Lampião da Esquina: ícone da causa gay
Há jornais que informam, outros que opinam, e alguns raros que acendem fósforos em depósitos de pólvora. Lampião da Esquina pertence a essa última categoria. Surgido no fim dos anos 1970, quando a Ditadura Militar começava a afrouxar o nó da censura sem jamais largar o laço da repressão, o jornal não foi apenas um veículo homossexual: foi um gesto político impresso em papel barato, vendido na esquina, lido às escondidas e debatido às claras. Um jornal que nasceu sabendo que incomodaria — e fez disso método.
Fundado em 1978, dentro do caldo da imprensa alternativa, o Lampião apareceu num Brasil que ensaiava a abertura política, mas ainda praticava o autoritarismo no varejo: delegacias, batidas policiais, perseguições morais, assassinatos silenciosos. A ideia surgiu após a visita de Winston Leyland, editor do norte-americano Gay Sunshine, e ganhou corpo na casa de Darcy Penteado, pintor, intelectual e agitador cultural. Dali saiu um conselho editorial que hoje parece um pequeno cânone da inteligência crítica brasileira: Aguinaldo Silva, Jean-Claude Bernardet, João Silvério Trevisan, Peter Fry, entre outros. Gente que não queria pedir licença — queria espaço.
“O mérito maior do Lampião foi não se limitar à “causa gay” no sentido estreito e comportado que o termo ganharia décadas depois. O jornal falava de gays, sim, mas também de lésbicas, travestis, pessoas negras, mulheres e povos originários. Falava de repressão policial, assassinatos de travestis, perseguição em cinemas pornôs, mapas de pegação no centro de São Paulo, masculinização das bichas e sensualidade como linguagem política.”
O Lampião da Esquina falava para quem não tinha voz, mas também falava contra quem sempre falou demais. Representou uma classe empurrada para a margem e ajudou a construir uma identidade nacional menos hipócrita e mais plural. Em 38 edições — incluindo o número zero — o jornal circulou entre 10 e 15 mil exemplares, número nada desprezível para um tabloide assumidamente homossexual num país conservador, católico e policialesco. Sustentado por doações, colaboração militante e uma editora própria, o Lampião foi economia criativa antes do termo virar palestra de startup.
O formato tabloide era direto, quase insolente. Seções fixas como “Cartas na Mesa” davam ao leitor algo raro: resposta. A “Esquina” reunia notícias, a “Reportagem” trazia a matéria de capa e, mais adiante, a coluna “Bixórdia” escancarava o humor, a ironia e o deboche como armas políticas. Cultura nunca foi enfeite: livros, filmes, exposições e música apareciam como trincheiras simbólicas, não como agenda social.
Quando o desvio vira método e a margem vira centro
O mérito maior do Lampião foi não se limitar à “causa gay” no sentido estreito e comportado que o termo ganharia décadas depois. O jornal falava de gays, sim, mas também de lésbicas, travestis, pessoas negras, mulheres e povos originários. Falava de repressão policial, assassinatos de travestis, perseguição em cinemas pornôs, mapas de pegação no centro de São Paulo, masculinização das bichas e sensualidade como linguagem política. Era um jornal que entendia que liberdade não vem em compartimentos estanques.
Ali conviviam Cassandra Rios e Leci Brandão, Ney Matogrosso e Darcy Penteado, literatura lésbica, música feminista e homoerotismo figurativo. O Lampião documentou o surgimento de grupos ativistas “desviados” e “entendidos” — termos da época, carregados de ironia e orgulho. Em vez de pedir desculpas, o jornal explicava, confrontava, provocava. Era didático sem ser paternalista e militante sem virar cartilha.
Curiosamente, sua trajetória editorial revela uma tensão permanente entre abertura e gueto. No início, o projeto era tirar o “gay” da margem, dialogar com outras minorias, disputar o espaço público. Na fase final, o jornal se assume mais guetizado, mais ousado, com ensaios sensuais e temas ainda mais espinhosos. Para alguns, isso foi um desvio de rota; para outros, coerência radical. Afinal, ocupar o gueto também é estratégia política quando o centro insiste em expulsar.

Hoje, com edições preservadas no Grupo Dignidade e no Acervo Bajubá, o Lampião da Esquina sobrevive como documento histórico e como provocação permanente. Num tempo em que diversidade virou slogan publicitário e militância, muitas vezes, estética de rede social, o jornal lembra que vanguarda dói, custa caro e cobra preço pessoal. O Lampião não queria ser aceito: queria ser lido. E, sobretudo, queria incomodar. Missão cumprida — com tinta, coragem e farpas afiadas.
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