Megalópolis: a insanidade de Coppola
Existe um tipo raro de filme que parece ter sido feito menos para agradar o público e mais para satisfazer uma obsessão pessoal. Não é exatamente entretenimento, tampouco um manifesto perfeitamente organizado. É algo mais próximo de um delírio cinematográfico — às vezes brilhante, às vezes caótico. Megalópolis pertence claramente a essa categoria.
O longa é a realização tardia de um sonho antigo de Francis Ford Coppola. Durante décadas, o cineasta falou sobre esse projeto como quem descreve uma catedral que pretende construir sozinho. Não era apenas um filme: era uma visão grandiosa sobre civilização, poder, decadência e utopia. Em resumo, Coppola queria reinventar o cinema enquanto comentava sobre o destino das cidades modernas.
“Coppola parece sugerir que as democracias modernas vivem uma espécie de repetição da história romana: elites decadentes, disputas de poder e uma população dividida entre espetáculo e sobrevivência. Não é exatamente uma metáfora sutil, mas é uma metáfora vigorosa.”
No papel, a premissa é intrigante. A história acompanha um arquiteto visionário que deseja reconstruir uma metrópole decadente, transformando-a em uma cidade ideal. O problema é que esse projeto entra em choque com políticos, empresários e interesses estabelecidos. Em outras palavras, trata-se de um conflito entre imaginação e poder — um tema que atravessa toda a filmografia de Coppola.
Mas o que poderia ser apenas um drama urbano se transforma em algo muito mais estranho. Megalópolis mistura política, filosofia, ficção científica, sátira e melodrama num mesmo caldeirão. Há momentos que lembram tragédias romanas, outros que parecem saídos de um musical experimental, e alguns que parecem uma espécie de sonho febril sobre o futuro das metrópoles.
Um monumento cinematográfico ao excesso
Talvez o aspecto mais fascinante de Megalópolis seja o fato de que o filme existe — simples assim. Para realizá-lo, Coppola tomou uma decisão radical: financiou boa parte do projeto com dinheiro próprio, chegando a vender vinhedos da família. Em uma indústria cada vez mais dominada por franquias previsíveis, esse gesto tem algo de quixotesco.
O resultado, naturalmente, dividiu opiniões. Há quem considere o filme um desastre pretensioso. Outros o veem como uma obra visionária incompreendida. Provavelmente a verdade está em algum ponto entre esses extremos. O que ninguém pode negar é que Megalópolis é um filme que se recusa a ser convencional.
Visualmente, a obra é ambiciosa até o limite do exagero. A cidade fictícia que Coppola cria lembra ao mesmo tempo a Roma antiga, Nova York e uma metrópole futurista. Arranha-céus surgem como templos modernos, enquanto os diálogos frequentemente assumem um tom quase teatral, como se estivéssemos diante de uma tragédia clássica.
Essa mistura não é gratuita. Coppola parece sugerir que as democracias modernas vivem uma espécie de repetição da história romana: elites decadentes, disputas de poder e uma população dividida entre espetáculo e sobrevivência. Não é exatamente uma metáfora sutil, mas é uma metáfora vigorosa.
O problema é que a ambição estética do filme às vezes atropela a narrativa. Há momentos em que Megalópolis parece mais interessado em exibir ideias do que em contar uma história coesa. Personagens surgem e desaparecem, diálogos soam deliberadamente artificiais e algumas cenas parecem existir apenas porque Coppola quis experimentar algo.
Isso, claro, irrita quem espera uma narrativa clássica. Mas também é parte do charme estranho do projeto. Coppola, aos 80 e tantos anos, parece ter decidido que já não precisa mais agradar ninguém. Ele simplesmente filma o que deseja — e aceita o risco do fracasso.
Nesse sentido, Megalópolis lembra certos projetos tardios de grandes artistas. Há algo de desmedido, de indisciplinado, de quase imprudente. Mas também há uma liberdade rara. O filme parece feito por alguém que já conquistou tudo e agora quer apenas brincar com as próprias ideias.
E talvez seja exatamente por isso que a obra desperta tanta discussão. O diretor de clássicos como O Poderoso Chefão e Apocalypse Now não precisava provar mais nada para ninguém. Ainda assim, decidiu embarcar em um projeto arriscado, estranho e monumental.
No final das contas, Megalópolis pode não ser um grande filme no sentido tradicional. Mas é um grande gesto artístico. Em um cinema cada vez mais industrializado, dominado por fórmulas e algoritmos, a obra de Coppola surge como um lembrete incômodo: o cinema também pode ser loucura.

E talvez seja justamente dessa loucura que a arte precisa para continuar viva.
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