O fim imerso do raro Arnaud Rodrigues
Há artistas que se despedem do mundo como entraram: sem alarde, mas deixando ecos que demoram a se dissipar. Arnaud Rodrigues é desses. Multifacetado até o limite do incômodo — ator, humorista, compositor, roteirista, produtor, empresário, dirigente de futebol —, ele jamais coube confortavelmente em uma prateleira só. Talvez por isso mesmo sua memória tenha sido, com o tempo, empurrada para um canto discreto da cultura brasileira, como se fosse um daqueles discos bons que não tocam mais no rádio, mas que resistem em coleções teimosas.
Nascido em Serra Talhada, no sertão pernambucano, Arnaud foi um artista de travessias. Cruzou linguagens, formatos e décadas com a naturalidade de quem nunca acreditou muito em fronteiras estéticas. Na televisão, fez escola sem fundar cátedra: ajudou a construir a comédia moderna brasileira na TV Tupi, revelou talentos como Dedé Santana, escreveu para Chico Anysio e atuou com a segurança de quem sabia que o humor, antes de ser piada, é observação social. Arnaud ria, mas fazia pensar — ainda que nem sempre o público percebesse isso de imediato.
“A morte trágica, em um naufrágio no lago da Usina de Lajeado, encerrou de forma abrupta uma vida marcada pela mobilidade. Arnaud sabia nadar, mas não resistiu ao tempo excessivo na água. A imagem é dura, quase literária: um artista que atravessou tantas correntes sucumbe, não, à falta de fôlego criativo, mas a uma fatalidade.”
Sua trajetória musical é um capítulo à parte, desses que a história oficial costuma tratar como nota de rodapé. Com Chico Anysio e Renato Piau, formou o grupo Baiano & os Novos Caetanos, uma espécie de paródia inteligente que misturava sátira, crítica cultural e música popular sem pedir licença. Ao encarnar Paulinho Cabeça de Profeta, Arnaud zombava dos modismos e, ao mesmo tempo, os entendia profundamente. Não é pouca coisa rir do zeitgeist sem parecer ressentido.
E quando, em 1978, gravou “A Carta de Pero Vaz de Caminha”, Arnaud deu outro salto improvável: ajudou a inaugurar o roots reggae no Brasil, muito antes de o gênero ganhar verniz pop ou discurso pasteurizado. Era um artista curioso, inquieto, desses que preferem errar tentando do que acertar repetindo fórmula. Talvez por isso tenha sido também um dos precursores do rap nacional, com a “Melô do Tagarela”, uma experiência híbrida, falada e cantada, que antecipou discussões e sonoridades ainda imaturas por aqui.
Entre o riso popular e a ousadia esquecida
Na teledramaturgia, Arnaud encontrou personagens que o eternizaram no imaginário coletivo, mesmo quando seu nome não era lembrado de imediato. O Cego Jeremias, de Roque Santeiro, e o ingênuo Soró, de Pão Pão, Beijo Beijo, carregavam uma humanidade rara: não eram caricaturas vazias, mas tipos populares atravessados por dignidade e humor. Soró, aliás, fez tanto sucesso que atravessou da novela para o cinema com Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, provando que Arnaud sabia dialogar com o grande público sem subestimá-lo.
Na década de 1980, em A Praça é Nossa, consolidou seu lugar como cronista cômico do Brasil profundo. Seus personagens — o eternamente cansado “Povo Brasileiro”, o fanfarrão Coronel Totonho, o sertanejo Chitãoró — eram mais do que piadas episódicas: eram comentários sociais disfarçados de bordão. Arnaud entendia o riso como linguagem política informal, dessas que chegam onde o discurso sério não entra.
O curioso é que, no auge de uma carreira televisiva estável, ele decide mudar de rota. Em 1999, troca os grandes centros pelo Tocantins, assume um clube de futebol, afasta-se dos holofotes nacionais. Para muitos, parecia um sumiço; para ele, talvez fosse apenas mais uma reinvenção. Planejava voltar, é verdade: novos shows, um programa de variedades local, o retorno à Praça. Havia ainda estrada pela frente.
O fim, no entanto, foi literal e simbolicamente imerso. A morte trágica, em um naufrágio no lago da Usina de Lajeado, encerrou de forma abrupta uma vida marcada pela mobilidade. Arnaud sabia nadar, mas não resistiu ao tempo excessivo na água. A imagem é dura, quase literária: um artista que atravessou tantas correntes sucumbe, não, à falta de fôlego criativo, mas a uma fatalidade.

Talvez o maior risco agora seja deixar Arnaud Rodrigues afundar no esquecimento raso, onde só boiam as obviedades. Revisitar sua obra é perceber que ele estava sempre um passo à frente, mesmo quando parecia apenas fazer graça. Em tempos de humor domesticado e música excessivamente explicada, Arnaud soa raro. E raridades, como se sabe, não desaparecem: apenas exigem mergulhos mais atentos.
Lampião da Esquina: ícone da causa gay
janeiro 19, 2026The Last Airbender é um filme horrendo?
janeiro 16, 2026Os Miseráveis: espólio cultural da Terra
janeiro 14, 2026Os últimos minutos de Anthony Bourdain
janeiro 12, 2026Cabeça Dinossauro: uma obra da cracia?
janeiro 9, 2026Édipo Rei: uma peça que ainda choca
janeiro 7, 2026L’Ami du peuple: uma lâmina revolucionária
janeiro 5, 2026O Exorcista: a grande obra-prima do terror
janeiro 2, 2026Revisitando o genial O Analista de Bagé
dezembro 31, 2025Alô, Alô Marciano: nada mudou (ainda)
dezembro 26, 2025Sol Poente e o desprezo pela arte
dezembro 24, 2025O que sobrará na TV brasileira?
dezembro 22, 2025
Eder Fonseca é o publisher do Panorama Mercantil. Além de seu conteúdo original, o Panorama Mercantil oferece uma variedade de seções e recursos adicionais para enriquecer a experiência de seus leitores. Desde análises aprofundadas até cobertura de eventos e notícias agregadas de outros veículos em tempo real, o portal continua a fornecer uma visão abrangente e informada do mundo ao redor. Convidamos você a se juntar a nós nesta emocionante jornada informativa.




Facebook Comments