais diferentes órgãos e tecidos.

Compartilhar:
Voltar ao Topo
Skip to content