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Sargento Getúlio: quando o autor se engaja

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Há livros que contam uma história. Outros, mais raros, parecem tomar partido dela. Sargento Getúlio pertence à segunda categoria — e talvez por isso continue incomodando, fascinando e, sobretudo, provocando. Publicado em 1971, em pleno período de Ditadura Militar no Brasil, o romance de João Ubaldo Ribeiro não é apenas uma narrativa regionalista sobre o sertão: é um retrato visceral do autoritarismo entranhado na cultura política brasileira.

A trama é simples na superfície: o sargento Getúlio Santos Bezerra recebe a missão de transportar um preso político pelo interior nordestino. No caminho, porém, o Brasil profundo se impõe — com sua violência, suas hierarquias informais e sua lógica própria, muitas vezes alheia à lei oficial. O que poderia ser apenas uma história de escolta se transforma numa viagem mental, quase febril, conduzida por uma linguagem que desafia o leitor desde a primeira linha.

“O engajamento de João Ubaldo Ribeiro é mais profundo do que o de muitos autores explicitamente políticos. Ele não entrega respostas prontas nem constrói heróis edificantes. Prefere mergulhar na ambiguidade.”

E é justamente aí que o autor se engaja. Não se trata de panfleto — longe disso. João Ubaldo Ribeiro opta por algo mais sofisticado: incorpora o discurso do próprio opressor. Getúlio fala, pensa e age dentro de uma lógica brutal, quase primitiva, mas profundamente coerente com o sistema que o moldou. Ao dar voz a esse personagem, o autor não o absolve; ao contrário, expõe sua engrenagem interna com uma frieza que beira o desconforto.

A linguagem é um capítulo à parte. O texto é denso, oralizado, marcado por regionalismos e por um fluxo de consciência que lembra, em certos momentos, experiências literárias mais radicais. Não é leitura fácil — e nem pretende ser. Há uma espécie de resistência ativa ao leitor apressado, como se o próprio livro exigisse tempo, atenção e, principalmente, disposição para encarar suas contradições.

Entre a ordem e o delírio: o Brasil de farda e faca

O grande mérito de Sargento Getúlio está em revelar como a violência institucional pode se confundir com convicção pessoal. Getúlio não se vê como vilão; ele é, em sua própria cabeça, um cumpridor de deveres. Sua lealdade não é à justiça abstrata, mas a uma cadeia de comando difusa, onde mandonismo local e poder estatal se misturam sem cerimônia.

Esse ponto é particularmente incômodo porque ecoa muito além do contexto histórico do livro. A obra sugere, sem didatismo, que o autoritarismo não nasce apenas nos gabinetes — ele se infiltra no cotidiano, nas relações pessoais, na cultura. O sargento é produto e agente desse sistema, um homem que internalizou a violência como norma.

Há, também, uma dimensão quase trágica no personagem. Getúlio não é apenas brutal; ele é limitado. Sua visão de mundo é estreita, sua linguagem é repetitiva, seu raciocínio é circular. E, ainda assim, ele avança com uma convicção inabalável. O leitor, por vezes, se vê dividido entre o repúdio e uma estranha compreensão — não do ato, mas da lógica que o sustenta.

Nesse sentido, o engajamento de João Ubaldo Ribeiro é mais profundo do que o de muitos autores explicitamente políticos. Ele não entrega respostas prontas nem constrói heróis edificantes. Prefere mergulhar na ambiguidade, expondo o desconforto como método. É um engajamento que provoca, não que consola.

Talvez por isso o romance continue atual. Em tempos em que discursos de ordem e autoridade voltam a ganhar espaço, revisitar Sargento Getúlio é quase um exercício de lucidez — ou, se preferirmos, de autocrítica nacional.

A obra sugere que o autoritarismo não nasce apenas nos gabinetes (Foto: Wikipédia)
A obra sugere que o autoritarismo não nasce apenas nos gabinetes (Foto: Wikipédia)

No fim das contas, o livro não oferece redenção. Não há catarse fácil, nem justiça poética. O que resta é a sensação incômoda de que Getúlio não é apenas um personagem isolado, mas um sintoma persistente. E é justamente aí que o autor se engaja de forma mais contundente: ao nos obrigar a reconhecer, ainda que a contragosto, os ecos desse sargento dentro da própria história brasileira.

Última atualização da matéria foi há 1 semana


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